5.7.05

# 33



DO QUE ME LEMBRO


Lembro-me da música dos lugares a oeste
dos planos para esse reino amado
que pretendemos tanto tomar de assalto
antes dos brados do fogo

Mas as minhas mãos traziam já
uma sina mais escura, nem a noite

Qualquer penumbra serviu
ao meu coração oculto
a miséria do Inverno
o treino dos falcões nas escarpas
a glória iludida
em que se consumiu o tempo


José Tolentino Mendonça (in «Longe não sabia», Presença)



«a glória iludida»

Estacionei o automóvel noutra rua, mais recatada, debaixo de uma árvore. Caminhei rente aos prédios, «por dentro da sombra mínima do meio-dia», como mais tarde escrevi no meu pequeno Moleskine. Pus os óculos escuros, baixei a cabeça num ângulo de trinta graus, fingi súbito interesse por certas montras (chapelarias, alfarrabistas, lojas de lingerie), pretexto para analisar o reflexo da rua inteira nos vidros impecavelmente polidos, controlei as sombras e os sons de passos atrás de mim, ergui o colarinho da gabardina e entrei no café.
– Quando é que te deixas disso, pá? – perguntou o Guilherme, visivelmente incomodado com os meus tiques de espião caricatural. O Guilherme não faz ideia do que se passa na minha vida, essa é que é essa. E nem sequer vale a pena explicar-lhe. Ele nunca seria capaz de perceber.
– Essas tuas paranóias ainda nos vão sair caras, ouviste? Isto não é nenhum jogo. Isto não é um romance do John Le Carré. Isto não é um filme do James Bond. Percebes?
É claro que percebo. E para perceber nunca necessitei dos tremeliques dele, menos ainda dos seus pânicos, dos seus lugares-comuns e das suas redundâncias. Eu sei que o Guilherme é um tipo porreiro, um tipo voluntarioso, mas anda nisto completamente às cegas. Entrou para a organização há dois anos e julga que já sabe tudo. Não sabe. Pior: não sabe que não sabe.
– O que é que temos desta vez? – perguntou-me ele, em voz baixa. Os dedos tamborilando no tampo da mesa, as pupilas enormes. Passei-lhe o meu Moleskine e ele procurou a página com o canto dobrado. A tinta verde, na vertical, leu a frase: «o treino dos falcões nas escarpas».
– Verso?
– Verso –, respondi-lhe, depois de me certificar que o empregado de bigode à Nietzsche, vagamente suspeito, estava atrás do balcão a aquecer um galão escuro. A duas mesas de distância, quatro velhas faziam crochet e discutiam com voz esganiçada a vida sentimental de uma actriz. Ninguém ouvira a nossa conversa e isso satisfazia-me, por muito que outros pudessem ver nessa satisfação um sinal de descabido excesso de zelo.
Enquanto eu terminava a bica curta, de um só gole, Guilherme começou logo a fazer esquemas num guardanapo de papel. Deixei uma moeda em cima da mesa, guardei o caderno, disse-lhe «até ver» (ele não respondeu) e saí do café, ajeitando de novo a gabardina e a inclinação dos óculos escuros.
A meio da tarde, já me tinha encontrado com quase toda a gente. Faltava o Jorge («antes dos brados do fogo»), a Eduarda («ao meu coração oculto»), o Amílcar («Qualquer penumbra serviu») e a Vera («dos planos para esse reino amado»). Cada um deles saberá exactamente o que fazer, chegada a hora. O único que me preocupa é mesmo o Guilherme. Mas não penso nele agora. Não posso pensar. Agora preparo cada gesto, cada movimento, e repito o vago prenúncio negro do verso que me coube: «a glória iludida», «a glória iludida», «a glória iludida».

4.7.05

# 32

Dir-se-ia que o pulso
pousa quase delicado.

O pincel esmerou-se,
com efeito.

Nada macula a pele branca,
pura, do príncipe.

Nenhum sinal de
sangue ou espanto

em sua espada,
no brilho dos olhos.

E belo, e jovem.
O monstro.


Eucanaã Ferraz (in «Desassombro», Quasi)


«sangue ou espanto»

Falam sobre o príncipe, junto à balaustrada. Ao longe, as colinas, o céu de um azul ferrete, aves em fuga para o sul, o sopro do vento nas searas.

– Diz-me da sua coragem.
– Um dia, em plena batalha, avistou um pequeno gamo que estacara, paralisado pelo medo, a meio da planície onde estava alinhada, com as suas vestes garridas e o brilho das espadas, a infantaria inimiga. Os soldados, cegos pela raiva e pelos gritos dos comandantes, passavam pelo animal como se ele fosse invisível. E o nosso Príncipe, à distância, apercebeu-se de como tremia o pobre bicho, rodeado de fúria humana e metal. Foi então que esporeou o cavalo sem que ninguém o pudesse deter e, chegando num ápice ali onde estavam os infiéis, abriu caminho à espadeirada, chegou junto do gamo, apanhou-o sem desmontar e voltou triunfante para o lugar onde os nossos preparavam a refrega definitiva, não sem antes ser atingido por uma flecha no ombro. Entusiasmados com o heroísmo do Príncipe, vencemos a batalha e, mais tarde, a guerra. Eu próprio guardo várias cicatrizes no corpo, mas nenhuma tão formosa como a dele. Compreendes agora porque desenhamos tantos gamos nos brasões?
– Compreendo. E a sua sabedoria? Onde chega ela?
– Dizer que chega ao infinito pode parecer um exagero, mas não é. O nosso Príncipe, desde muito novo, demonstrou grande inclinação para a matemática e para todas as ciências que envolvem cálculos. Ainda petiz, com não mais de oito anos, já passava noites ao relento, com um óculo apontado aos astros, tentando estimar distâncias angulares, rotas de cometas, translações. Os mestres, quando chegou aos 15 anos, já nada tinham para lhe ensinar. Foi nessa altura que se fechou num mosteiro, a pão e água, pensando num sistema do mundo. Quem leu o seu Cosmos, um exemplar único que está guardado na Biblioteca Real, diz que explica o universo todo, da formiga à estrela, demonstrando com lógica inatacável que se trata de uma realidade sem limite. Só de imaginar tal prodígio, consta, os leigos como nós sentem vertigens. Nunca se viu nesta Terra, afirmam os mais distintos sábios europeus, inteligência tão profunda, tão abrangente.
– E é bom, este vosso Príncipe tão perfeito?
– Bondade é uma palavra criada para o descrever. Onde havia pobreza e caos, impôs a ordem e a prosperidade. Onde havia crime e perfídia, tombou a lâmina da justiça.
– Quereis dizer que não há nele a mínima sombra?
– Já vês que não. É corajoso, é sábio, é bom.
– Posso deduzir que os relatos de assassínios e outras ignomínias que lhe atribuem são mentiras sem qualquer fundamento?
– Eis uma pergunta que nem merece resposta, estrangeiro. E para a engolires servir-te-ei, com prazer, o meu melhor vinho.

Retiram-se os fidalgos do belvedere, à medida que cai a noite e a lua, muito redonda, se levanta no horizonte.

2.7.05

# 31



O TEU OLHAR

O teu olhar fixou-se
numa nuvem,
um ponto que aumentou imensamente
e te retém ao começo da noite
como se fosse a ameaça
de que talvez conheças a origem num passado
ácido de faces, posso
recomeçar quase tudo levantando
a pedra
final que nos esmaga;
há coisas
que não têm recomeço


Gastão Cruz (in «Repercussão», Assírio & Alvim)




«como se fosse uma ameaça»

1. Há uma força irremediável na voz deste homem que sente, cada vez mais próxima, a respiração da morte. «Venham todos», diz ele, rouco e magnânimo. E os filhos, espalhados pelo mundo, obedecem-lhe. Cinco percursos convergindo para o velho solar emergindo da bruma, na margem direita do Lima, casa grande e apalaçada convertida ao turismo de habitação, fonte de euros cinco meses por ano. Os filhos regressam ao lugar da infância, à silhueta de pedra desenhando-se atrás do mesmo portão ferrujento e das mesmas videiras retorcidas, memória viva dos verões que pareciam eternos mas não eram. Tantos anos depois, o patriarca disse: «Venham todos». E eles aqui estão.

