29.10.04

# 5



O acender das luzes

Quem ordena estes sonhos
coordena, conduz
os tractores cuidadosos
do ocaso; êmbolos
com frio; quando lavram
o seu frágil fio de fogo
nas árvores, na memória.

E mais lentas ainda
as turbinas: turbilhão
que perturba vagarosamente
a ordem interior das coisas
que se deixam sonhar. Com
a polpa dos dedos
colhe-se a demora
para ver melhor. Nenhuma
colagem subliminar;
nem linhas de lume,
chispas, flechas.

Adormece talvez
quem ordena; se as lâmpadas
vagueiam e explodem
entre ramagens excessivas;
estes sonhos.

Carlos de Oliveira (in «Trabalho Poético», Assírio & Alvim)



«Quem ordena estes sonhos»

Sonho 1: O que vejo é uma espécie de lavoura celeste, astros abrindo sulcos no negrume do espaço sideral, uma cornucópia de cometas espalhando fogo pela galáxia e eu lá no meio, imóvel como o bebé cósmico do «2001», assistindo a tudo na plateia do universo, as várias dimensões da realidade sobrepondo-se – quarks, electrões, átomos, moléculas, células, gases a temperaturas inauditas, matéria incandescente, estrelas a nascer e a morrer, explosões de supernovas – e depois a fusão de tudo, um colapso de trás para a frente, o big bang ao contrário, bang bing, o silêncio do nada, o vazio anterior ao verbo divino e ao instante zero, uma escuridão que é só uma luz demasiado forte.

Sonho 2: A sala é branca: quatro paredes, tecto, chão, nenhuma janela. A meio, uma mesa de metal brilhante, duas cadeiras. Tudo branco (um branco puríssimo, angélico). Mesmo as minhas roupas são brancas. Mesmo as roupas dele são brancas. Não sei o que faço aqui. Não sei quem é a pessoa do outro lado da mesa. Ambos procuramos, ao mesmo tempo, a primeira palavra. Estaremos mortos? Será isto a antecâmara do inferno? Será isto a antecâmara do paraíso? Ambos procuramos, ao mesmo tempo, a primeira palavra. O tempo passa. Bocas fechadas. Olhos nos olhos. Sabemos agora que nenhum de nós vai falar. Ignoramos ainda se isto é uma bênção ou o último dos castigos.

Sonho 3: Os chacais aproximam-se do templo em chamas. À porta, mulheres e crianças procuram escapar às labaredas e aos rolos de fumo espesso, muito negro. Descem a escadaria de mármore, deixam-se cair sobre a terra, rogam aos céus por misericórdia. Com um cálice de prata nas mãos, o sacerdote atravessa a multidão e oferece-se aos animais sedentos de sangue. Junto ao rio, os animais cercam-no, derrubam-no, começam a arrancar-lhe pedaços de carne. O templo desaba num turbilhão de fagulhas, o ar tornou-se vermelho. Um dos chacais aproxima-se do sacerdote e finca-lhe os dentes na carótida. Esse chacal sou eu.

Sonho 4: Quem ordena estes sonhos também sonha coisas que outros ordenam. Há um labirinto onde se cruzam os sonhadores; um palácio de mil portas com mil sonhos à espera de um gesto ou de uma distracção. No meio da noite, ando às cegas pelo corredor, entro na casa de banho e acendo a luz. No espelho vejo o meu rosto: lâmpadas no lugar dos olhos.


23.10.04

# 4



Fui criança, indo por um carreiro,
a caminho do mar, mão na outra mão,
entre árvores, pedras, insectos e aves.
Toda a Natureza me coube nas pupilas,
mestra de sentimentos, e eu discípula.
E, se fechava os olhos, ela punia-me
com o silêncio cruel das ondas,
a mudez imerecida dos insectos,
e a distância das aves, que doía.
Se os abria, tudo me rodeava,
apaziguado e meu,
mas a mão que me trazia a mão
puxava-me para a luz de cada dia.

