23.10.04

# 3



Recado aos corvos

Levai tudo:
o brilho fácil das pratas,
o acre toque das sedas.

Deixai só a incombustível
memória das labaredas.

A. M. Pires Cabral (in «como se Bosch tivesse enlouquecido», João Azevedo Editor)



«memória das labaredas.»

Os corvos estavam em todo o lado. No cimo das árvores, pairando sobre as fragas, no território incontrolável dos sonhos. Luísa tinha medo deles – um pavor absoluto, antigo, irracional, infantil – e tentava afastá-los pensando em coisas puras (mel, leite, lã). Mas não conseguia. Os corvos permaneciam, como sombras pousadas nos sítios mais estranhos: os ponteiros do relógio da igreja, a talha dourada do altar, a viga mais alta da sacristia. E também nas estantes de mogno da biblioteca do avô. E também no seu quarto de adolescente, sobre os reposteiros.
Luísa sabia que estas aves negras eram ilusões, miragens que a sua cabeça criava para si mesma. O padre passou uma tarde, de candeia na mão, chama trémula afastando o escuro, mostrando-lhe que na casa de Deus só esvoaçam pombas (e acaso algum anjo). Deolinda, a criada de 87 anos, há três gerações na família, abriu as janelas do quarto e trepou, ligeira, os degraus de um escadote. «Vês, Luisinha», disse-lhe ufana, enquanto limpava o pó às flores de gesso do tecto. «Não há aqui nada. Essas coisas de que falas são bizarrias da tua imaginação impura».
Saber que os corvos eram enganosas figuras do seu inconsciente não lhe servia de alívio. Dona Constança, desolada com a perturbação da filha (e com os zunzuns que se espalhavam pela aldeia), saiu da sua letargia de viúva toldada pelo luto recente e experimentou tudo o que havia para experimentar: confissões diárias (seguidas de um ror de Pai Nossos), chá de tília, banhos em água de rosas, caminhadas matinais no campo, unguentos, panos frios na testa, leituras intensivas da Bíblia.
Os corvos, no entanto, persistiam. Luísa acordava todas as manhãs com os lençóis manchados de suor, esgotada por pesadelos em que eles rasgavam o fundo das trevas, como que saídos do círculo mais profundo do Inferno, espalhando à sua volta um crocitar maligno, feixe de silvos sobreagudos que tornavam ainda mais sinistros os bicos vermelhos de sangue.
Um dia, voltou a perguntar de que forma morrera o pai. «Já to disse», respondeu Dona Constança, «foi ao largo da Corunha, num naufrágio terrível». Luísa sabia que a mãe lhe mentia. Nessa mesma noite, vira em sonhos o pai num descampado, sem olhos, coberto por dezenas de aves negras. O pai morto, assassinado por dívidas de jogo, maldizendo a família que o impedira de vender a casa, as baixelas, os últimos bens. «Que ardam todos!», gritava, numa aflição de possesso. «Que ardam todos!»
Ao acordar, Luísa sorriu. No salão, após o pequeno-almoço, declarou-se curada: «Os corvos desapareceram, já não os vejo». Toda a gente suspirou de alívio, enquanto nos olhos da rapariga crescia agora o estranho brilho de um fogo vingador.