12.1.05

# 12



Não partas já. Fica até onde a noite se dobra
para o lado da cama e o silêncio recorta
as margens do tempo. É aí que os livros
começam devagar e as cores nos cegam
e as mãos fazem de norte na viagem. Parte apenas

quando a manhã se ferir nos espelhos do quarto
em estilhaços de luz; e um feixe de poeiras
rasgar as janelas como uma ave desabrida.
Alguém murmurará então o teu nome, vagamente,
como a gastar os dedos na derradeira página.

E então, sim, parte, para que outra história se
invente mais tarde, quando os pássaros gritarem
à primeira lua e os gatos se deitarem sobre
o muro, de olhos acesos, fingindo que perguntam.

Maria do Rosário Pedreira (in «A Casa e o Cheiro dos Livros», Quetzal)



«Alguém murmurará então o teu nome, vagamente,»

O silêncio da noite abafa todos os sons do mundo, as mais ínfimas deflagrações do corpo, o contorno infame das memórias tristes. Na cama vazia, a minha cama que já foi tua, enrosco-me em posição fetal, à espera do ruído da chave na fechadura, aquele ronronar do metal contra o metal, aquela doce melodia da porta que primeiro resiste e depois cede à sabedoria das tuas mãos, como eu tantas vezes no tempo em que as paredes deste quarto eram os limites do universo e nós ardíamos, às cegas. A noite abafa todos os sons do mundo e também o som da chave na fechadura, há uma espécie de nuvem em volta de todas as coisas, uma gaze que oculta os sinais que para mim já foram evidentes e deixaram de ser. Agora que despertei assustada e a tremer de frio, já não sei se voltaste ou não, se foste à rua comprar cigarros e agora fumas na varanda, debruçado sobre a cidade que dorme, ou se partiste de vez, para onde os meus olhos já não te alcancem. Os dígitos do despertador, traços verdes que piscam alegremente na escuridão, acentuando a tortura da insónia e espalhando o seu brilho fantasmagórico sobre os objectos caídos, sucedem-se a um ritmo ora constante ora variável, com acelerações e súbitas demoras, marés que sobem e descem enquanto a memória se enreda na sua própria vertigem. O relógio dos vizinhos espalha as cinco badaladas pelas salas cheias de bibelots e da falsa aparência de felicidade, uma felicidade toda sorrisos e netos ao domingo, placa dos dentes no copo sobre a mesa de cabeceira e corpos frios atravessando as horas desertas da noite, eu sinto cada uma das badaladas atravessando as paredes, cada uma das badaladas escavando a minha pele até aos ossos, ressoando por dentro de mim, lembrando-me golpe a golpe que talvez já tenhas partido, que talvez já não voltes a esta cama desarrumada, a estes braços desarrumados, a esta vida desarrumada. Agarro os joelhos e encolho-me ainda mais, enquanto no tecto passam sombras e reflexos, a luz do candeeiro público e o vulto dos automóveis que atravessam o silêncio espesso da noite, à espera quem sabe, como eu, da impossível redenção. Se estivesses aqui, ao meu lado, estendido sobre os lençóis, de olhos abertos, fazendo círculos invisíveis de fumo, sem palavras, a ponta acesa do cigarro agitando-se, talvez dissesse baixinho «não partas já». Mas não estás aqui. Os traços verdes do despertador iluminam a almofada lisa onde um dia vi a forma côncava da tua cabeça. O tempo passa devagar, com a placidez das coisas mórbidas. Daqui a pouco, sei-o bem, chegará a luz da madrugada, assassina de ilusões, e com ela a certeza de que já não existes; ou de que talvez nunca tenhas existido.