4.12.04

# 9



Abria a porta, e a nítida imagem
– o teu rosto, o seu definido presente, a sua iludida memória –
vinha fazer naufragar o escuro
do longo corredor pela frente.

Naquele tempo
a aflita mancha de palavras azuis
pulverizava certezas,
segredava-lhe o livro ardente,
o enigma da sua possibilidade.

A aflita mancha de palavras azuis
era distância não exercida,
ludibriada pelo júbilo,
houvesse crença na sua morada.

Abria a porta
e o volume do medo bloqueava-lhe
agora o passo
do que antes fora toda uma vida.

Luís Quintais (in «Verso Antigo», Cotovia)



«A aflita mancha de palavras azuis»

No momento em que V. perdeu o controlo do renault Laguna, na A1, perto da saída para Leiria, N. estava a assinar, na FNAC do Centro Comercial Colombo, dezenas de exemplares do seu último livro de auto-ajuda zen: «Aquela Súbita Luz». Enquanto R. assiste, num camarote VIP, aos últimos minutos de um jogo do Manchester United com o Arsenal, em Old Trafford, B. entra numa carruagem de metro, na estação do Colégio Militar, a tempo de ver alguns elementos da claque No Name Boys que desenroscam lâmpadas, gritam obscenidades e exibem, com esgares simiescos, as suas tatuagens e barras de ferro. No pátio da prisão, junto ao gradeamento, F. olha para a lua, em quarto decrescente no céu do fim da tarde, e imagina como estará D. tantos anos depois (longe dali, muito longe dali, D. coze batatas para o jantar, com os olhos parados na água que ferve, sem saber porque lhe vieram de repente à cabeça versos japoneses, haikus que falam da neve e de árvores com pétalas vermelhas iluminadas pelo luar, poemas ditos há tantos anos por uma boca — os lábios finos de F., entreabertos — que as encruzilhadas da vida foram eclipsando). Sobre o Pacífico, num voo para Tóquio, A. tenta dormir mas não consegue porque os passageiros do lado, um casal de holandeses reformados, falam animadamente sobre uma nova fadista que ouviram ao vivo em Roterdão, 15 dias antes, e que está ali, nas páginas da revista oferecida pela Japan Airlines, chama-se H. e ao vê-la em pose, junto à Casa dos Bicos, numa fotografia cheia de filtros dourados, A. reconhece-a e não consegue conter a tristeza, muito menos as lágrimas. Quando a voz de H. parece que se deixa cair, a meio de uma canção, num requebro que leva ao êxtase o público do Coliseu, P. telefona a T. e a melancolia das guitarras espalha-se pela casa, chegando como que em surdina ao terraço onde E., abraçado à garrafa de gin, decifra as constelações sobre o mar de Lagos. Perdido nos seus sonhos de grandeza, M. não tem a lucidez suficiente para compreender que o seu Sistema filosófico nunca será mais do que é agora: um aglomerado de ideias dispersas, sem centro nem circunferência, espalhadas por rascunhos que ninguém compreende (nem compreenderá). É C. quem lhe diz a verdade, olhos nos olhos, depois de o salvar do desespero e do excesso de comprimidos. Na sombra, X. conta os minutos, junto ao telefone que não chegará a tocar.
V, N, R, B, F, D, A, H, P, T, E, M, C, X. Só eu os conheço a todos. Só eu distingo, vista de cima, a teia que formam. O improvável labirinto. Apareceram sem que os chamasse e transformei-os em literatura. Uma aflita mancha de palavras azuis a esconder este vazio. A porta fechada da tua ausência.


2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Gostei do poema e da prosa.

hfm
http://alicerces.blogspot.com

6 de dezembro de 2004 às 08:49  
Anonymous Anónimo said...

faz-me falta o teu papel vermelho
de proibires com ar decisivo que não te acorde.e a corda... a voz mais clara .estou melhor de não fazer asneiras, de dizer não aos paternalistas e de ver boas notícias que até as há tuas mas outras também as modal frases já as deitei fora bom dia!para ti e todos que amas .

17 de dezembro de 2004 às 11:33  

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