2. Espalhados pelos sofás da sala principal: Carmen, Filomena, Constança, Baltazar e Olímpio. Pernas cruzadas. Cigarrilhas acesas. Mãos tensas ajeitando blusas de seda e calças de veludo côtelé. Um silêncio constrangido. O tic-tac do relógio vertical. Cinzas mortas na lareira apagada. Pela janela, entra a luz púrpura do crepúsculo. Filomena aproxima-se da varanda, abre a porta de vidro, espreita lá para fora. O jardim mantém o rigor geométrico das sebes, a elegância britânica da relva cortada muito rente. Do lado esquerdo, um caminho de terra através do pomar de laranjeiras e entre a folhagem, cheio de brilhos, o movimento lento do rio. À direita, o curral, as colmeias, uma pequena horta, o poço e o bosque de pinheiros bravos, agora estranhamente encolhido e cheio de sombras. Filomena vira-se para dentro. «Lembram-se?», pergunta. Os outros entreolham-se, como se tivessem vergonha.

3. À mesa do pequeno-almoço. Toalha de linho, chávenas de porcelana holandesa, geleia de marmelo, pão cozido em forno a lenha. Gargalhadas, gritinhos, manchas de café que alguém entornou de propósito. A euforia reverberando nos corredores. «Há quantos anos não estávamos assim, todos juntos? Vinte? Trinta?» A frieza da véspera dissolveu-se com as conversas nocturnas. Recapitularam-se já os diferentes rumos, as vidas tão díspares, reduzidas a um mero intervalo, uma pausa, uma elipse. Circulam fotos de filhos, escritórios em Nova Iorque, novos maridos, casas ainda a cheirar a tinta. Na cozinha, a mais velha das empregadas comove-se com o ruído infantil que volta a encher a casa, como no tempo em que a senhora ainda era viva e dava ordens.

4. Sobre o que o velho lhes vai dizer, paira a incógnita. Carmen e Baltazar acreditam que o pai, amolecido pela velhice, vai perdoar os desvarios da prole e recompensá-los a todos com um testamento generoso. Constança e Olímpio, por seu lado, temem um castigo tardio digno do Antigo Testamento. Só Filomena, a caçula ingénua, sorri: «Acho que ele nos chamou para isto, para estarmos juntos outra vez, para nos reencontrarmos assim».

5. No quarto sombrio, o moribundo pede para falar com a filha mais nova. Os outros saem e ele partilha por fim o segredo que lhe envenenou a vida: «Apenas tu, querida, és sangue do meu sangue». À saída, Filomena diz aos outros que o pai morreu sereno. E esconde-lhes a verdade. Dentro da malinha, inútil, o testamento que há-de rasgar mais tarde, no coração do bosque.

31.5.05

# 30



CERTEZA

Se é real a luz branca
desta lâmpada, real
a mão que escreve, são reais
os olhos que olham o escrito?

Duma palavra à outra
o que digo desvanece-se.
Sei que estou vivo
entre dois parênteses.


Octavio Paz (in «Antologia Poética», trad. de Luís Pignatelli, Dom Quixote)



«Se é real a luz branca»

(O que vejo, escrevo. O que sinto, escrevo. O que penso, escrevo. O que respiro, escrevo. É esta a minha existência. Escrever. É esta a minha tortura, a minha alegria, a minha maldição.)

Só a luz branca é real. O seu esplendor. A sua cegueira. Tudo o resto é incerto. Mais incerto ainda, eu. À minha volta um espaço sem dimensões, opaco, turvo, negro para dentro como a água esquecida no fundo de um poço. O real é a luz branca que atravessa o corpo que não tenho, é a tinta a espalhar-se. Não vou descrever o indescritível. Olho apenas. Penso. Escrevo. Do lado de lá, quer dizer, do outro lado disto que não sei o que é, há formas que se movimentam. Sombras longas. Quedas. Alucinações. Um rectângulo vagamente azul pode ser uma piscina. Sei o que é uma piscina. Lembro-me do que é uma piscina, uma memória anterior a isto, a esta luz branca tão real e mortífera. Lembro-me de todas as piscinas em que mergulhei e ainda de algumas em que não mergulhei. Os pequenos ladrilhos quadrangulares com dois tons de azul, a água agitando-se à superfície com o arrepio trazido pela brisa da tarde, a claridade volátil que cintila como se irradiasse lá do fundo aquático, o cheiro a cloro, o toque frio das escadas de alumínio. De repente estou a escrever tudo o que sei sobre piscinas. O que relembro, escrevo. A piscina onde morreu afogada a única mulher que amei. Uma piscina em forma de coração, nas traseiras de um hotel piroso. Uma piscina vazia num filme de Tarkovski. Uma piscina cheia num quadro de David Hockney. Uma final olímpica. Agora mergulho mentalmente na água e vou escrevendo, aqui, esse mergulho que acontece lá, na memória, gesto a gesto, os pulmões em brasa. Mergulho a pique, cada vez mais fundo. Sinto o ar preso na garganta, os olhos aflitos. A piscina não acaba, não tem fim. A piscina dissolveu-se e agora é só água. Continuo a mergulhar, cada vez mais fundo. A escuridão. O silêncio. O corpo que não tenho adormece. O que adormece em mim, escrevo. Coração, boca, passado. Adormeço nas águas impossíveis. E depois a luz branca, novamente. Não saí do mesmo lugar. Está tudo na mesma. A cegueira. O espaço opaco. Do outro lado, sombras longas, quedas, alucinações. Um paralelepípedo vagamente amarelo pode ser uma casa. Sei o que é uma casa. Lembro-me do que é uma casa, uma memória anterior a isto, a esta luz branca tão real e mortífera. Gostava de acreditar que há uma possibilidade de fuga, a hipótese de um rasgão nisto que não sei o que é. Mas os meus olhos já desistiram, os meus olhos são agora uma lâmina inútil.

(O que vejo, escrevo. O que sinto, escrevo. O que penso, escrevo. O que respiro, escrevo. É esta a minha existência. Escrever. É esta a minha tortura, a minha alegria, a minha maldição.)