Fiama Hasse Pais Brandão (in «Cenas Vivas», Relógio d’Água)



«com o silêncio cruel das ondas,»

Recordo-me bem daquela luz, muito branca e vertical, caindo do céu a pique, como uma maldição divina. O sol em peso abatendo-se sobre a terra, devorando os contornos das ervas e das pedras, esbatendo as cores, sorvendo o próprio ar, a própria respiração, um fogo invisível a crescer por dentro da manhã. Os olhos, feridos pela claridade excessiva, eram incapazes de se levantar do chão, presos ao estreito caminho que serpenteava entre as estevas, ao longo da falésia, tão perto da lâmina azul do mar.
Eu tinha 12 anos naquele verão, sob aquela luz. Na véspera, descobrira com espanto (e pavor; e alegria) o meu primeiro sangue, o primeiro sinal da mulher que ainda não era. O corpo: uma revolta de formas ainda incertas, curvas tímidas, suave arredondar da pele. A cabeça: uma explosão de imagens confusas, sentimentos desencontrados, ondas a chocar umas com as outras num caos de espuma. A noite: um domínio de sombras onde os piores pesadelos se materializavam.
Depois, a aldeia como um assombro de cal e vozes murmuradas. Círculos de pessoas mais velhas: avós, o padre, vagos primos. Histórias incompreensíveis ditas por bocas incompreensíveis. O calor, animal bravio avançando pelas ruas desertas. Rapazes nos ramos das figueiras, rindo muito e esmagando nos bolsos os frutos negros, impossivelmente doces. Dentro dos quintais, cercados por valados de pedra solta, alfaias ferrugentas e restos de palha. Do interior das casas, cheiro a pão, risos, cantigas mal sintonizadas na telefonia. Ao longe, roncos de Famel Zundapp em estradas sem asfalto. Eu tinha 12 anos naquele verão, sob aquela luz. E caminhava por atalhos que iam dar, todos, à falésia. O mar ali ao lado, uma violência.
Era então que fechava os olhos. Apertava com força as pálpebras até ver, por dentro da ilusória cegueira, riscos dourados, manchas brilhantes, deflagrações. Sem pensar, desligava-me do mundo. Já não estava sentada num torrão de terra vermelha, já não havia atalho, nem roncos de Famel Zundapp, nem ruas sufocadas pelo estio, nem carrinhos de mão cheios de alfarroba junto à cisterna, nem cordas de nylon com molas de plástico a segurar roupa escura, nem a voz suave da avó Elvira anunciando uma fornada de biscoitos. Havia só o meu corpo suspenso, essa incógnita. E o silêncio que me impunha. O súbito e cruel silêncio das ondas que eu sabia estarem ali, desfazendo-se contra as rochas.
Ao abrir os olhos, o mundo regressava. Inteiro, brutal. Todos os sons ainda mais nítidos. A luz muito branca, a pique. E a mão que me haveria de salvar cada vez mais próxima.


# 3



Recado aos corvos

Levai tudo:
o brilho fácil das pratas,
o acre toque das sedas.

Deixai só a incombustível
memória das labaredas.

A. M. Pires Cabral (in «como se Bosch tivesse enlouquecido», João Azevedo Editor)



«memória das labaredas.»

