15.1.05

# 13



CALÇADA À PORTUGUESA

O mar sai das mãos destes calceteiros
que logo de manhã se ajoelham na rua
a bater
nos cubos de pedra
como se eles fossem pães de um tempo
inacabado.
Sisudos e pacientes limpam o corpo negro
do pó branco do trabalho
e avançam lentamente aos pés
de quem anda a correr pelos próprios meios
e mundos.
O mar não se devia perder
em minúcias citadinas de raças que tentam conviver
na sobrevivência.
Mas o suor é uma água nostálgica
que envolve a carne frágil
das mulheres
com seus carrinhos de compras
e as suas crianças de carrinho.

Água soberba e manchada de sexo.
Negro, negro sensual de mornas e coladeiras
não subas acima do passeio.
Não me invadas o corpo,
não me molhes as noites mal dormidas.

E o homem no chão afeiçoa
a pequena pedra
ao mar seco e saudoso da sua transumância,
às entranhas da terra que não é a sua.
Só o coração simples lhe pede
uma sede de água.

Ou de cerveja.

Armando Silva Carvalho (in «Lisboas», Quetzal)



«Mas o suor é uma água nostálgica»

O vereador procurou uma sombra, alisou os papéis em cima da pasta de cabedal, largada sobre a relva, e mostrou ao empreiteiro os desenhos que lhe haviam tomado, nas últimas semanas, muitas horas de trabalho, atenção e minúcia. Apontando com o dedo o plano inclinado, à face da Praça da República, na extremidade do jardim, resumiu a memória descritiva a duas ou três frases solenes e ao desejo de ver surgir, ali mesmo, no coração da «nossa» vila, uma «tapeçaria de pedra alvi-negra» (sempre gostou de metáforas têxteis, o vereador) capaz de fazer inveja a todas as outras povoações do distrito.
Limpando o suor da testa às calças muito puídas e cheias de pó, o empreiteiro exclamou, com um tom de falsa submissão, «sim, senhor arquitecto, esteja descansado que assim faremos, sem tirar nem pôr», mirou mais uma vez a papelada — traços finos desenhando as armas do concelho, com as letras por baixo, em leque: Bem-vindo a S. Bernardo de Fernancelhe — e logo se despediu com um seco «Então bo’tarde, vou indo», encaminhando-se para o grupo de calceteiros que aguardavam, junto à carrinha de caixa aberta, as suas ordens.
Meio-dia. Feita a divisão das tarefas, montadas as esquadrias e retesados os cordéis, cinco homens trabalham com tal afinco que até dá gosto vê-los. A escolha de cada pedra (ora branca, ora negra) implica um desvelo de ourives, capaz de adivinhar ajustes, lapidagens e encaixes. Já para não falar das arestas que se moldam, à força de martelar. E eles martelam, martelam, martelam. Sons secos a ecoar na praça, camisas de alças com manchas de suor que alastram.
Quem trata do brasão — com duas torres, uma oliveira e três barcas carregadas de pipas — é o Anselmo, o mais primoroso deles todos, homem entrado na idade mas com mão firme, apesar dos copos. Os outros, mais novos e com menos tarimba, atiram-se às letras. E o empreiteiro passa de vez em quando, só para gritar ameaças e impropérios que não deixem esmorecer o ânimo.
Os sons secos da pedra martelada avançam tarde adentro. O Anselmo já deu conta das torres e da oliveira, mas não atina com as barcas. O Jaquim, o Valente e o Pinguinhas lá vão alinhando as letras negras, mais bem que mal. Só o Adérito destoa. Os seus gestos não têm forma nem ritmo. A cabeça anda turva com imagens de Cabo Verde, lá tão longe. Para quando o regresso? — pergunta-se. E em vez do «celhe» de Fernancelhe, é um ponto de interrogação o que as suas mãos arredondam. Um ponto de interrogação a que o empreiteiro, acabadinho de chegar com a última luz, responderá como se imagina.


4 Comments:

Blogger Roberto Iza Valdes said...

Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

4 de novembro de 2005 às 05:50  
Blogger Roberto Iza Valdes said...

Este comentário foi removido pelo autor.

30 de novembro de 2005 às 04:58  
Blogger Iza Roberto said...

Este comentário foi removido pelo autor.

31 de agosto de 2007 às 16:47  
Blogger Tania Fonseca said...

boa noite,

gostaria de saber de quem sao as fotos. Estou a fazer um trabalho e preciso de usar uma delas, mas com a devida autorização.

Obrigada!

10 de janeiro de 2016 às 19:19  

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