29.5.05

# 29



A VIDA DE FAMÍLIA

a vida de família tornou-se bem difícil
com as contas a pagar os filhos a fazer
ou a evitar a ranhoca a limpar
a vida de família não tem razão de ser
não tem ração de querer

a vida de família jangada da medusa
é o tablado da antropofagia

mas ficam os retratos cristo virgem maria
e os sobreviventes, que vão chupando os dentes


Alexandre O’Neill (in «Poesias Completas», Assírio e Alvim)



«a vida de família jangada da medusa»

O meu nome é Pedro e tenho oito anos. Estou sentado no segundo degrau das escadas do meu prédio, a escrever num caderno com linhas. A minha professora disse-me para escrever durante as férias tudo o que fosse acontecendo à minha volta e é isso mesmo que eu faço. Olho, oiço e escrevo. O meu pai é que não gosta lá muito da ideia. Este miúdo devia era ir jogar à bola com os outros miúdos, a ver se aprende a ser homenzinho, em vez de se fechar no quarto a escrevinhar horas a fio naquele caderno, diz ele. E nessas alturas a minha mãe fica sempre com cara de zanga e as sobrancelhas assim todas esticadas para cima. Diz ela, deixa-o em paz, Tó Zé, não vês que o nosso filho é dado aos estudos, assim pelo menos pode ser que saia menos burro do que o pai e sempre nos poupa o dinheiro que os outros miúdos gastam por causa dos vidros partidos. Depois continuam a discutir por outras razões lá deles e eu já não tenho paciência para os ouvir. Vou buscar uma caneta à sala, onde a minha irmã mais nova e o meu avô continuam pregados à TV, a ver um programa qualquer com muitas bailarinas e um apresentador de sorriso estúpido que faz uma coisa esquisita com a voz, e saio para o quintal com o meu caderno. Debaixo da árvore dos maracujás, que a minha avó plantou há muito tempo depois de uma viagem ao Brasil, mas que nunca deu frutos e se calhar não é uma árvore dos maracujás coisa nenhuma, eu cá acho que é uma árvore rara da Amazónia que a minha avó trouxe numa mala muito grande, às escondidas, eu sento-me debaixo dessa árvore, rara ou dos maracujás, não interessa, e fico na sombra a olhar para as páginas brancas do caderno de linhas e há manchas de luz que se agitam sobre o papel. É então que me ponho a recordar tudo o que acontece dentro da nossa casa e depois transformo essas conversas, esses gestos, esses barulhos, em palavras que desenho aqui muito devagarinho, arredondando a letra como pede a professora. Agora o caderno está quase a chegar ao fim e as férias também, o pai prometeu que ia connosco ao Jardim Zoológico esta tarde, mas a minha irmã preferiu ficar a ver desenhos animados ao lado do meu avô, que dorme e se baba no sofá, com a placa dos dentes fora do sítio, o pai prometeu-me e eu quero muito desenhar um elefante, um crocodilo, uma cobra venenosa e um leão no meu caderno, mas o pai nunca mais desce, está fechado na cozinha há três horas com a minha mãe e eu olho o postal que um dia a minha tia mandou de França, é um quadro que está no museu do Louvre, acho que se escreve assim, uma jangada cheia de pessoas aflitas que querem chamar a atenção de um barco ao longe mas o barco não vê essas pessoas, é assim a nossa família, disse-me a tia, e agora vejo a mãe ao cimo das escadas, com os olhos vermelhos, o pai saiu pelas traseiras e eu já sei que não vai haver Jardim Zoológico para ninguém.

27.5.05

# 28



Acordar de madrugada
Pois a alegria sufoca,
E olhar pela vigia
Para as vagas de cor verde,
Ou no convés com mau tempo
Gasalhada em brandas peles,
Ouvir o bater da máquina,
E não pensar em nada,
Mas, pressentindo o encontro
Com esse que se tornou minha estrela,
Pelas gotas salgadas e o vento
Em cada hora rejuvenescer.


Anna Akhmatova (in «Poemas», tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Vadim Dmitriev, Relógio d’Água)



«E não pensar em nada,»

A mulher dorme. Um corpo sob os lençóis, belo e precário. A respiração. Lenta, profunda. Os dedos da mão estremecem. Os lábios murmuram algo incompreensível. A luz que entra pela vigia é mínima. Luz da aurora. Luz ainda cheia da escuridão da noite. Luz de estrelas mortas e nuvens púrpura, feridas pelo sol que se levanta. Tão humilde, esta claridade. Ei-la que progride sobre os objectos do quarto. A carpete vermelha com cornucópias douradas. O jornal de há cinco dias, sobre a mesinha de vidro. A cadeira de braços. O vestido verde sobre a cadeira de braços. O camafeu com um rosto antigo, pregado ao vestido verde, sobre o lugar do coração. A claridade inunda o camarote. Acende o contorno das coisas. Torna concreta a manhã. E invade também o sonho da mulher que dorme. Sonho a preto e branco, sufocante. Há brumas dentro do sonho. Ruas escuras. Estações onde os comboios apitam numa estridência demasiado aguda. A luz varre a praça onde a mulher, dentro do sonho, procurou refúgio, a um canto, numa pequena esplanada, à sombra da grande basílica. A mulher lê uma carta. Chora. As palavras são do homem que atravessa agora planícies que ela nunca verá. Ela imagina o homem dentro do comboio. A cabeça encostada ao vidro frio, a imaginar as lágrimas dela, numa praça qualquer, lendo as palavras que escreveu à pressa no quartel, antes da última saída, antes do último encontro. A mulher pára de ler a carta. Olha para a praça, onde entretanto pousaram milhares de albatrozes. As grandes asas batendo umas nas outras. Os gritos lancinantes. E de repente cresce uma histeria de bicos assassinos. As penas brancas manchadas de sangue. A praça a pulsar com uma energia malsã. A claridade exterior a invadir o preto e branco do sonho. Como se o sol estivesse agora a rasar os telhados. A claridade exterior a tornar vermelhas as manchas de sangue, a dar consistência ao tumulto das aves e à angústia da mulher que viu partir o amante, talvez para sempre. A mulher do sonho fecha os olhos quando a mulher que dorme abre os olhos. É a mesma mulher debaixo da mesma luz. "O que foi isto?", murmura. Ergue-se cambaleando, o corpo ainda trôpego de sono. Veste um roupão de seda. Lava o rosto com água de rosas. A vigia é um círculo de mar na parede do quarto. Aproxima-se. Espreita lá para fora. O mar está agitado. Vagas de coroa branca, muito verdes. O horizonte íngreme, à mercê das inclinações do navio. Uma bóia vermelha, ao longe, desaparecendo aos poucos. O sonho, incompreensível, ainda paira na cabeça da mulher. "O que foi aquilo?" A angústia espalha-se como uma mancha dentro do corpo, devorando a alegria de reencontrar o seu amor, dentro de dois dias, no outro lado do oceano. "Que sinais são estes?", pergunta-se a mulher. E um albatroz desce, súbito, até à flor das águas.

26.5.05

# 27



surpreendente

de repente no meio da rua
não se saber onde se está
de repente no meio da rua
não se saber quem se é
não encontrar o bilhete
de identidade nem a chave
de casa nem o dinheiro nem
conhecer os sapatos que
se trazem nem as calças e
a camisa eventualmente
o casaco nem compreender
a língua que falam todos
os que de roda se puseram
empurrando-se para ver
melhor até chegar a polí
cia e encarregar-se de tu
do o resto quer dizer: de
fazer o transporte e de
abrir e fechar a porta da
cela branca branca vazia
donde nunca mais se sairá


Alberto Pimenta (in «Obra Quase Completa», Fenda)



«de repente no meio da rua»

