21.1.05

# 15



NOMEIO O MUNDO

Com medo de o perder nomeio o mundo,
Seus quantos e qualidades, seus objectos,
E assim durmo sonoro no profundo
Poço de astros anónimos e quietos.

Nomeei as coisas e fiquei contente:
Prendi a frase ao texto do universo.
Quem escuta ao meu peito ainda lá sente,
Em cada pausa e pulsação, um verso.


Vitorino Nemésio (in «Antologia Poética», Edições Asa)



«Nomeei as coisas e fiquei contente:»

O PRIMEIRÍSSIMO INSTANTE EM QUE O MUNDO SE ACENDEU. Lembras-te? O cúmulo da simplicidade: dois olhos que olham dois olhos que olham. Uma linha recta que desfoca tudo à volta. Tão evidente, tão óbvio. A súbita claridade a apagar arestas, a esmaecer contornos. Nem era preciso nome para uma coisa assim. Pois não?

GALÁXIAS PORTÁTEIS. «Os poemas», insisti eu, «os poemas é que são galáxias portáteis». Tu abanavas a cabeça, para cá e para lá, inflexível: «não, não e não, sabes perfeitamente que as caixas com borboletas espetadas é que são galáxias portáteis». Ficámos naquilo horas a fio: poemas e caixas com borboletas espetadas, poemas e caixas com borboletas espetadas, poemas e caixas com borboletas espetadas._Entretanto caiu a noite, escura e a abarrotar de estrelas. Olhámos para cima._Calámo-nos. Fomos embora.

BURACOS NO CHÃO. Os buracos esperam, pacientes, pelo pé que um dia há-de pousar em falso e pelo corpo que cairá, mais adiante, numa poça cheia de lama. Melhor dizendo: esperam pelo teu pé. Melhor dizendo: esperam pelo meu corpo.

UM DIA DE CHUVA. Água inclinada sobre os telhados. Telhados inclinados sob a água. O meu peito e o teu peito a imitarem, dentro de casa, aquela teoria geral das inclinações.

LOIÇA DEMASIADO FRÁGIL. Depois do lanche, enquanto eu ia varrendo as migalhas de bolo e as chávenas partidas, tu inventaste uma taxinomia para os cacos. Gostamos de passar o tempo assim: lutando, sempre em vão, contra a entropia.

MAPAS & OUTROS EQUÍVOCOS. Afirmámos a pé juntos, apontando para a casca rugosa de uma árvore: «isto é um mapa». E acreditámos nisso como alguns acreditam em coisas ainda mais improváveis. A felicidade, por exemplo. Ou Deus.

TELEMICROSCÓPIO. Tinha um amigo cientista que ia para o Observatório Astronómico pesquisar buracos negros e radiações cósmicas. Até que um dia julgou ver, nos confins supostamente vazios do espaço, formas estranhas. Primeiro uma amiba, depois uma paramécia, por fim uma bactéria. Ao fim de uns meses, desistiu da carreira académica. «Não dá mais», disse-me. «Ou fui eu que enlouqueci, ou foi o mundo.»

MÃOS. Às vezes parecem aves, às vezes parecem pedras, às vezes parecem vidro, às vezes parecem correntes de ar, às vezes não se parecem com nada.

A CURVA PERFEITA DO TEU VENTRE. Não sei que nome dar à linha que vai crescendo dia a dia, como um horizonte convexo, sobre a tua pele. É uma curva perfeita. Só sei isso. Uma curva perfeita. Abóbada celeste vista de fora.


20.1.05

NOVO E-MAIL

Atenção, caríssimos leitores, o e-mail para onde podem escrever foi alterado. Passa a ser este: versodosversos@yahoo.com. Obrigado.

# 14



O POEMA E A ÁGUA

As vozes líquidas do poema
convidam ao crime
ao revólver.

Falam para mim de ilhas
que mesmo os sonhos
não alcançam.

O livro aberto nos joelhos
o vento nos cabelos
olho o mar.

Os acontecimentos de água
põem-se a se repetir
na memória.


