26.11.04

# 8



Variações do branco

Ergues o olhar: surpreendes por instantes essa hora
em que o mundo envelhece: ténues as variações do branco
parecem dissolvê-lo numa longínqua música, anterior à chuva

Ou será então a imagem submersa de um filme a preto e branco

Há próximo um branco vibrante: o da cal ainda recente
mas que a humidade salina já a espaços mordeu,
recortando as feridas cinza na varanda a que vens.

Não há ninguém aqui. Quem te chame, digo.

Há o branco baço na parede que em frente em vão separa
rua e praia. Tendo já transposto essa fronteira incerta
ou erguendo-se para lá dela há o branco pobre da areia:

As dunas plenárias sustentam os corpos deitados de mar e céu.
Aí é agora o grande branco: o clarão velado e difuso
que guarda e distribui a memória embaciada do azul
e do verde, do oiro e da prata — uma lembrança vã.

Tu escreves no visível do mundo essa névoa branca e desolada

que o motor da paisagem produz. As folhas do ar são como
se fossem as levíssimas pétalas, as vagas sílabas de uma neve –
e essa névoa engolfa, atrasa e apaga na travessia os simulacros

das coisas supostas e imaginadas que o mundo te envia
enquanto esperas por alguém que não virá

manuel gusmão (in «migrações do fogo», Caminho)



«enquanto esperas por alguém que não virá»

Tens a fotografia nas tuas mãos. A velha fotografia. À esquerda, o contorno das dunas, o brilho fosco da areia, o mar apenas sugerido, três gaivotas de asas abertas, nuvens imensas a encher o céu. Ao centro, numa espécie de penumbra, a casa: alvenaria batida pelos ventos, vigas de madeira carcomidas pela humidade salina, janelas rasgadas diante do furor oceânico, restos de cal e de um esplendor antigo. À direita, a imensa sombra da lagoa, o pinhal estendendo-se terra adentro — voraz — e com ele o princípio da estrada de todos os regressos, de todas as despedidas.
Olhas para o pequeno rectângulo de papel rugoso, agora cheio de riscos, amarelado nas pontas. Quem captou aquela imagem já morreu há muitos anos. A casa já não existe; é só areia, corrosão, ruínas. E aquele que tu foste, dentro da casa, também desaparece aos poucos, devorado pela máquina ferrugenta da memória, perdido nesse passado que se vai tornando difuso, frágil e inútil — como uma teia de aranha.
Sabes muito bem o que o tempo, esse assassino discreto, faz às coisas. Monta o cerco. Expande o deserto. Seca por fora e por dentro. Transforma tudo em pó. Nada lhe resiste. Nada. Nem sequer a imagem de uma casa frente ao mar que alguém, um dia, com paciência e nitrato de prata, fixou. Nem sequer esta velha fotografia que se desfaz, aos poucos, nas tuas mãos demasiado gastas.
Segues agora, com o olhar, cada uma das linhas da imagem que se desvanece, os gradientes de um preto e branco cada vez mais submerso na irrealidade das coisas extintas. Percorres, às cegas, as fronteiras de um mapa imaginário: o mar escondido, as paredes onde a cal nunca se demorava, o crepúsculo violento atravessando as salas, as tábuas de madeira que rangiam nas noites de ventania, a bruma sobre a lagoa, uma voz saindo da escuridão com a forma do teu nome.
Acendes, uma última vez, a memória. Ficas à espera. Mas a memória calou-se. As vozes não regressam, não há ninguém que te chame neste agora que veio depois de tudo o que se apagou, não há variações dentro da brancura espessa do esquecimento. A névoa engoliu tudo. Já não há azul, já não há verde, já não há oiro, já não há prata.
Ainda assim, a fotografia continua entre os teus dedos. Intacta. Mas olhar para ela tornou-se uma violência. O que foi belo, magoa. O silêncio devora-te. O vazio é uma faca apontada ao coração. Sabes que nunca ninguém virá, nunca mais. Por isso aproximas do lume o rectângulo de papel rugoso. E vês arder tudo aquilo: a casa, o mar, as nuvens imensas, a tua infância.


18.11.04

# 7



Não toques nos objectos imediatos.
A harmonia queima.
Por mais leve que seja um bule ou uma chávena,
são loucos todos os objectos.
Uma jarra com um crisântemo transparente
tem um tremor oculto.
É terrível no escuro.
Mesmo o seu nome, só a medo o podes dizer.
A boca fica em chaga.

Herberto Helder (in «Ou o poema contínuo», Assírio & Alvim)



«A harmonia queima.»

