23.10.04

# 4



Fui criança, indo por um carreiro,
a caminho do mar, mão na outra mão,
entre árvores, pedras, insectos e aves.
Toda a Natureza me coube nas pupilas,
mestra de sentimentos, e eu discípula.
E, se fechava os olhos, ela punia-me
com o silêncio cruel das ondas,
a mudez imerecida dos insectos,
e a distância das aves, que doía.
Se os abria, tudo me rodeava,
apaziguado e meu,
mas a mão que me trazia a mão
puxava-me para a luz de cada dia.

Fiama Hasse Pais Brandão (in «Cenas Vivas», Relógio d’Água)



«com o silêncio cruel das ondas,»

Recordo-me bem daquela luz, muito branca e vertical, caindo do céu a pique, como uma maldição divina. O sol em peso abatendo-se sobre a terra, devorando os contornos das ervas e das pedras, esbatendo as cores, sorvendo o próprio ar, a própria respiração, um fogo invisível a crescer por dentro da manhã. Os olhos, feridos pela claridade excessiva, eram incapazes de se levantar do chão, presos ao estreito caminho que serpenteava entre as estevas, ao longo da falésia, tão perto da lâmina azul do mar.
Eu tinha 12 anos naquele verão, sob aquela luz. Na véspera, descobrira com espanto (e pavor; e alegria) o meu primeiro sangue, o primeiro sinal da mulher que ainda não era. O corpo: uma revolta de formas ainda incertas, curvas tímidas, suave arredondar da pele. A cabeça: uma explosão de imagens confusas, sentimentos desencontrados, ondas a chocar umas com as outras num caos de espuma. A noite: um domínio de sombras onde os piores pesadelos se materializavam.
Depois, a aldeia como um assombro de cal e vozes murmuradas. Círculos de pessoas mais velhas: avós, o padre, vagos primos. Histórias incompreensíveis ditas por bocas incompreensíveis. O calor, animal bravio avançando pelas ruas desertas. Rapazes nos ramos das figueiras, rindo muito e esmagando nos bolsos os frutos negros, impossivelmente doces. Dentro dos quintais, cercados por valados de pedra solta, alfaias ferrugentas e restos de palha. Do interior das casas, cheiro a pão, risos, cantigas mal sintonizadas na telefonia. Ao longe, roncos de Famel Zundapp em estradas sem asfalto. Eu tinha 12 anos naquele verão, sob aquela luz. E caminhava por atalhos que iam dar, todos, à falésia. O mar ali ao lado, uma violência.
Era então que fechava os olhos. Apertava com força as pálpebras até ver, por dentro da ilusória cegueira, riscos dourados, manchas brilhantes, deflagrações. Sem pensar, desligava-me do mundo. Já não estava sentada num torrão de terra vermelha, já não havia atalho, nem roncos de Famel Zundapp, nem ruas sufocadas pelo estio, nem carrinhos de mão cheios de alfarroba junto à cisterna, nem cordas de nylon com molas de plástico a segurar roupa escura, nem a voz suave da avó Elvira anunciando uma fornada de biscoitos. Havia só o meu corpo suspenso, essa incógnita. E o silêncio que me impunha. O súbito e cruel silêncio das ondas que eu sabia estarem ali, desfazendo-se contra as rochas.
Ao abrir os olhos, o mundo regressava. Inteiro, brutal. Todos os sons ainda mais nítidos. A luz muito branca, a pique. E a mão que me haveria de salvar cada vez mais próxima.


3 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Parece-me uma boa iniciativa. Para quem lê a revista DNA é diferente...não há melhor do que o papel.
Além disso, agrada-me muito todo o grafismo "diferente" da revista em geral e gosto de ter as imagens presentes. Talvez seja isso que falta nesta "pequena-versão" on-line, imagens.

Já agora, os meus parabéns pelo trabalho na DNA.

TeresaCorreia

29 de outubro de 2004 às 10:29  
Anonymous Anónimo said...

Agora, Teresa, as imagens já cá estão.
Volte sempre.

19 de novembro de 2004 às 17:17  
Anonymous Anónimo said...

Agora, Teresa, as imagens já cá estão.
Volte sempre.

19 de novembro de 2004 às 17:24  

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