Os corvos estavam em todo o lado. No cimo das árvores, pairando sobre as fragas, no território incontrolável dos sonhos. Luísa tinha medo deles – um pavor absoluto, antigo, irracional, infantil – e tentava afastá-los pensando em coisas puras (mel, leite, lã). Mas não conseguia. Os corvos permaneciam, como sombras pousadas nos sítios mais estranhos: os ponteiros do relógio da igreja, a talha dourada do altar, a viga mais alta da sacristia. E também nas estantes de mogno da biblioteca do avô. E também no seu quarto de adolescente, sobre os reposteiros.
Luísa sabia que estas aves negras eram ilusões, miragens que a sua cabeça criava para si mesma. O padre passou uma tarde, de candeia na mão, chama trémula afastando o escuro, mostrando-lhe que na casa de Deus só esvoaçam pombas (e acaso algum anjo). Deolinda, a criada de 87 anos, há três gerações na família, abriu as janelas do quarto e trepou, ligeira, os degraus de um escadote. «Vês, Luisinha», disse-lhe ufana, enquanto limpava o pó às flores de gesso do tecto. «Não há aqui nada. Essas coisas de que falas são bizarrias da tua imaginação impura».
Saber que os corvos eram enganosas figuras do seu inconsciente não lhe servia de alívio. Dona Constança, desolada com a perturbação da filha (e com os zunzuns que se espalhavam pela aldeia), saiu da sua letargia de viúva toldada pelo luto recente e experimentou tudo o que havia para experimentar: confissões diárias (seguidas de um ror de Pai Nossos), chá de tília, banhos em água de rosas, caminhadas matinais no campo, unguentos, panos frios na testa, leituras intensivas da Bíblia.
Os corvos, no entanto, persistiam. Luísa acordava todas as manhãs com os lençóis manchados de suor, esgotada por pesadelos em que eles rasgavam o fundo das trevas, como que saídos do círculo mais profundo do Inferno, espalhando à sua volta um crocitar maligno, feixe de silvos sobreagudos que tornavam ainda mais sinistros os bicos vermelhos de sangue.
Um dia, voltou a perguntar de que forma morrera o pai. «Já to disse», respondeu Dona Constança, «foi ao largo da Corunha, num naufrágio terrível». Luísa sabia que a mãe lhe mentia. Nessa mesma noite, vira em sonhos o pai num descampado, sem olhos, coberto por dezenas de aves negras. O pai morto, assassinado por dívidas de jogo, maldizendo a família que o impedira de vender a casa, as baixelas, os últimos bens. «Que ardam todos!», gritava, numa aflição de possesso. «Que ardam todos!»
Ao acordar, Luísa sorriu. No salão, após o pequeno-almoço, declarou-se curada: «Os corvos desapareceram, já não os vejo». Toda a gente suspirou de alívio, enquanto nos olhos da rapariga crescia agora o estranho brilho de um fogo vingador.


# 2



A tua voz

Maldiz a morte. É-nos injustamente dada.
Implora aos deuses por uma morte santa.
Quem és tu? Um pouco de ambição, de desejo e de sonhos
que não merece o castigo da agonia prolongada.
Só não sei o que podes fazer sozinho com a morte dos outros:
das crianças envoltas em chamas, das mulheres baleadas,
dos soldados feitos cegos
e que agonizam dias e dias, aqui e agora, ao teu lado.
Sem abrigo é a tua piedade, muda é a tua voz
e temes a sentença porque nada pudeste fazer.


Czeslaw Milosz (in «Alguns gostam de poesia – Antologia», tradução de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves, Cavalo de Ferro)



«Sem abrigo é a tua piedade, muda é a tua voz»

Enquanto espera pela hora da reunião, sentado numa cadeira Barcelona, Jonathan K. imagina a mão de Mies van der Rohe a desenhar com minúcia, há precisamente 74 anos, aquele prodígio de design. Tocando muito ao de leve no couro negro, pensa: «Isto sim é uma cadeira, não apenas um assento para corpos demasiado humanos».
A reunião, marcada para as oito e meia, vai começar mais tarde. O CEO comeu qualquer coisa esquisita ontem à noite (certamente um dos malditos hors d’oeuvre com que as galerias de Manhattan envenenam os seus clientes) e será substituído por um dos quadros superiores da empresa, infelizmente ainda a caminho, algures no trânsito caótico de Upper East Side. O encontro só começará por volta das nove horas, diz-lhe uma secretária demasiado sorridente. «OK», responde Jonathan, «eu espero». Um café? «Sim, obrigado, mas sem açúcar.»
Na parede de tons claros, uma imitação tosca de Salvador Dali. Elefantes de patas gigantescas caminhando por entre os arranha-céus, uma mulher nua feita de gavetas, o silêncio espectral do deserto insinuando-se atrás da cidade de vidro. O quadro é horrível. Jonathan K. sente uma veia a pulsar no pescoço. «O que raio estou eu aqui a fazer?» Atrás de uma porta transparente, a secretária fala ao telefone e faz-lhe um sinal. Não se esqueceu do café. Continua a sorrir muito.
Jonathan revê mentalmente a sua vida nos últimos quatro meses. A queda na piscina do hotel de Miami. O som da cabeça a bater numa aresta de cimento. O túnel de luz (igualzinho ao do quadro de Hieronymus Bosch). A sala dos cuidados intensivos, vista do tecto, fora do corpo. As duas semanas em coma. O acordar violento, como quem regressa ao princípio de tudo. A demorada reaprendizagem dos gestos. O dia em que uma enfermeira porto-riquenha lhe trouxe gladíolos e recusou a gorjeta. A epifania daquela manhã de sábado em que decidiu, com a convicção dos profetas, emendar os muitos erros da sua existência.
A outra vida, a vida anterior, está envolta numa espécie de nevoeiro. Já quase não se lembra dos anos passados em África. O negócio das armas, o tráfico de influências, os muitos mortos que as suas decisões, os seus lucros, engendraram. A fortuna manchada de sangue vai sendo repartida por fundações, ONG’s, empresas solidárias, causas filantrópicas. Foi também por isso que veio esta manhã até ao 53º andar da Torre Norte do WTC. «Serei algum dia capaz de salvar a minha alma?», pergunta-se.
A secretária sorridente traz-lhe o café. Jonathan K. bebe-o junto à janela. No Patek Philippe, os ponteiros marcam 8h46. Pelo seu rosto passa, súbita e absurda, a sombra de um avião.


