23.10.04

# 2



A tua voz

Maldiz a morte. É-nos injustamente dada.
Implora aos deuses por uma morte santa.
Quem és tu? Um pouco de ambição, de desejo e de sonhos
que não merece o castigo da agonia prolongada.
Só não sei o que podes fazer sozinho com a morte dos outros:
das crianças envoltas em chamas, das mulheres baleadas,
dos soldados feitos cegos
e que agonizam dias e dias, aqui e agora, ao teu lado.
Sem abrigo é a tua piedade, muda é a tua voz
e temes a sentença porque nada pudeste fazer.


Czeslaw Milosz (in «Alguns gostam de poesia – Antologia», tradução de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves, Cavalo de Ferro)



«Sem abrigo é a tua piedade, muda é a tua voz»

Enquanto espera pela hora da reunião, sentado numa cadeira Barcelona, Jonathan K. imagina a mão de Mies van der Rohe a desenhar com minúcia, há precisamente 74 anos, aquele prodígio de design. Tocando muito ao de leve no couro negro, pensa: «Isto sim é uma cadeira, não apenas um assento para corpos demasiado humanos».
A reunião, marcada para as oito e meia, vai começar mais tarde. O CEO comeu qualquer coisa esquisita ontem à noite (certamente um dos malditos hors d’oeuvre com que as galerias de Manhattan envenenam os seus clientes) e será substituído por um dos quadros superiores da empresa, infelizmente ainda a caminho, algures no trânsito caótico de Upper East Side. O encontro só começará por volta das nove horas, diz-lhe uma secretária demasiado sorridente. «OK», responde Jonathan, «eu espero». Um café? «Sim, obrigado, mas sem açúcar.»
Na parede de tons claros, uma imitação tosca de Salvador Dali. Elefantes de patas gigantescas caminhando por entre os arranha-céus, uma mulher nua feita de gavetas, o silêncio espectral do deserto insinuando-se atrás da cidade de vidro. O quadro é horrível. Jonathan K. sente uma veia a pulsar no pescoço. «O que raio estou eu aqui a fazer?» Atrás de uma porta transparente, a secretária fala ao telefone e faz-lhe um sinal. Não se esqueceu do café. Continua a sorrir muito.
Jonathan revê mentalmente a sua vida nos últimos quatro meses. A queda na piscina do hotel de Miami. O som da cabeça a bater numa aresta de cimento. O túnel de luz (igualzinho ao do quadro de Hieronymus Bosch). A sala dos cuidados intensivos, vista do tecto, fora do corpo. As duas semanas em coma. O acordar violento, como quem regressa ao princípio de tudo. A demorada reaprendizagem dos gestos. O dia em que uma enfermeira porto-riquenha lhe trouxe gladíolos e recusou a gorjeta. A epifania daquela manhã de sábado em que decidiu, com a convicção dos profetas, emendar os muitos erros da sua existência.
A outra vida, a vida anterior, está envolta numa espécie de nevoeiro. Já quase não se lembra dos anos passados em África. O negócio das armas, o tráfico de influências, os muitos mortos que as suas decisões, os seus lucros, engendraram. A fortuna manchada de sangue vai sendo repartida por fundações, ONG’s, empresas solidárias, causas filantrópicas. Foi também por isso que veio esta manhã até ao 53º andar da Torre Norte do WTC. «Serei algum dia capaz de salvar a minha alma?», pergunta-se.
A secretária sorridente traz-lhe o café. Jonathan K. bebe-o junto à janela. No Patek Philippe, os ponteiros marcam 8h46. Pelo seu rosto passa, súbita e absurda, a sombra de um avião.