Tudo começou a complicar-se quando publiquei o meu quarto romance e a crítica decidiu arrasá-lo sem dó nem piedade. O meu quarto romance, talvez se recordem, era aquele com os círculos do inferno na capa e, lá dentro, uma parábola sobre o que se passara na minha cabeça depois do sucesso inesperado do terceiro romance. Vocês lembram-se: os prémios, as mulheres, as drogas, a queda com estilo numa depressão antológica. Lembram-se de certeza. Fui internado cinco vezes, tentei suicidar-me com um golpe no pescoço, fiz aquela cena lamentável na varanda do hotel (nu sob os holofotes) e finalmente matei com as minhas próprias mãos, a murro, o anormal de óculos redondos que me chamou, com todas as letras, “aforista decadente”.
[Não, não foi nada assim. Foi mais para trás. Rewind.]
A loucura bateu-me à porta numa segunda-feira e trazia flores. Gladíolos. A loucura tinha nome de mulher (Glória) e um corpo in excelsis. Foi ela que dactilografou o meu quarto romance, fechados os dois num hotel em frente à praia, perto de Rimini, alimentados apenas a ostras e champanhe (como Karen Blixen no fim da vida). Ostras, champanhe e sexo. A máquina de escrever. Os dedos dela. O meu inferno mental a deslizar pela voz em ruínas até aos dedos dela, os dedos dela a baterem nas teclas como na minha pele exausta. E um dia partiu, sem dizer uma palavra, deixando atrás de si, impecavelmente ordenadas sobre a mesa de cabeceira, as 358 páginas de requintada perfídia, de insensato derrame barroco, de puro delírio egocêntrico, enfim, o espelho onde pude contemplar por fim o meu rosto disforme.
[Também não foi bem isto, não foi bem isto.]
Certa tarde estava a assinar autógrafos numa feira do Livro de província, mecanicamente, aborrecido de morte, quando ela se pôs na fila. Ela, Glória, tanto tempo depois. Quando chegou a sua vez, estendeu-me um volume de capa negra, com o título do meu quinto romance, o livro que nunca cheguei a começar. Lá dentro, páginas brancas. As mãos dela, cruéis. Unhas escarlate.
[Mentiras que não ardem. Mentiras que não se podem rasgar.]
Tantas máscaras no chão do quarto. Os lençóis vazios. O frio. O sangue na banheira cheia de água quente. Quem é que morreu, afinal, no dia em que morreste?
[Volto ao princípio, como se houvesse um princípio.]
A preparação metódica de um suicídio. Era essa a história do quarto romance. A preparação metódica de um suicídio. O suicídio do narrador nos círculos infernais da sua consciência. O meu suicídio. Tudo bem explicadinho. Tudo verdadeiro. Tudo falso.
[Fast forward. Stop. Fast forward. Fita enrolada.]
Inicio agora, mais tranquilo, o quinto romance. A história de como escapei da literatura, ileso. Uma bala de cinza. As mãos em fogo. O vento (o seu silêncio) apagando todos os indícios do crime.

24.5.05

# 26



Os tristes heróis.
Têm lojas. Outros comércios.
Cortam os dedos com a faca da cozinha.
Sentem-se mal.
Falta-lhes a imediata compreensão
outros heróis mais perto das estrelas
e do azar
preso numa lata de conserva.


Che cosa è bello?
Che cosa sono io?

Entram celestes na primeira aventura.

João Miguel Fernandes Jorge (in «Antologia Poética – 1971-1994», Presença)



«outros heróis mais perto das estrelas»

Quando Mariana lhe abriu a porta, Gustavo inquietou-se com a visão do dedo ferido. Era uma coisa estranha ver aquele polegar assim, como uma múmia gorda, enrolado às três pancadas em gaze e ligadura. Logo aquele. O da mão esquerda.
— Então, querida, o que foi isso?
Mariana não respondeu. Baixou os olhos, compôs o cabelo com a outra mão e voltou para a cozinha. Gustavo ficou imóvel, como se tivesse medo de entrar na sua própria casa. Lá dentro ouvia-se o som da loiça a bater na loiça. Pelo corredor avançava o cheiro do refogado e o aroma dos bifes fritos com alho. Gustavo deu um passo e pendurou o casaco no cabide. Depois largou as chaves sobre o aparador do hall, o abominável aparador dos torcidos e do espelho encastrado. Acendeu a luz fraquinha da casa-de-banho, abriu a torneira da água quente e demorou-se a ensaboar as mãos sujas com a tinta do jornal da manhã.

— Aquela família da casa verde, junto ao jardim, vai deixar o bairro. — disse Mariana, com voz neutra, enquanto descascava uma laranja.
— Pena. Já vai sendo raro encontrar pessoas assim, tão prestáveis, tão educadas. Como é que era mesmo o apelido deles? Oliveira, parece-me. Ou Pereira, não sei bem.
— Moreira.
— Isso. Os Moreira. Simpatizava com eles. Gente simples, sem manias. Sabes por que razão decidiram partir?
Gustavo servia-se de queijo. Uma fatia triangular de Camembert, umas aparas de Roquefort, tiras fininhas de chèvre. Mariana mastigava os gomo sumarentos como se fosse um autómato.
— Não. Não sei. Coisas de família, quase de certeza. Chatices.
— É pena.
— É.
Um prato cheio de caroços, outro cheio de migalhas.

Cinco dias depois, no escritório, enquanto fazia encomendas, Gustavo sentiu uma dor de cabeça muito forte. Decidiu apanhar ar, beber um café. No outro canto do balcão estava o Sr. Moreira. Pensou interpelá-lo mas percebeu que a altura não era a melhor. Ele lia uma carta e só a custo conseguia evitar o choro. No momento em que começava a sentir comiseração, Gustavo identificou, mesmo à distância de uns quantos metros, a caligrafia da sua mulher. Enfurecido, teve o impulso de se levantar e pedir explicações mas depois parou, fechou os olhos, respirou fundo e saiu de mansinho, sem ser visto pelo outro.
Nessa tarde, Mariana voltou a abrir a porta da rua. À sua frente, cheio de raiva e disposto a tudo, Gustavo. Ela olhou-o nos olhos. Ele tremia.
— Então, amor, estás com frio? — perguntou Mariana, a sorrir. Um sorriso puro, igual aos sorrisos dos primeiros tempos.
Aturdido, ele só conseguiu reparar no polegar finalmente curado, mas com uma pequena cicatriz.

14.4.05

# 25



Cidade dos Outros

Uma terrível atroz imensa
Desonestidade
Cobre a cidade

Há um murmúrio de combinações
Uma telegrafia
Sem gestos sem sinais sem fios

O mal procura o mal e ambos se entendem
Compram e vendem

E com um sabor a coisa morta
A cidade dos outros
Bate à nossa porta

Sophia de Mello Breyner Andresen (in «Geografia», Ática)



«O mal procura o mal e ambos se entendem»

Cheguei a Gatarnay numa manhã escura de Novembro. As nuvens, muito baixas, cobriam a cidade com uma espécie de manto plúmbeo. Afastando as pesadas cortinas que tapavam as janelas da liteira, carregada em esforço por oito homens, a minha primeira visão foi essa: um céu tenebroso que parecia prestes a desabar, pairando (cheio de relâmpagos) poucos palmos acima dos pináculos de Gatarnay. Ao conferir o meu caderno — onde apontei, durante cinco meses, as idiossincrasias de urbes bizarras (à imagem, admito, dos inventários de Marco Polo nos domínios do imperador mongol) —, desfilaram em frente aos meus olhos imagens poderosas: a praça central de Xinzonu (com os seus palácios de gelo fino, reconstruídos todas as manhãs); o cais semi-circular de Lartúria (onde só acostam os navios feitos com o molde daquela curva); a rede de avenidas diagonais sobrepostas de Blokengast (labirinto de asfalto com 36 níveis, gerido por um comité de mil matemáticos); o plano ambiental extremo levado à prática em Telicusam (onde as casas foram abandonadas, a natureza invadiu tudo e os homens vivem agora nas árvores, alimentando-se de frutos e pássaros); o inferno de Dunwai, cidade-forno em que todos os habitantes trabalham em metalurgias, sob um calor que nunca baixa dos 45 graus; ou a alegria que se cola à nossa pele nos bairros desordenados de Valupi (a cidade utópica onde cada um só faz o que quer, quando quer e como quer, numa improvável harmonia que obedece às leis do caos e do acaso).
Que tipo de surpresas me reservaria Gatarnay? À distância, dentro da liteira, pressenti que seriam tudo menos agradáveis. Aquele céu funesto, pus-me a imaginar, só podia ser um reflexo da maldade que consumia o núcleo histórico da povoação, esse amontoado de casas lúgubres escondido atrás das espessas muralhas e das ameias pontiagudas. Ao entrar na cidade, através de uns majestosos portões de cobre, logo percebi que a minha intuição estava correcta. Em cada esquina, em cada beco, em cada parapeito, em cada sombra, havia um assassino ou um vigarista ou um conspirador. A atmosfera estava saturada de boatos, de comentários acintosos, de calúnias, de blasfémias, de imprecações. A todo o instante se ouviam gritos de vingança e de raiva, a toda a hora se viam cadáveres lançados à rua, atentados, traições. «Onde é que vim parar?», perguntei a um velho mendigo, encolhido junto a uma sarjeta. «A uma cidade-fantasma», respondeu ele. «Aqui não vive ninguém, isto que vê são projecções mentais, uma irradiação da maldade que transborda do resto do mundo e que...» Não acabou a frase, trespassado por uma lança vinda não sei de onde. Era óbvio que chegara a hora de fugir dali.
Infelizmente, do alto das muralhas, alguém assassinara os carregadores da liteira. Tive que fazer o resto da viagem a pé.