22.10.04

# 1



Domínio do preto

De noite, à lareira,
As cores dos arbustos
E das folhas caídas,
Repetindo-se,
Redemoinharam na sala,
Como as próprias folhas
Redemoinhando ao vento.
Sim: mas a cor das pesadas cicutas
Veio a passos largos.
E recordei o grito dos pavões.

As cores das suas caudas
Eram como as mesmas folhas
Redemoinhando ao vento,
Ao vento do crepúsculo.
Varreram a sala,
Tal como voaram dos ramos das cicutas
Para baixo, para o chão.
Ouvi-os gritar – os pavões.
Seria um grito contra o crepúsculo
Ou contra as próprias folhas
Redemoinhando ao vento,
Redemoinhando como as chamas
Redemoinhavam na lareira,
Redemoinhando como as caudas dos pavões
Redemoinhavam ao fogo ruidoso,
Ruidoso como as cicutas
Cheias do grito dos pavões?
Ou seria um grito contra as cicutas?

Da janela,
Vi como os planetas se juntavam
Como as mesmas folhas
Redemoinhando ao vento.
Vi como a noite veio,
Veio a passos largos como a cor das pesadas cicutas
Senti medo.
E recordei o grito dos pavões.

Wallace Stevens (in «Ficção Suprema», tradução de Luísa Maria Lucas Queiroz de Campos, Assírio & Alvim)



«Seria um grito contra o crepúsculo»

Um homem avança, muito devagar, contra a última luz do dia. O corpo enorme, ligeiramente inclinado para a frente, chapéu de feltro na cabeça, gravata de seda, fato de um cinzento metálico, quase tão cinzento como o céu baço do Connecticut. Estamos no princípio do Inverno de 1934. O frio queima-lhe as mãos sem luvas.
Para trás ficou o escritório no primeiro piso do austero edifício da Hartford Accident and Indemnity, a companhia de seguros que o contratou, como advogado, há 18 anos. Para trás, também, tudo o resto: a solene escadaria de pedra; a fachada neoclássica com seis colunas jónicas; a reunião matinal do staff; o café demasiado quente bebido no corredor; as cartas ditadas à secretária pessoal sobre cláusulas omissas do contrato com uns agricultores teimosos de Danbury; a placa que diz Vice-Presidente, ainda a brilhar de tão nova; os acenos respeitosos dos outros homens engravatados; a sua figura distinta de homem de negócios bem sucedido.
Wallace Stevens avança contra a última luz do dia e esconde as mãos dentro do casaco. Hartford, com as suas casas banais habitadas por pessoas banais, pressente a escuridão que se aproxima como um arrepio. Ao longo da Asylum Avenue, alguns homens reconhecem-no e exclamam, com uma vénia: «Boa noite, Sr. Stevens». O crepúsculo tomou conta de todas as coisas. Há folhas caídas no chão.
Do trabalho até casa, no número 118 de Westerly Terrace, são duas milhas. É o percurso diário: duas milhas para lá, duas milhas para cá, uma caminhada quase tão regular como os passeios de Kant pelas ruas de Königsberg. Quando passa em frente do Saint Francis Hospital, ou enquanto segue vagarosamente sob as árvores de Scarborough Street, Wallace Stevens já não é o executivo que elabora estratégias comerciais ou calcula margens de lucro. É só um homem enorme, ligeiramente inclinado para a frente e para dentro, a cabeça um tumulto de ideias sob o chapéu de feltro, o pensamento saturado de vocábulos, ritmos inescapáveis, versos nascidos da pura imaginação, redemoinhando como as chamas.
Stevens repete para si mesmo os poemas finamente cinzelados de Harmonium (primeiro e até então único livro, publicado 11 anos antes). Em casa, tem Elsie à espera. E Holly, a filha pequena. Dois exemplos do impenetrável enigma feminino. Vindo do céu já escuro e a ameaçar neve, desce agora um melro que se põe a saltitar nos ramos de um cedro. A última luz do dia extinguiu-se. Ainda intacto, o antigo medo - agudo como o grito dos pavões. Palavras soltas, dedos sem luvas, tão frios.