João Cabral de Melo Neto (in «Poesia Completa 1940-1980», Imprensa Nacional-Casa da Moeda)



«Os acontecimentos de água»

De repente, lembrou-se do dia em que quase morreu afogado. Coisas muito nítidas (e tão dolorosas): os olhos abertos dentro de água, a força do mar a puxá-lo para longe da praia, visões de espuma e céu aberto, os sons a misturarem-se e a perderem velocidade, estrutura, sentido (como os leitores de cassetes quando as pilhas começam a falhar), sons muito lentos e graves atravessados por gritos agudos (a voz estridente da namorada, em pânico, no limite do areal), a sensação de ter os pulmões prestes a explodir por dentro, os braços rígidos, a mão que de fora continua a agitar-se já quase sem esperança, o grande silêncio subaquático a chamá-lo para o fundo, para o azul hipnótico com rochas e algas, mas a cabeça a vir sempre à superfície, sôfrega, o ar duro como pedra a entrar pela boca às golfadas, o ar preso na traqueia, o ar a rasgar os músculos, as forças a diminuirem a cada improvável regresso à tona, e acima da rebentação, esvoaçando, as asas abertas de uma gaivota, o seu bico escancarado, quase humano, quase burlesco, coisas assim muito nítidas (e tão dolorosas), a morte pairando rente às águas, paciente, cínica, até que um braço salvador o puxou para cima, para cá, cada vez mais para cá, até ao círculo de pessoas que o esperavam, molhadas, na areia escaldante, sob o sol mais feroz daquele verão.

De repente, lembrou-se das grandes cheias do Tejo. Reviu não apenas as imagens dos telejornais, as grandes azinhagas ribatejanas completamente inundadas, com ramos de árvores a emergirem da corrente lodosa, mas a imagem do seu próprio corpo a calcorrear os campos submersos, ajudando um amigo agricultor que reunia vacas e as conduzia para locais mais altos, a imagem do corpo pressentindo, ali tão perto, por baixo das botas de borracha, a ameaça líquida, a linha da margem a crescer num galope e as marcas nas paredes com datas antigas. O medo pelas costas, subindo como um murmúrio.

De repente, lembrou-se de um conto que não chegou a escrever. Foi num período em que andava com a cabeça cheia de Melville. A grande baleia branca. As tempestades. O temor bíblico do mar em fúria. Queria escrever uma história tão aquática e tão fluída que o leitor, ao virar as páginas, sentiria no rosto os borrifos da espuma ou o vórtice asfixiante dos afogados. Nunca encontrou, porém, sequer a primeira palavra.

De repente, lembrou-se da pequenez destas memórias. Alguém ligou a TV. Era domingo, manhã radiosa. E no outro lado do mundo uma onda erguia-se muito acima da ficção.


15.1.05

# 13



CALÇADA À PORTUGUESA

O mar sai das mãos destes calceteiros
que logo de manhã se ajoelham na rua
a bater
nos cubos de pedra
como se eles fossem pães de um tempo
inacabado.
Sisudos e pacientes limpam o corpo negro
do pó branco do trabalho
e avançam lentamente aos pés
de quem anda a correr pelos próprios meios
e mundos.
O mar não se devia perder
em minúcias citadinas de raças que tentam conviver
na sobrevivência.
Mas o suor é uma água nostálgica
que envolve a carne frágil
das mulheres
com seus carrinhos de compras
e as suas crianças de carrinho.

Água soberba e manchada de sexo.
Negro, negro sensual de mornas e coladeiras
não subas acima do passeio.
Não me invadas o corpo,
não me molhes as noites mal dormidas.

E o homem no chão afeiçoa
a pequena pedra
ao mar seco e saudoso da sua transumância,
às entranhas da terra que não é a sua.
Só o coração simples lhe pede
uma sede de água.

Ou de cerveja.

Armando Silva Carvalho (in «Lisboas», Quetzal)



«Mas o suor é uma água nostálgica»