11.4.05

# 24



AI

Another round for my dark companion.

Tuxedomoon



Aos poucos um corpo, como diz o outro,
vai ficando sozinho, bate com as portas,
recua e recua. Quando dá por isso,
já não sabe dançar, conta as estações
pela volta do correio. Assim se começa
a olhar para trás, por cima do ombro,
pegando nas coisas pelo lado mais fraco.
Pagamos o preço de querer dissecar,
fibra por fibra, em prol da ciência,
o músculo baixo, descoordenado,
a que chamamos ai coração ai.

José Miguel Silva (in «Vista para um Pátio seguido de Desordem», Relógio d’Água)



«a olhar para trás, por cima do ombro»

Disse-me: «A dada altura, é preciso saber parar.» Era fácil para ele, nessa altura, um desprendimento assim. Eu sei que era. Tinha os gestos certos, a pose certa, as palavras certas, as certezas certas. Exibia, ufano, a sua superioridade: família, amor, dinheiro, um disco quase a chegar à platina, reconhecimento público (isso a que os néscios chamam fama), uma vida cor-de-rosa avançando em linha recta sobre carris dourados, sem o mínimo atrito. E sorria, o sacana, um sorriso onde cabia toda a pusilânime condescendência com que me esmagava.
Estávamos sentados no bar do velho Astoria, bebericando cocktails com mais cores garridas do que álcool e David, com a dúbia autoridade de irmão mais velho, dava-me lições de moral. Lições de moral, caralho. A_mim só me apetecia rebentar-lhe a boca, estoirar-lhe as ventas presumidas de cabrão a abarrotar de estúpidos complexos de culpa, ver sangue a jorrar daquele sobrolho sempre arqueado e pedante, sangue a pingar sobre o balcão de madeira polida, sobre o caríssimo casaco de caxemira e também sobre os irritantes sapatos de ponta fina, à maricas.
Ele falava, falava, falava, olhando-me de lado como quando éramos putos e nos escondíamos atrás dos barrações da fábrica de cortiça, a fumar cigarros espanhóis, intragáveis e sulforosos, depois das aulas, antes de voltarmos para casa. O olhar era o mesmo. Um olhar que dizia: «Nem sei por que raio estou aqui contigo agora, tu nunca merecerás que te olhe de frente, como um igual». Foi há 30 anos, tinha eu 11 e ele 16. Já um abismo a separar-nos. Um abismo cheio de ressentimento, remorsos, fel.
«Queres um Cohiba?», perguntou com aqueles dentes demasiado brancos, reconstruídos por um médico de celebridades. Os dentes branquíssimos que aparecem em grande plano no videoclip do último êxito: «The way I love you tonight» — balada pirosa em que ele murmura a letra com uma voz à la Leonard Cohen, rodeado de adolescentes loiras, a ensaiar ridículos passinhos de rumba no terraço de um arranha-céus, talvez em Manhattan. «Cabrão, cabrão, cabrão», repeti mentalmente, enquanto aceitava o charuto que me estendia, ainda embrulhado, como que a medo.
O meu fumo misturou-se com o fumo dele. Ilusória irmandade a desfazer-se, em volutas etéreas, já perto do tecto. «Olha para trás», dizia-me. «Ainda vais a tempo». Os prospectos da clínica de reabilitação, com fotos de piscinas e relvados. «Eu só quero ajudar». A cinza do Cohiba no cinzeiro transparente. O sorriso branco. O olhar a dizer: «Já lixaste a tua vida vezes de mais, és uma vergonha, um traste, mas eu quero salvar-te para me sentir melhor». O meu punho fechado, nós dos dedos prestes a libertar toda a raiva, a súbita memória das suas fragilidades (tão escondidas). Poderia dar-lhe o soco que nunca lhe dei. Mas já não valia a pena. Apaguei o charuto no copo dele. E fui-me embora.



9.4.05

# 23



COM O TEMPO A SABEDORIA

Embora muitas sejam as folhas, a raiz é só uma;
Ao longo dos enganadores dias da mocidade,
Oscilaram ao sol minhas folhas, minhas flores;
Agora posso murchar no coração da verdade.


W. B. Yeats (in «Poemas», tradução de José Agostinho Baptista, Assírio & Alvim)



«Embora muitas sejam as folhas, a raiz é só uma;»

Meu amor,
esta é provavelmente a última carta que te escrevo. Estou muito cansado, muito gasto, muito triste. E, sabes, nos últimos dias voltei a sentir a presença da morte em cada gesto. Não te sei explicar bem isto — a clareza dos meus raciocínios, essa lucidez que tanto elogiavas, já não é o que era —, mas sinto como que um cerco invisível, um prenúncio do meu desaparecimento em cada coisa que me rodeia: os livros escurecidos pelo pó de décadas, as alfaias já sem préstimo a um canto do celeiro, o cata-vento enferrujado no topo da igreja, as maçãs que a Mrs. Abercombrie me trouxe há duas semanas (agora podres), o meu rosto cheio de rugas no espelho baço e rachado que ainda guardo na mesa de cabeceira. O teu espelho. O espelho que me ofereceste há tanto tempo. O espelho onde contemplaste a tua gloriosa juventude.
Às vezes pergunto-me se ainda te lembrarás desses dias. Lembras-te, Annie? Eu lembro-me. Se fechar os olhos, estes olhos quase extintos, vejo a tua silhueta caminhando à minha frente, um contorno a dar sentido à paisagem. Vejo a estrada cheia de lama, o muro de pedra a suster o bosque agreste, tu girando de repente sobre ti mesma, sorrindo, as mãos cheias de framboesas, colhidas quando eu não estava a olhar. Lembro-me do sabor das framboesas, sabor acre dos beijos presos por tão pouco. Lembro-me dos teus cabelos no meu rosto e da cor vermelha do céu. Lembras-te, Annie? Eu lembro-me. Foi em 23 de Setembro de 1934.
Talvez recordes melhor o resto. Os encontros secretos em Charing Cross, as dúvidas em relação ao pobre jornalista que então eu era, a incapacidade de pensares a tua vida sem ser à sombra do execrável Major e das suas festas tão bem frequentadas. Também me lembro disso tudo. A despedida sem lágrimas, o espelho envolto em pano-cru, a claridade lilás sobre o Tamisa quando me disseste que partias para a Índia, talvez para nunca mais voltares. Foi a 2 de Fevereiro de 1935.
Não te espantes com os detalhes. A memória é talvez o meu último bastião, mas mesmo esse começa a abrir brechas. Já não tenho forças para nada, nem mesmo para prosseguir esta ilusão. Durante 57 anos, escrevi-te uma carta todos os meses. Era uma forma de manter intacta a tua imagem, as tuas mãos cheias de framboesas, esta vã certeza de que foste a única mulher que amei verdadeiramente.
Agora apercebo-me de que não vale a pena continuar. Dentro de um mês estarei morto, as minhas cinzas espalhadas nas traseiras da casa onde nasci. Os meus netos disputarão os escassos bens que ainda me restam. Venderão os móveis, deitarão fora o espelho e lerão talvez, com a indiferença de quem nada compreende, estas centenas de cartas que nunca te enviei.

