8.1.05

# 11



Adensaram-se nuvens
e cirros ameaçadores.
Uma sombra escura cai
e o vento em turbilhão
levou-a para o mar.
Ergues-te como uma
ave do paraíso real
para me salvares com um golpe
de surpresa. Fechaste
a sombra escura que ameaçava
a minha cabeça, com ágeis
mãos de pianista.

Eugenio Montale (in «Poesia», tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim)



«Uma sombra escura cai»

Valdemar Gouveia orgulhava-se das suas minucias de melómano. Todas as semanas, comprava umas quantas dezenas de discos novos: óperas, sinfonias, música de câmara. Todos os meses, retirava da sua caixa de correio revistas da especialidade, envoltas em celofane, e demorava-se a abri-las, como num ritual. Todos os dias, sentava-se na poltrona de couro, às escuras, olhando o Tejo na janela da sala e deixando-se mergulhar numa ária de Purcell ou numa canção de Schumann.

***

Aos três anos, sem que ninguém percebesse bem como ou porquê, Mariana Aboim sentou-se ao piano do avô, os pés bamboleando muito longe dos pedais, e conseguiu reproducir sem mácula uma melodia de Mozart, ouvida minutos antes no rádio da cozinha, sintonizado na Antena 2. Aos cinco, já tinha lições particulares com um velho concertista. Aos 12, provocava o espanto dos profesores nas récitas do Conservatório. Aos 18, arrebatava o primeiro lugar no Prémio Vianna da Motta, à frente de um pequeno génio japonês. Aos 22, gravava a integral das sonatas de Beethoven para a Decca.

***

Quando o médico lhe entregou o resultado dos exames, com as sobrancelhas muito arqueadas a denunciarem as más notícias, Valdemar respirou fundo e pensou nos crepúsculos que passaria em frente ao Tejo, na sua sala, à espera da morte. «Talvez a música me salve», pensou, «talvez consiga com ela enfeitiçar o porteiro do inferno.» Como o Orfeu de Monteverdi.

***

Quando caminhou pelo palco até ao Steinway, com os olhos dos espectadores da Gulbenkian a estudarem cada um dos seus gestos e hesitações, Mariana teve uma intuição: «é hoje que vou chegar lá.» Pousou a partitura da sonata D. 960. Ajeitou o banco. Limpou as mãos. Esperou que a tosse do público abrandasse até ao quase silêncio. E atacou o teclado. Na sua cabeça, a música de Schubert, mais límpida e fluida do que nunca, como que refulgia.

***

«Por aqui, Sr. Gouveia.» Valdemar conferiu o bilhete. Sentou-se. Passou os olhos pelo programa e fixou um rosto jovem. Lembrava-se do Prémio Vianna da Motta, do apelido invulgar, de alguns perfis nos jornais: uma rapariga tímida, encostada a um piano de quarto-de-cauda. Daquela tarde, porém, não esperava muito. Não depois da quimioterapia, que o deixara zonzo. Não depois de ter ouvido aquelas notas tocadas por Alfred Brendel, por Sviatoslav Richter, por Maurizio Pollini. E no entanto.