10.12.04

# 10



deixa o tempo fazer o resto
fechar janelas
aplacar os barcos
recolher os víveres
semear a sorte
acender o fogo
esperar a ceia

abre as portas: lê a luz
a sombra, a arte do passarinheiro

com três paus
fazes uma canoa
com quatro tens um verso,
deixa o tempo fazer o resto.

Ana Paula Inácio (in «Vago Pressentimento Azul Por Cima», Ilhas)



«abre as portas: lê a luz»

Quando Fabíola nasceu, com a mãe esvaída em sangue, rodeada de mulheres aflitas, baldes de água quente e orações a Nossa Senhora, o céu ficou subitamente escuro, embora na parede da sala de jantar o relógio insistisse que a manhã ainda ia a meio. Pela janela entreaberta, a súbita escuridão, o súbito arrefecimento do ar e o súbito silêncio dos pássaros entraram no quarto onde Fabíola encetava os primeiros gritos, o primeiro choro, o primeiro frenesim de ser vivo que respira e se atormenta com a realidade violenta do mundo. Lá fora, o disco negro da Lua ia escondendo o Sol, mais e mais, enquanto as mulheres aflitas cobriam com um lençol o corpo morto da mãe, um corpo ainda belo e assustadoramente lívido.
Desde pequena que Fabíola ouvia histórias sobre o seu nascimento. A morte da mãe. O eclipse. Ela a sobreviver a um parto impossível. Histórias de milagres e maldições. Habituara-se já a esses relatos e nunca lhes dera a importância que sabia não terem. Quando se olhava ao espelho, nas manhãs dolorosas da sua adolescência, dizia apenas: «Sou órfã de pai e mãe, estou sozinha no mundo mas hei-de encontrar, mais tarde ou mais cedo, o meu caminho.»
Pouco depois da morte da mãe, o pai de Fabíola, um espanhol que fugira da Guerra Civil, em 1936, e encontrara refúgio naquela pacata aldeia da raia alentejana, trabalhando à jorna nos campos, apanhando azeitona ou ceifando o trigo, também se cruzou com a má sorte. Numa noite em que bebera mais do que a conta, ao regressar a casa por um caminho escarpado, junto ao Guadiana, escorregou-lhe um pé no cascalho e foram dar com ele, cheio de moscas, cinco dias mais tarde, no fundo de uma cova, ali onde o rio desenha um S.
Criada por uma prima, mulher de ventre seco mas muito instinto materno, Fabíola só soube a verdadeira história dos seus pais aos 17 anos, quando o marido da prima achou que ia sendo tempo da cachopa conhecer a verdadeira história do seu nascimento. Afinal era tudo verdade: a morte da mãe, o eclipse, o parto impossível. Num primeiro momento, odiou a prima e o seu marido, pela cobardia do silêncio e a usurpação filial. Depois, conformou-se. Rabiscou cadernos com desabafos e poemas tristes. Penteou-se em frente ao espelho. Imaginou cavaleiros de armadura reluzente, chegando a galope para a vir buscar.
Uns meses mais tarde, quem apareceu na aldeia não foi o príncipe garboso mas um rapaz muito sujo e ainda assim encantador. Dentro de uma gaiola de vime, trazia rouxinóis. Fabíola encontrou-o ao pé da fonte. Eram três da tarde. E mesmo sem eclipse, para ela o resto do mundo escureceu.


4.12.04

# 9



Abria a porta, e a nítida imagem
– o teu rosto, o seu definido presente, a sua iludida memória –
vinha fazer naufragar o escuro
do longo corredor pela frente.

Naquele tempo
a aflita mancha de palavras azuis
pulverizava certezas,
segredava-lhe o livro ardente,
o enigma da sua possibilidade.

A aflita mancha de palavras azuis
era distância não exercida,
ludibriada pelo júbilo,
houvesse crença na sua morada.

Abria a porta
e o volume do medo bloqueava-lhe
agora o passo
do que antes fora toda uma vida.

Luís Quintais (in «Verso Antigo», Cotovia)



«A aflita mancha de palavras azuis»

No momento em que V. perdeu o controlo do renault Laguna, na A1, perto da saída para Leiria, N. estava a assinar, na FNAC do Centro Comercial Colombo, dezenas de exemplares do seu último livro de auto-ajuda zen: «Aquela Súbita Luz». Enquanto R. assiste, num camarote VIP, aos últimos minutos de um jogo do Manchester United com o Arsenal, em Old Trafford, B. entra numa carruagem de metro, na estação do Colégio Militar, a tempo de ver alguns elementos da claque No Name Boys que desenroscam lâmpadas, gritam obscenidades e exibem, com esgares simiescos, as suas tatuagens e barras de ferro. No pátio da prisão, junto ao gradeamento, F. olha para a lua, em quarto decrescente no céu do fim da tarde, e imagina como estará D. tantos anos depois (longe dali, muito longe dali, D. coze batatas para o jantar, com os olhos parados na água que ferve, sem saber porque lhe vieram de repente à cabeça versos japoneses, haikus que falam da neve e de árvores com pétalas vermelhas iluminadas pelo luar, poemas ditos há tantos anos por uma boca — os lábios finos de F., entreabertos — que as encruzilhadas da vida foram eclipsando). Sobre o Pacífico, num voo para Tóquio, A. tenta dormir mas não consegue porque os passageiros do lado, um casal de holandeses reformados, falam animadamente sobre uma nova fadista que ouviram ao vivo em Roterdão, 15 dias antes, e que está ali, nas páginas da revista oferecida pela Japan Airlines, chama-se H. e ao vê-la em pose, junto à Casa dos Bicos, numa fotografia cheia de filtros dourados, A. reconhece-a e não consegue conter a tristeza, muito menos as lágrimas. Quando a voz de H. parece que se deixa cair, a meio de uma canção, num requebro que leva ao êxtase o público do Coliseu, P. telefona a T. e a melancolia das guitarras espalha-se pela casa, chegando como que em surdina ao terraço onde E., abraçado à garrafa de gin, decifra as constelações sobre o mar de Lagos. Perdido nos seus sonhos de grandeza, M. não tem a lucidez suficiente para compreender que o seu Sistema filosófico nunca será mais do que é agora: um aglomerado de ideias dispersas, sem centro nem circunferência, espalhadas por rascunhos que ninguém compreende (nem compreenderá). É C. quem lhe diz a verdade, olhos nos olhos, depois de o salvar do desespero e do excesso de comprimidos. Na sombra, X. conta os minutos, junto ao telefone que não chegará a tocar.
V, N, R, B, F, D, A, H, P, T, E, M, C, X. Só eu os conheço a todos. Só eu distingo, vista de cima, a teia que formam. O improvável labirinto. Apareceram sem que os chamasse e transformei-os em literatura. Uma aflita mancha de palavras azuis a esconder este vazio. A porta fechada da tua ausência.