22.3.05

# 22



AXIOMA

No desespero te confirmam
os que sabem (saberão?)
do estrume dos conceitos
e das épocas que morrem,
iguais ao vazio.
Mas não é bem isso:

querias apenas um lugar
de sombra, cercado de ausência,
um lugar comum combustível
e sem Deus. Aí, perdoando o corpo,
falarias do Inverno e dos
cigarros que se enrolam
ao lado de uma cerveja fria.

Curtas sentenças prosaicas
que em silêncio te confirmam
nos sítios de fora, errados,
onde a outra voz era esta.

Manuel de Freitas (in «Game Over», &Etc)



«queria apenas um lugar»

CIGARROS QUE SE ENROLAM AO LADO DE UMA CERVEJA FRIA — Olho para o maço de tabaco. Observo a minúscula mancha de café junto à letra M, memória da primeira bica do dia, a melhor. Entre os cigarros, restos de cinza. Luz baça caindo sobre a mesa de madeira. Marcas de canivete: «Mário ama Maria». O coração tosco atravessado por uma seta oblíqua. Obscenidades escondidas pelo copo de imperial vazio. O bloco de notas. A caneta Bic azul com uma tampa preta, roída. Palavras riscadas. Frases riscadas. Ideias riscadas. Mortalhas, um saco de plástico. Dedos que desfazem cigarros. Dedos que misturam tabacos. O isqueiro. Chama acesa durante dez segundos. Ao balcão, o velho Gomes inclina as sobrancelhas. Não gosta de fogo. Não gosta de engraçadinhos vestidos de preto. Em Lourenço Marques, há não sei quantas eternidades, perdeu um armazém cheio de máquinas (jipes, camiões, tractores) por causa de um incêndio. Já me contou a história mil vezes, as sobrancelhas inclinadas são apenas a milésima primeira. Enrolo o cigarro. Acendo o cigarro. Peço mais uma imperial. A luz baça lá de fora diminui, a luz baça cá de dentro cresce. Conto seis lâmpadas fluorescentes, fora a máquina roxa de matar moscas junto à porta. O velho Gomes traz o copo, em câmara lenta. O pano cheio de nódoas, ao ombro. Cinza a cair no chão de mosaicos encardidos. Sob as luzes baças sobrepostas, esboço uma errata: «Onde se lê Marlboro, leia-se Melancolia».

INVERNO — Coisa dolorosa, ter um passado. Pior ainda trazê-lo assim, pela coleira, cheio de pulgas, para o deixar debaixo da mesa, focinho em cima das patas, fio de baba e olhos de cão velho, enquanto se pede um jarro de tinto, se folheia os jornais desportivos, um ruído de TV sintonizada em telejornais sórdidos, travo amargo na garganta, suor nas palmas das mãos. Na rua o céu ameaça tempestade, nuvens assim escuras como o vinho dentro da boca. A ventania faz estremecer os telhados de Lisboa. O frio invade a tasca, infiltra-se por todo o lado, até debaixo da pele. Há precisamente trinta e oito anos, o meu pai declarou-se à minha mãe numa curva da serra, a caminho da casa na aldeia, sem direito a beijos. Não sei porque me lembro disto agora, logo agora, depois do que me aconteceu. Tento imaginar um mapa da minha vida, uma topografia do que fui sendo ao longo dos anos — baldios, estradas secundárias, ravinas — mas no fundo da tasca o ruído da televisão sobrepõe-se, o vento na rua já dobra guarda-chuvas, oiço agora o cão que rosna sob a mesa. Há precisamente doze anos, o meu pai suicidou-se com 605 Forte, a minha mãe vestida de negro à porta do cemitério, sem direito a beijos, um vento igual a este varrendo a aldeia deserta. Ergo o copo de vinho e lembro-me da neve, eu com cinco anos, um trenó improvisado, o meu pai a rir no meio da neve. Não pode ser. À porta da tasca, com o rabo entre as pernas, o passado corrido a pontapés.

16.3.05

# 21



O FIM DA ESCADA

A estranha sensação de ter morrido
em Viena, numa tarde de outono de 1992,
numa casa cuja escada nunca subi.
De ser desde então um intruso, um farsante,
o actor sem futuro de uma comédia má.
De que o destino, implacável e rasteiro,
se vingou na longa noite de um hospital,
nas horas vazias que tento preencher.
Inventar, não heterónimos como fez Pessoa,
mas algo mais simples, o homem que escreve agora,
a medíocre perseverança dos seus feitos,
enquanto, insistente, me tenta a ideia de voltar,
de subir de vez os degraus, de bater a uma porta.
Mas quem sabe se ainda uma história pior,
um horror mais nítido me espera ali,
no fim da escada, diante da imaginada porta?


Juan Luis Panero (in «Poemas», tradução de Joaquim Manuel Magalhães, Relógio d’Água)



«A estranha sensação de ter morrido»

Ainda hoje não sei como é que esta história começou. Lembro-me vagamente de participar num congresso de literatura comparada, em Viena, no princípio dos anos 90: apresentações aborrecidas num palácio de arquitectura demasiado solene, neve tombando suavemente como nos contos infantis, escapadelas em grupo para ouvir alunos do Conservatório a tocar Brahms (à porta de centros comerciais hiper-aquecidos) e deambular pelos alfarrabistas em busca de miríficas primeiras edições, conversas no hall do hotel com o ensaísta turco das barbas longas e com o poeta libanês das rosas tatuadas no pescoço, a imagem de uma mulher loura a atravessar a rua na minha direcção, chocolate quente, uma garrafa de gin, apfelstrudel.
A minha memória daqueles dias estilhaçou-se em mil fragmentos, é agora um obscuro caleidoscópio que me confunde e cega. Esforço-me por encontrar um fio condutor, uma ordem cronológica, uma sequência de factos. Em vão. Nada bate certo. Em Viena aconteceu-me qualquer coisa (não sei o quê), a que se seguiu um labirinto mental de imagens e simulacros (do qual, tantos anos depois, não cheguei a sair). É tudo.
Nesta espécie de sonho caótico em que se transformou a minha existência (se é que lhe posso chamar existência), só tenho duas certezas: 1) eu estive realmente em Viena (sei, por exemplo, que a memória do ar gélido de Outubro a entrar-me nos pulmões, quando saí do Musikverein, é verdadeira — mesmo que todas as outras sejam falsas); 2) o limbo em que me encontro só pode ser um estado de consciência exterior ou paralelo àquilo a que normalmente se chama vida. Dito de outro modo: ou estou morto, ou estou em coma.
Se estou morto, é tudo mais simples. Posso compreender finalmente o conceito de inferno, sem as desnecessárias metáforas do fogo e das penitências eternas. O inferno é isto. Ficar preso numa rede de tempos e lugares e factos e palavras e gestos que se repetem indefinidamente, com sequências e lógicas sempre variáveis, não permitindo a quem as revive — eu, o condenado — qualquer espécie de descanso, de fuga ou de consolo.
Se estou em coma, as coisas complicam-se. Talvez eu tenha sido atropelado à frente do Musikverein, num momento de fuga ao congresso de literatura comparada. Talvez me tenham levado em estado crítico para o hospital. Talvez esteja há mais de dez anos fechado dentro de mim, com soro nas veias e máquinas presas ao corpo. Talvez os médicos cochichem ao fundo do quarto com os meus familiares e eu reconheça uma palavra que arde: «desligar». Talvez eu procure a saída do labirinto, a porta de salvação que me tire daqui. Talvez eu descubra, sem surpresa, que a porta está trancada desde o primeiro momento (aquele em que a minha cabeça bateu no alcatrão coberto de gelo).