Apercebeu-se do murmúrio quando foi à cozinha, às cinco da manhã, beber água. Ainda tinha a cabeça zonza e só uma ideia muito vaga dos locais por onde o seu corpo deambulara naquela noite: o restaurante da moda com pratos enormes, comida minúscula e empregados empertigados; o bar pós-moderno com néons vermelhos a piscar, vodca finlandesa e cronistas a discutir o cadáver ainda quente de Derrida; a discoteca «rebenta-tímpanos mas cheia de gajas boas» (no dizer de um amigo), atravessada por luzes estroboscópicas e executivos de olhos baços; a casa-de-banho em inox, com urinóis cónicos e superfícies lisas ideais para snifar uma linha de coca; o corpo suado da rapariga quase adolescente, carinha de capa da «Vogue» e um piercing algures no corpo («vê lá se o descobres»); o táxi a cair de podre com bancos em napa castanha e o vulto assustador, em cima do tablier, de uma Nossa Senhora de Fátima em miniatura, daquelas que muda de cor consoante o estado do tempo; as escadas do prédio e os passos cambaleantes até ao elevador, acompanhados pelo zoom indiscreto de uma câmara de vigilância; a porta blindada que faz um click mínimo quando a chave entra na fechadura; a banheira cheia de água quente e sais comprados em Londres; o quarto aquecido à temperatura ideal: 22 graus. Não se lembrava exactamente da hora a que chegara, nem de quanto tempo demorara a adormecer. Com o copo de água na mão, sentindo o frio dos mosaicos nos pés descalços, a única imagem nítida que lhe sobrava era a dos pesadelos recorrentes que lhe assaltam o sono, há demasiado tempo. Num desses pesadelos está no topo de um arranha-céus e o melhor amigo desafia-o a lançar-se lá de cima. Ele ri-se, diz «porque não?», começa a correr e atira-se de braços abertos no vazio. Depois puxa um cordel que lhe sai da lapela do fato Hugo Boss e fica à espera de sentir o corpo sacudido pela abertura brusca do pára-quedas. Só que o pára-quedas não abre e, enquanto continua a cair desamparado, volta-se para cima e vê o amigo no topo do edifício, dizendo-lhe adeus com a mão onde brilha, ostensivamente dourada, uma tesoura. «Delírios de um homem só», explicou-lhe um dia certa colega, com segundas intenções. «Sentimentos de culpa», diagnosticou o psicanalista. «A minha cabeça lixada, apenas isso», diz para si mesmo, já preso na teia da angústia, enquanto pousa o copo no lava-loiças. À sua volta, o apartamento caríssimo, cheio de coisas caríssimas. Tão perfeito. Tão harmonioso. Tão vazio. E de repente o murmúrio. Uma espécie de zumbido. Um tremor oculto. Os objectos com sombras cada vez mais estranhas. A escuridão ardendo atrás de cada porta. O murmúrio a instalar-se, definitivo, debaixo da pele.


5.11.04

# 6

Flor

A pedra.
A pedra no ar, que segui.
O teu olhar, tão cego como a pedra.

Nós fomos
mãos,
esvaziámos a treva, encontrámos
a palavra, que subia do verão:
flor.

Flor – uma palavra de cegos.
Os teus olhos e os meus olhos:
vão em busca
de água.

Crescimento.
Folha a folha acrescenta
as paredes do coração.

Uma palavra ainda, como esta, e os martelos
rodopiam ao ar livre.

Paul Celan (in «Sete Rosas Mais Tarde – Antologia Poética», tradução de João Barrento e Y. K. Centeno, Cotovia)


«Os teus olhos e os meus olhos:»

Ela disse-lhe baixinho: «Uma flor branca pode ser uma arma mortal». Ele fez que sim com a cabeça, quase envergonhado. Nas visitas à clínica, nunca mais lhe levou lírios. Só caixas de bombons com recheio de praliné, conversas de circunstância, cigarros e revistas cor-de-rosa.

***

Há palavras que são iguais às coisas que nomeiam. Há palavras que não são iguais às coisas que nomeiam. Ele pensa na palavra tubérculo e não consegue imaginar formas semelhantes a uma batata. Ele pensa na palavra alumínio e consegue ver uma peça de metal que brilha. «Flor», por exemplo. «Dizemos flor e o próprio som parece uma corola que nos sai da boca. Dizemos flor e a língua fica com um sabor a pétalas». Ele vai pensando tudo isto na paragem, após a visita. O frio enfia-se pelas mangas do casaco. O autocarro nunca mais chega.

***

A pedra. A pedra no ar. Uma coisa que voa. Uma palavra que voa. Matéria escura e sólida, sujeita às leis da física. Puxada para cima pelo nosso olhar e para baixo pela gravidade (mas a gravidade tem sempre mais força do que o nosso olhar). Ele recorda uma coisa que parece muito antiga mas não é: «Uma vez peguei numa pedra e atirei-a por cima do muro, embrulhada num papel que dizia: eis o meu coração, dou-to.» Infelizmente, naquela tarde ela não se sentara no lugar do costume e a pedra acertou-lhe em cheio na cabeça, com a aresta mais cortante. Desmaiou. Alguém chamou uma ambulância. Dois dias mais tarde, ele visitou-a na clínica. Ela não chegara a ler o papel, abandonado sobre a relva, manchado de sangue. Com a cabeça cheia de ligaduras, perguntou-lhe: «Que raio de pessoa seria capaz de fazer uma coisa destas?»

***

Na florista, cinco minutos antes da visita, decidira-se pelos lírios, apesar dos conselhos da vendedora puxarem mais para as rosas. Ao regressar a casa, cabisbaixo, pensou nos olhos dela. Já não sabia se eram azuis ou castanhos. Já não sabia se seriam capazes de o olhar, depois de conhecerem a verdade. Repetiu baixinho, para si mesmo: «Uma flor branca pode ser uma arma mortal». E acrescentou: «Um coração também.»