O vereador procurou uma sombra, alisou os papéis em cima da pasta de cabedal, largada sobre a relva, e mostrou ao empreiteiro os desenhos que lhe haviam tomado, nas últimas semanas, muitas horas de trabalho, atenção e minúcia. Apontando com o dedo o plano inclinado, à face da Praça da República, na extremidade do jardim, resumiu a memória descritiva a duas ou três frases solenes e ao desejo de ver surgir, ali mesmo, no coração da «nossa» vila, uma «tapeçaria de pedra alvi-negra» (sempre gostou de metáforas têxteis, o vereador) capaz de fazer inveja a todas as outras povoações do distrito.
Limpando o suor da testa às calças muito puídas e cheias de pó, o empreiteiro exclamou, com um tom de falsa submissão, «sim, senhor arquitecto, esteja descansado que assim faremos, sem tirar nem pôr», mirou mais uma vez a papelada — traços finos desenhando as armas do concelho, com as letras por baixo, em leque: Bem-vindo a S. Bernardo de Fernancelhe — e logo se despediu com um seco «Então bo’tarde, vou indo», encaminhando-se para o grupo de calceteiros que aguardavam, junto à carrinha de caixa aberta, as suas ordens.
Meio-dia. Feita a divisão das tarefas, montadas as esquadrias e retesados os cordéis, cinco homens trabalham com tal afinco que até dá gosto vê-los. A escolha de cada pedra (ora branca, ora negra) implica um desvelo de ourives, capaz de adivinhar ajustes, lapidagens e encaixes. Já para não falar das arestas que se moldam, à força de martelar. E eles martelam, martelam, martelam. Sons secos a ecoar na praça, camisas de alças com manchas de suor que alastram.
Quem trata do brasão — com duas torres, uma oliveira e três barcas carregadas de pipas — é o Anselmo, o mais primoroso deles todos, homem entrado na idade mas com mão firme, apesar dos copos. Os outros, mais novos e com menos tarimba, atiram-se às letras. E o empreiteiro passa de vez em quando, só para gritar ameaças e impropérios que não deixem esmorecer o ânimo.
Os sons secos da pedra martelada avançam tarde adentro. O Anselmo já deu conta das torres e da oliveira, mas não atina com as barcas. O Jaquim, o Valente e o Pinguinhas lá vão alinhando as letras negras, mais bem que mal. Só o Adérito destoa. Os seus gestos não têm forma nem ritmo. A cabeça anda turva com imagens de Cabo Verde, lá tão longe. Para quando o regresso? — pergunta-se. E em vez do «celhe» de Fernancelhe, é um ponto de interrogação o que as suas mãos arredondam. Um ponto de interrogação a que o empreiteiro, acabadinho de chegar com a última luz, responderá como se imagina.


12.1.05

# 12



Não partas já. Fica até onde a noite se dobra
para o lado da cama e o silêncio recorta
as margens do tempo. É aí que os livros
começam devagar e as cores nos cegam
e as mãos fazem de norte na viagem. Parte apenas

quando a manhã se ferir nos espelhos do quarto
em estilhaços de luz; e um feixe de poeiras
rasgar as janelas como uma ave desabrida.
Alguém murmurará então o teu nome, vagamente,
como a gastar os dedos na derradeira página.

E então, sim, parte, para que outra história se
invente mais tarde, quando os pássaros gritarem
à primeira lua e os gatos se deitarem sobre
o muro, de olhos acesos, fingindo que perguntam.

Maria do Rosário Pedreira (in «A Casa e o Cheiro dos Livros», Quetzal)



«Alguém murmurará então o teu nome, vagamente,»

O silêncio da noite abafa todos os sons do mundo, as mais ínfimas deflagrações do corpo, o contorno infame das memórias tristes. Na cama vazia, a minha cama que já foi tua, enrosco-me em posição fetal, à espera do ruído da chave na fechadura, aquele ronronar do metal contra o metal, aquela doce melodia da porta que primeiro resiste e depois cede à sabedoria das tuas mãos, como eu tantas vezes no tempo em que as paredes deste quarto eram os limites do universo e nós ardíamos, às cegas. A noite abafa todos os sons do mundo e também o som da chave na fechadura, há uma espécie de nuvem em volta de todas as coisas, uma gaze que oculta os sinais que para mim já foram evidentes e deixaram de ser. Agora que despertei assustada e a tremer de frio, já não sei se voltaste ou não, se foste à rua comprar cigarros e agora fumas na varanda, debruçado sobre a cidade que dorme, ou se partiste de vez, para onde os meus olhos já não te alcancem. Os dígitos do despertador, traços verdes que piscam alegremente na escuridão, acentuando a tortura da insónia e espalhando o seu brilho fantasmagórico sobre os objectos caídos, sucedem-se a um ritmo ora constante ora variável, com acelerações e súbitas demoras, marés que sobem e descem enquanto a memória se enreda na sua própria vertigem. O relógio dos vizinhos espalha as cinco badaladas pelas salas cheias de bibelots e da falsa aparência de felicidade, uma felicidade toda sorrisos e netos ao domingo, placa dos dentes no copo sobre a mesa de cabeceira e corpos frios atravessando as horas desertas da noite, eu sinto cada uma das badaladas atravessando as paredes, cada uma das badaladas escavando a minha pele até aos ossos, ressoando por dentro de mim, lembrando-me golpe a golpe que talvez já tenhas partido, que talvez já não voltes a esta cama desarrumada, a estes braços desarrumados, a esta vida desarrumada. Agarro os joelhos e encolho-me ainda mais, enquanto no tecto passam sombras e reflexos, a luz do candeeiro público e o vulto dos automóveis que atravessam o silêncio espesso da noite, à espera quem sabe, como eu, da impossível redenção. Se estivesses aqui, ao meu lado, estendido sobre os lençóis, de olhos abertos, fazendo círculos invisíveis de fumo, sem palavras, a ponta acesa do cigarro agitando-se, talvez dissesse baixinho «não partas já». Mas não estás aqui. Os traços verdes do despertador iluminam a almofada lisa onde um dia vi a forma côncava da tua cabeça. O tempo passa devagar, com a placidez das coisas mórbidas. Daqui a pouco, sei-o bem, chegará a luz da madrugada, assassina de ilusões, e com ela a certeza de que já não existes; ou de que talvez nunca tenhas existido.