11.3.05

# 20



Em animada conversa
dois vagabundos
e um lírio


Matsuo Bashô (in «O Gosto Solitário do Orvalho», versão de Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim)



«dois vagabundos»

[Luar sobre os arrozais. Deitados sobre uma pequena elevação, dois homens olham as constelações muito nítidas que se desenham no céu.]
— Quando ficas assim, parado, a olhar para cima, o que vês?
— O mesmo que tu.
— As estrelas?
— Não.
— O espaço negro entre elas?
— Também não.
— Então o quê?
— A memória da nossa fome.
[Um dos homens está agora sentado, com um pano aberto sobre os joelhos, a cortar fatias muito finas de pão seco e tiras ainda mais finas de toucinho. O outro olha fixamente para o movimento da faca, enquanto aconchega o seu casaco em farrapos.]
— Queres um bocado?
— Sim.
— O que é que me dás em troca?
— Deixa-me pensar. [Vasculha os bolsos vazios.]
— Sabes que tens que me dar qualquer coisa em troca.
— Sim, já calculava. Olha, posso dar-te uma história.
— Que história?
— A minha. Uma bela história. A minha história.
— É alegre?
— Não. Nada. Pelo contrário. É até muito triste.
— Então está bem. Podes começar. [Estende-lhe um naco de pão seco; o outro espreita o pouco que lhe coube, sem esconder o desalento.] Querias mais? Pois não protestes. Só levas o toucinho quando chegares ao fim.
[Passaram quarenta minutos. Os dois acabam de comer. Parecem saciados.]
— Muito boa, a tua história.
— Muito bom, o teu toucinho.
— Há muito tempo que não ouvia uma história tão trágica.
— Há muito tempo que não comia um toucinho tão delicioso.
— Mas como posso ter a certeza de que a história é mesmo verdadeira?
— Não podes, nem isso interessa. Eu também não sei se foste tu que mataste o porco.
[Um dos homens levanta-se, aproxima-se do canavial, colhe um lírio. O outro encolhe-se, com frio.]
— O que tens tu na mão? Um lírio?
— Não.
— Uma estrela?
— Não.
— O amor que perdeste há tantos anos?
— Não.
— A primeira palavra do teu último poema?
— Não.
— Um reflexo da manhã que se aproxima?
— Não.
— A própria ideia de brancura?
— Isso, amigo. A própria ideia de brancura.
[Os dois homens voltam a deitar-se na pequena elevação, bebendo saké de uma garrafa opaca. Olham as constelações lá no alto, agora difusas. Luar sobre os arrozais.]

3.3.05

# 19



CLANDESTINO

Recordem hoje comigo – a palavra
e contra-palavra
da evidência: a táctil aurora, amanhecendo
da minha mão cerrada: o aperto
ciliário do sol: o trecho de escuridão
que escrevi
na mesa do sono.

Agora
é a hora.
Tudo aquilo de que
me vierem privar,
levem-no agora de mim. Não
se esqueçam
de esquecer. Encham
de terra os bolsos,
e selem a boca
da minha caverna.

Foi lá
que sonhei a minha vida
rumo a um sonho
de fogo.

Paul Auster (in «Poemas Escolhidos», tradução de Rui Lage, Quasi)



«da evidência: a táctil aurora, amanhecendo»


Ela olhou para mim com aquela desconfiança típica dos executivos de Hollywood. Vestia um daqueles tailleurs com assinatura de um estilista francês, quase de certeza mais caro do que o orçamento total da minha última curta-metragem, e bebericava um quarto de Evian servido por uma assistente em copo de cristal. O seu corpo era um prodígio da anatomia — ou da cirurgia plástica, não cheguei a perceber — e os seus gestos denunciavam, mais do que a cortesia falsa (apanágio dos poderosos cínicos), uma indiferença prestes a transformar-se em enfado. Creio mesmo tê-la visto bocejar, mas não garanto.
Enfim, após cinco penosos segundos de silêncio, que se seguiram à minha sucinta apresentação curricular (durante a qual foi notória a sua indiferença perante o Prémio do Público que ganhei em Sundance), ela ergueu a sobrancelha esquerda, serviu-se de mais Evian e disse, num tom de voz pleno de condescendência: «Ok, já percebi que é mais um daqueles independentes malucos à espera de agarrar, por uma vez, um orçamento que se veja. Deixe-se de tretas e explique-me lá o filme, de forma a que até a minha assistente o consiga compreender.»
Apesar da rispidez, não me impressionei com aquela arrogância pré-fabricada. Quem sobreviveu aos sermões do meu pai, sobrevive a tudo. Pousei as mãos no volume encadernado de «A Táctil Aurora» (nona versão, 138 páginas), aclarei a garganta e desbobinei a sinopse, como se estivesse na igreja a recitar os salmos.
Ela ouviu, com atenção crescente, a minha história. Aquele morto logo a abrir, afundado na lama, com sete cadernos de cores diferentes guardados nos bolsos da gabardina, espicaçaram a sua curiosidade. Eu ia lendo as emoções no seu rosto, à medida que lhe explicava a intrincada trama policial, um vasto labirinto de pistas cruzadas e linhas narrativas paralelas (sete: uma por cada caderno e por cada cor do arco-íris; como se o crime inicial fosse o prisma que decompõe a luz que se espalha pelo resto da narrativa). Com mapas cheios de riscos, mostrei-lhe depois a geografia tortuosa do filme: o começo em Madagáscar, com passagens porLos Angeles, Nepal, Osaka, Marraquexe, Nova Zelândia, Trieste, Patagónia, Macau e Nova Iorque. Expliquei-lhe ainda, sem entrar em grandes detalhes, os rudimentos de mecânica quântica necessários para compreender a cena no interior do acelerador de partículas. E fiz-lhe um desenho da ascensão do herói (Harrison Ford?) aos céus, depois da gloriosa cena do sacrifício final.
Sem grande surpresa, a resposta da executiva acabou por ser negativa. «Not interested». O que me surpreendeu, porém, foi a justificação: «Vai-me desculpar a sinceridade, mas essa história nunca teria hipóteses em Hollywood. É demasiado verosímil.»

11.2.05

# 18



recado

ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte

vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer — vai por esse campo
de crateras extintas — vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite

deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo — deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração — ouve-me

que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna — o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite

não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira — não esqueças o ouro
o marfim — os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço

Al Berto (in «Horto de Incêndio», Assírio & Alvim)



«que o dia te seja limpo»