ENDEREÇO DE E-MAIL

Trocas de ideias, correcções, críticas, incentivos e sugestões de poemas podem ser enviados para versodosversos@hotmail.com.
Ficamos à espera.

PEQUENO PERCALÇO TÉCNICO

Uma das principais razões para termos criado esta página Web prende-se com o facto de o José Miguel Soares fazer, para cada poema, um verdadeiro portfolio fotográfico, embora só seja publicada uma imagem por semana. A vantagem do blogue é precisamente esta: a de poder reunir, à foto escolhida, mais umas quantas das que ficaram de fora na versão em papel.
Infelizmente, algumas dificuldades técnicas não permitem que «O verso dos versos» arranque como queríamos; isto é, alternando palavras e imagens. Por enquanto, disponibilizaremos apenas os textos. Mais tarde, juntaremos as magníficas criações visuais do José Miguel. Queiram desculpar o começo a meio-gás. Como se costuma dizer, prometemos ser breves na resolução do problema.

20.10.04

INTRODUÇÃO

O impulso que nos levou a criar este blogue explica-se em poucas palavras: uma vez que o suplemento DNA (sai às sextas-feiras, com o «Diário de Notícias») não tem edição electrónica, decidimos criar na blogosfera um espaço onde se reflectisse – e ampliasse – a página que temos assinado semanalmente, a quatro mãos, no clássico papel de jornal. Ou seja, uma versão internética de um projecto pensado para a imprensa, com a óbvia vantagem de chegar a mais (e diferentes) leitores. De preferência àqueles leitores que gostem de interagir e nos façam chegar o seu feedback, seja por e-mail, seja através de comentários aos textos e imagens publicados.
Comecemos então por clarificar um pouco melhor o conceito deste «O verso dos versos». A ideia surgiu em Setembro de 2004, sob a forma de um desafio que o Pedro Rolo Duarte, director do DNA, nos lançou: «e se vocês fizessem uma página em que se cruzasse ficção e poesia?» Aceitámos o repto e depressa chegámos a um modelo. Partiremos sempre de um poema forte, capaz de sugerir pistas para uma experimentação narrativa e fotográfica. No entanto, quer os textos (de José Mário Silva) quer as imagens (de José Miguel Soares) tentarão fugir às armadilhas da facilidade. O que se pretende não é explicar o poema, muito menos interpretá-lo, antes criar algo que "nasça" do poema e ao mesmo tempo esteja para lá da sua matéria original. Nuns casos talvez sobreviva uma mesma atmosfera; noutros casos apenas um ou outro eco, um fio de luz, uma sombra (ou coisas ainda mais impalpáveis). O poema servirá sempre de inspiração, mote ou epígrafe, mas não mais do que isso.
Iniciemos então o caminho, desconhecendo ainda onde ele nos poderá levar.