8.1.05

# 11



Adensaram-se nuvens
e cirros ameaçadores.
Uma sombra escura cai
e o vento em turbilhão
levou-a para o mar.
Ergues-te como uma
ave do paraíso real
para me salvares com um golpe
de surpresa. Fechaste
a sombra escura que ameaçava
a minha cabeça, com ágeis
mãos de pianista.

Eugenio Montale (in «Poesia», tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim)



«Uma sombra escura cai»

Valdemar Gouveia orgulhava-se das suas minucias de melómano. Todas as semanas, comprava umas quantas dezenas de discos novos: óperas, sinfonias, música de câmara. Todos os meses, retirava da sua caixa de correio revistas da especialidade, envoltas em celofane, e demorava-se a abri-las, como num ritual. Todos os dias, sentava-se na poltrona de couro, às escuras, olhando o Tejo na janela da sala e deixando-se mergulhar numa ária de Purcell ou numa canção de Schumann.

***

Aos três anos, sem que ninguém percebesse bem como ou porquê, Mariana Aboim sentou-se ao piano do avô, os pés bamboleando muito longe dos pedais, e conseguiu reproducir sem mácula uma melodia de Mozart, ouvida minutos antes no rádio da cozinha, sintonizado na Antena 2. Aos cinco, já tinha lições particulares com um velho concertista. Aos 12, provocava o espanto dos profesores nas récitas do Conservatório. Aos 18, arrebatava o primeiro lugar no Prémio Vianna da Motta, à frente de um pequeno génio japonês. Aos 22, gravava a integral das sonatas de Beethoven para a Decca.

***

Quando o médico lhe entregou o resultado dos exames, com as sobrancelhas muito arqueadas a denunciarem as más notícias, Valdemar respirou fundo e pensou nos crepúsculos que passaria em frente ao Tejo, na sua sala, à espera da morte. «Talvez a música me salve», pensou, «talvez consiga com ela enfeitiçar o porteiro do inferno.» Como o Orfeu de Monteverdi.

***

Quando caminhou pelo palco até ao Steinway, com os olhos dos espectadores da Gulbenkian a estudarem cada um dos seus gestos e hesitações, Mariana teve uma intuição: «é hoje que vou chegar lá.» Pousou a partitura da sonata D. 960. Ajeitou o banco. Limpou as mãos. Esperou que a tosse do público abrandasse até ao quase silêncio. E atacou o teclado. Na sua cabeça, a música de Schubert, mais límpida e fluida do que nunca, como que refulgia.

***

«Por aqui, Sr. Gouveia.» Valdemar conferiu o bilhete. Sentou-se. Passou os olhos pelo programa e fixou um rosto jovem. Lembrava-se do Prémio Vianna da Motta, do apelido invulgar, de alguns perfis nos jornais: uma rapariga tímida, encostada a um piano de quarto-de-cauda. Daquela tarde, porém, não esperava muito. Não depois da quimioterapia, que o deixara zonzo. Não depois de ter ouvido aquelas notas tocadas por Alfred Brendel, por Sviatoslav Richter, por Maurizio Pollini. E no entanto.