Muito lentamente, com um vinco diagonal, dobrou o canto da página. Hábito antigo, forma de marcar poemas dentro dos livros — antecipando futuros regressos, reincidências, releituras. Dobrou o canto da página e pousou o livro em cima da mesa, junto à janela. Sentou-se numa cadeira e olhou a mulher deitada. A sua mulher. Um vulto na penumbra, um contorno sob os lençóis.
— Não consegues dormir? — perguntou ela.
— Não, não consigo. E tu?
— Também não.
— Mas tenta, meu amor, tenta. Tens mesmo que descansar.
Pela janela, conseguia ver o rio, a noite cerrada, algumas estrelas. O «Horto de Incêndio», mesmo fechado em cima da mesa, continuava a arder. E aquele poema do recado era, entre todos, o que mais queimava. Não queria pensar nele agora. Havia qualquer coisa de assustador na matéria negra que lhe atravessava os versos: a ténue melancolia do homem sem salvação, o rasto da morte a pairar naqueles irónicos «sessenta comprimidos letais». Não, não queria pensar nisso agora. Não queria ser perseguido pela imagem de um corpo que se despede do esplendor do mundo. Não agora. Não hoje. Por isso, olhando o Tejo, recordava do poema apenas as imagens radiosas: a «esquina de luz», a «porta de água», a «árvore das cassiopeias», a doçura do «breve coração», o «arco de sal», o «navio carregado de lumes».
Olhou para o relógio. Ouviu, vindo dos corredores, o silêncio espesso do hospital. Passos abafados, ao longe. Sentiu a madrugada a deixar-lhe marcas no corpo. Um cansaço estranho, como nunca experimentara antes. Cansaço tenso mas bom. Cansaço eufórico. Cansaço de quem chega onde sempre quis chegar.
Levantou-se. Cabeça encostada ao vidro, observou o seu rosto no reflexo. Olhos castanhos, arcadas supraciliares salientes, os cabelos revoltos, um determinado contorno do queixo. O seu rosto — incerto património genético, à espera de se revelar noutro rosto. E poucas horas a separarem-no desse momento. No seus braços, a filha tão desejada. O seu rosto naquele rosto. O rosto da mãe naquele rosto. Um rosto novo e puro, só dela. Sublime materialização do amor.
— Em que é que estás a pensar?
— Num verso do Al Berto: «Que o dia te seja limpo.» Só isto: «Que o dia te seja limpo.»
— Será. Vais ver que será. Mas agora dorme.
Deitado, pôs-se a imaginar o parto. «Que o dia te seja limpo», repetiu. «Que a vida te seja limpa». E não conseguiu dormir.


9.2.05

# 17



Quis ver o rosto do nada
quando olhei
para ver quem me seguia
ou seguiria
enquanto não olhasse
a sombra indecifrada
desta não sei se selva
ou estrada
ou talvez praia
ou destino perdido no caminho.

Helder Macedo (in «Viagem de Inverno», Presença)



«Quis ver o rosto do nada»

Quando A. M. Sousa publicou o seu primeiro romance, aos 31 anos, em 2008, a literatura portuguesa levou, nas palavras do crítico José Maurício Palhavã, «um choque eléctrico fulminante». Ninguém esperava aquilo. Ninguém esperava uma obra com o fôlego e a ousadia do agora clássico «Onde os Leões Rugem», mais de 900 páginas de uma escrita que reinventa um género gasto, cruzando brilhantemente — e com uma ironia muito pós-moderna — as histórias de cinco famílias (mosaico complexo em que muitos viram a simbologia das quinas), tendo como pano de fundo a História de Portugal, da guerra em África aos Descobrimentos, passando por uma infinidade de referências, em filigrana, à estrutura épica d’ «Os Lusíadas».
Não faltou quem clamasse, com o exagero próprio dos juízos precipitados, que A. M. Sousa tinha perfil para ser o novo Joyce — autor de um só livro, é certo, mas um livro que poderia muito bem transformar-se no «Ulisses» do séc. XXI. A histeria mediática que se seguiu foi a que se imagina: entrevistas de fundo nos principais jornais portugueses, traduções em toda a Europa, prémios a rodos (o APE, o PEN, o Saramago, o Femina), citações elogiosas na New York Review of Books e na Granta, uma polémica com Eduardo Prado Coelho, vendas superiores a 250.000 exemplares, a palavra «fenómeno» escrita em letras maiúsculas por baixo do seu retrato a sépia (espalhado pelo país em outdoors monumentais).
Depois, deu-se o previsível colapso. A insuportável pressão que o conduziu ao bloqueio criativo. Cenas lamentáveis num talk show. A depressão com internamento numa clínica psiquiátrica. A longa travessia do deserto. O culto do silêncio. A vida austera num quarto austero. A pose de eremita. Pouco a pouco, A. M. Sousa escondeu-se do mundo e o mundo esqueceu-se de A. M. Sousa. Mais do que Joyce, quando agora se falava dele e da sua glória efémera, era Salinger que vinha à baila.
Até que um dia, numa manhã de Outubro de 2023, Sousa descobriu, na sua caixa de correio, um envelope pardo. Lá dentro, os três primeiros capítulos do livro que andava às voltas dentro da sua cabeça há mais de 15 anos. Quem é que escrevera aquelas páginas? Com que fim? Em troca de quê? Sentado na sua tosca mesa de trabalho, olhando pela janela as ondas do Atlântico a desfazerem-se contra as rochas, recusou-se a encontrar respostas.
Pela primeira vez em muito tempo, sentia uma irreprimível vontade de escrever. E isso é que era importante. Com um gesto solene, voltou a ligar o computador portátil, enquanto lá fora as sombras empurravam todas as coisas para o vazio da noite.


4.2.05

# 16



Por vezes era de noite tomado
de uma febre, os gestos cresciam na
escura tonalidade de lá fora

como se do fundo da casa
uma ordem sob outra ordem o repelisse

Maria Andresen de Sousa (in «Lugares», Relógio d’Água)



«Como se do fundo da casa»

«Lembrava-se da luz muito forte na cabeza do médico, uma luz ligeiramente acima da cabeça mas ainda presa à cabeça, uma luz redonda e branca, muito forte, como a auréola dos Santos que via esculpidos em madeira, na igreja, quando ia à missa com a avó Dolores, os Santos martirizados que lhe enchiam os sonhos de pavor, até àquela manhã em que encontrou a avó Dolores quase roxa, caída no genuflexório, cabeça aberta, poça de sangue, os Santos imóveis e ele vazio de tudo para sempre, a luz muito forte na cabeça do médico era um golpe dado em cheio nos olhos, agora, um golpe a acordar todos os golpes passados, a imagem da avó Dolores cada vez mais roxa, estendida no chão, e por trás da luz, por trás da claridade que magoava, os olhos atentos do médico, a olhar para o rosto dele, para as mínimas contracções dos músculos, para os efeitos do medo sobre a pele suada, os olhos do médico muito desfocados e distantes, escondidos por baixo de uma voz cavernosa, «e agora, o que sente?», «e agora, o que sente, Luís?», «vá, Luís, olhe para o meu dedo, Luís, olhe para o meu dedo», e o dedo indicador da mão direita, um dedo gordo a apontar para cima, a ir e a vir, da esquerda para a direita e da direita para a esquerda, muito devagar, «acompanhe o dedo, Luís, consegue acompanhar o dedo, Luís?», e atrás do dedo iam as ideias mais sujas e negras, incêndios, obscenidades, crimes imaginados há muito tempo e nem sequer postos por palavras, tantas flores arrancadas pela raiz, o médico sorrindo atrás da sua luz perversa, escrevendo palavras compridas em folhas de linhas apertadas, e depois o frio da agulha a atravessar a pele, o frio de uma coisa fria a entrar no corpo, a entrar no sangue, o torpor do sono e da impotência de nem sequer conseguir gritar.»
Foi assim que descreveu o seu pesadelo daquela noite. Como uma coisa má que acontece a outro. Mas no sonho, naquele sonho claustrofóbico e demencial, o outro era ele próprio. Disso não podia duvidar. O Luís não se chamava Luís. O Luís era ele, Artur Loyola: advogado, 42 anos, deprimido com a morte da família naquele estúpido acidente de automóvel, às voltas com a culpa, à beira da loucura, fechado numa casa vazia (um colchão, uma cadeira, comida congelada, televisão sem antena), longe da ajuda piedosa dos amigos, ainda mais longe dos médicos de luzes ameaçadoras, mas demasiado perto dos comprimidos. A sua avó chamava-se Dolores mas sempre lhe disseram que morreu durante o sono, uma morte santa. «O que raio quererá isto tudo dizer?», rabiscou no caderno de notas, enquanto nos quartos mais distantes da casa o vento crescia, espalhando pelo corredor ecos da verdade assustadora.