22.10.04

# 1



Domínio do preto

De noite, à lareira,
As cores dos arbustos
E das folhas caídas,
Repetindo-se,
Redemoinharam na sala,
Como as próprias folhas
Redemoinhando ao vento.
Sim: mas a cor das pesadas cicutas
Veio a passos largos.
E recordei o grito dos pavões.

As cores das suas caudas
Eram como as mesmas folhas
Redemoinhando ao vento,
Ao vento do crepúsculo.
Varreram a sala,
Tal como voaram dos ramos das cicutas
Para baixo, para o chão.
Ouvi-os gritar – os pavões.
Seria um grito contra o crepúsculo
Ou contra as próprias folhas
Redemoinhando ao vento,
Redemoinhando como as chamas
Redemoinhavam na lareira,
Redemoinhando como as caudas dos pavões
Redemoinhavam ao fogo ruidoso,
Ruidoso como as cicutas
Cheias do grito dos pavões?
Ou seria um grito contra as cicutas?

Da janela,
Vi como os planetas se juntavam
Como as mesmas folhas
Redemoinhando ao vento.
Vi como a noite veio,
Veio a passos largos como a cor das pesadas cicutas
Senti medo.
E recordei o grito dos pavões.

Wallace Stevens (in «Ficção Suprema», tradução de Luísa Maria Lucas Queiroz de Campos, Assírio & Alvim)



«Seria um grito contra o crepúsculo»

Um homem avança, muito devagar, contra a última luz do dia. O corpo enorme, ligeiramente inclinado para a frente, chapéu de feltro na cabeça, gravata de seda, fato de um cinzento metálico, quase tão cinzento como o céu baço do Connecticut. Estamos no princípio do Inverno de 1934. O frio queima-lhe as mãos sem luvas.
Para trás ficou o escritório no primeiro piso do austero edifício da Hartford Accident and Indemnity, a companhia de seguros que o contratou, como advogado, há 18 anos. Para trás, também, tudo o resto: a solene escadaria de pedra; a fachada neoclássica com seis colunas jónicas; a reunião matinal do staff; o café demasiado quente bebido no corredor; as cartas ditadas à secretária pessoal sobre cláusulas omissas do contrato com uns agricultores teimosos de Danbury; a placa que diz Vice-Presidente, ainda a brilhar de tão nova; os acenos respeitosos dos outros homens engravatados; a sua figura distinta de homem de negócios bem sucedido.
Wallace Stevens avança contra a última luz do dia e esconde as mãos dentro do casaco. Hartford, com as suas casas banais habitadas por pessoas banais, pressente a escuridão que se aproxima como um arrepio. Ao longo da Asylum Avenue, alguns homens reconhecem-no e exclamam, com uma vénia: «Boa noite, Sr. Stevens». O crepúsculo tomou conta de todas as coisas. Há folhas caídas no chão.
Do trabalho até casa, no número 118 de Westerly Terrace, são duas milhas. É o percurso diário: duas milhas para lá, duas milhas para cá, uma caminhada quase tão regular como os passeios de Kant pelas ruas de Königsberg. Quando passa em frente do Saint Francis Hospital, ou enquanto segue vagarosamente sob as árvores de Scarborough Street, Wallace Stevens já não é o executivo que elabora estratégias comerciais ou calcula margens de lucro. É só um homem enorme, ligeiramente inclinado para a frente e para dentro, a cabeça um tumulto de ideias sob o chapéu de feltro, o pensamento saturado de vocábulos, ritmos inescapáveis, versos nascidos da pura imaginação, redemoinhando como as chamas.
Stevens repete para si mesmo os poemas finamente cinzelados de Harmonium (primeiro e até então único livro, publicado 11 anos antes). Em casa, tem Elsie à espera. E Holly, a filha pequena. Dois exemplos do impenetrável enigma feminino. Vindo do céu já escuro e a ameaçar neve, desce agora um melro que se põe a saltitar nos ramos de um cedro. A última luz do dia extinguiu-se. Ainda intacto, o antigo medo - agudo como o grito dos pavões. Palavras soltas, dedos sem luvas, tão frios.