# 33

DO QUE ME LEMBRO
Lembro-me da música dos lugares a oeste
dos planos para esse reino amado
que pretendemos tanto tomar de assalto
antes dos brados do fogo
Mas as minhas mãos traziam já
uma sina mais escura, nem a noite
Qualquer penumbra serviu
ao meu coração oculto
a miséria do Inverno
o treino dos falcões nas escarpas
a glória iludida
em que se consumiu o tempo
José Tolentino Mendonça (in «Longe não sabia», Presença)

«a glória iludida»
Estacionei o automóvel noutra rua, mais recatada, debaixo de uma árvore. Caminhei rente aos prédios, «por dentro da sombra mínima do meio-dia», como mais tarde escrevi no meu pequeno Moleskine. Pus os óculos escuros, baixei a cabeça num ângulo de trinta graus, fingi súbito interesse por certas montras (chapelarias, alfarrabistas, lojas de lingerie), pretexto para analisar o reflexo da rua inteira nos vidros impecavelmente polidos, controlei as sombras e os sons de passos atrás de mim, ergui o colarinho da gabardina e entrei no café.
– Quando é que te deixas disso, pá? – perguntou o Guilherme, visivelmente incomodado com os meus tiques de espião caricatural. O Guilherme não faz ideia do que se passa na minha vida, essa é que é essa. E nem sequer vale a pena explicar-lhe. Ele nunca seria capaz de perceber.
– Essas tuas paranóias ainda nos vão sair caras, ouviste? Isto não é nenhum jogo. Isto não é um romance do John Le Carré. Isto não é um filme do James Bond. Percebes?
É claro que percebo. E para perceber nunca necessitei dos tremeliques dele, menos ainda dos seus pânicos, dos seus lugares-comuns e das suas redundâncias. Eu sei que o Guilherme é um tipo porreiro, um tipo voluntarioso, mas anda nisto completamente às cegas. Entrou para a organização há dois anos e julga que já sabe tudo. Não sabe. Pior: não sabe que não sabe.
– O que é que temos desta vez? – perguntou-me ele, em voz baixa. Os dedos tamborilando no tampo da mesa, as pupilas enormes. Passei-lhe o meu Moleskine e ele procurou a página com o canto dobrado. A tinta verde, na vertical, leu a frase: «o treino dos falcões nas escarpas».
– Verso?
– Verso –, respondi-lhe, depois de me certificar que o empregado de bigode à Nietzsche, vagamente suspeito, estava atrás do balcão a aquecer um galão escuro. A duas mesas de distância, quatro velhas faziam crochet e discutiam com voz esganiçada a vida sentimental de uma actriz. Ninguém ouvira a nossa conversa e isso satisfazia-me, por muito que outros pudessem ver nessa satisfação um sinal de descabido excesso de zelo.
Enquanto eu terminava a bica curta, de um só gole, Guilherme começou logo a fazer esquemas num guardanapo de papel. Deixei uma moeda em cima da mesa, guardei o caderno, disse-lhe «até ver» (ele não respondeu) e saí do café, ajeitando de novo a gabardina e a inclinação dos óculos escuros.
A meio da tarde, já me tinha encontrado com quase toda a gente. Faltava o Jorge («antes dos brados do fogo»), a Eduarda («ao meu coração oculto»), o Amílcar («Qualquer penumbra serviu») e a Vera («dos planos para esse reino amado»). Cada um deles saberá exactamente o que fazer, chegada a hora. O único que me preocupa é mesmo o Guilherme. Mas não penso nele agora. Não posso pensar. Agora preparo cada gesto, cada movimento, e repito o vago prenúncio negro do verso que me coube: «a glória iludida», «a glória iludida», «a glória iludida».




























