18.11.04

# 7



Não toques nos objectos imediatos.
A harmonia queima.
Por mais leve que seja um bule ou uma chávena,
são loucos todos os objectos.
Uma jarra com um crisântemo transparente
tem um tremor oculto.
É terrível no escuro.
Mesmo o seu nome, só a medo o podes dizer.
A boca fica em chaga.

Herberto Helder (in «Ou o poema contínuo», Assírio & Alvim)



«A harmonia queima.»

Apercebeu-se do murmúrio quando foi à cozinha, às cinco da manhã, beber água. Ainda tinha a cabeça zonza e só uma ideia muito vaga dos locais por onde o seu corpo deambulara naquela noite: o restaurante da moda com pratos enormes, comida minúscula e empregados empertigados; o bar pós-moderno com néons vermelhos a piscar, vodca finlandesa e cronistas a discutir o cadáver ainda quente de Derrida; a discoteca «rebenta-tímpanos mas cheia de gajas boas» (no dizer de um amigo), atravessada por luzes estroboscópicas e executivos de olhos baços; a casa-de-banho em inox, com urinóis cónicos e superfícies lisas ideais para snifar uma linha de coca; o corpo suado da rapariga quase adolescente, carinha de capa da «Vogue» e um piercing algures no corpo («vê lá se o descobres»); o táxi a cair de podre com bancos em napa castanha e o vulto assustador, em cima do tablier, de uma Nossa Senhora de Fátima em miniatura, daquelas que muda de cor consoante o estado do tempo; as escadas do prédio e os passos cambaleantes até ao elevador, acompanhados pelo zoom indiscreto de uma câmara de vigilância; a porta blindada que faz um click mínimo quando a chave entra na fechadura; a banheira cheia de água quente e sais comprados em Londres; o quarto aquecido à temperatura ideal: 22 graus. Não se lembrava exactamente da hora a que chegara, nem de quanto tempo demorara a adormecer. Com o copo de água na mão, sentindo o frio dos mosaicos nos pés descalços, a única imagem nítida que lhe sobrava era a dos pesadelos recorrentes que lhe assaltam o sono, há demasiado tempo. Num desses pesadelos está no topo de um arranha-céus e o melhor amigo desafia-o a lançar-se lá de cima. Ele ri-se, diz «porque não?», começa a correr e atira-se de braços abertos no vazio. Depois puxa um cordel que lhe sai da lapela do fato Hugo Boss e fica à espera de sentir o corpo sacudido pela abertura brusca do pára-quedas. Só que o pára-quedas não abre e, enquanto continua a cair desamparado, volta-se para cima e vê o amigo no topo do edifício, dizendo-lhe adeus com a mão onde brilha, ostensivamente dourada, uma tesoura. «Delírios de um homem só», explicou-lhe um dia certa colega, com segundas intenções. «Sentimentos de culpa», diagnosticou o psicanalista. «A minha cabeça lixada, apenas isso», diz para si mesmo, já preso na teia da angústia, enquanto pousa o copo no lava-loiças. À sua volta, o apartamento caríssimo, cheio de coisas caríssimas. Tão perfeito. Tão harmonioso. Tão vazio. E de repente o murmúrio. Uma espécie de zumbido. Um tremor oculto. Os objectos com sombras cada vez mais estranhas. A escuridão ardendo atrás de cada porta. O murmúrio a instalar-se, definitivo, debaixo da pele.