20.1.05

# 14



O POEMA E A ÁGUA

As vozes líquidas do poema
convidam ao crime
ao revólver.

Falam para mim de ilhas
que mesmo os sonhos
não alcançam.

O livro aberto nos joelhos
o vento nos cabelos
olho o mar.

Os acontecimentos de água
põem-se a se repetir
na memória.


João Cabral de Melo Neto (in «Poesia Completa 1940-1980», Imprensa Nacional-Casa da Moeda)



«Os acontecimentos de água»

De repente, lembrou-se do dia em que quase morreu afogado. Coisas muito nítidas (e tão dolorosas): os olhos abertos dentro de água, a força do mar a puxá-lo para longe da praia, visões de espuma e céu aberto, os sons a misturarem-se e a perderem velocidade, estrutura, sentido (como os leitores de cassetes quando as pilhas começam a falhar), sons muito lentos e graves atravessados por gritos agudos (a voz estridente da namorada, em pânico, no limite do areal), a sensação de ter os pulmões prestes a explodir por dentro, os braços rígidos, a mão que de fora continua a agitar-se já quase sem esperança, o grande silêncio subaquático a chamá-lo para o fundo, para o azul hipnótico com rochas e algas, mas a cabeça a vir sempre à superfície, sôfrega, o ar duro como pedra a entrar pela boca às golfadas, o ar preso na traqueia, o ar a rasgar os músculos, as forças a diminuirem a cada improvável regresso à tona, e acima da rebentação, esvoaçando, as asas abertas de uma gaivota, o seu bico escancarado, quase humano, quase burlesco, coisas assim muito nítidas (e tão dolorosas), a morte pairando rente às águas, paciente, cínica, até que um braço salvador o puxou para cima, para cá, cada vez mais para cá, até ao círculo de pessoas que o esperavam, molhadas, na areia escaldante, sob o sol mais feroz daquele verão.

De repente, lembrou-se das grandes cheias do Tejo. Reviu não apenas as imagens dos telejornais, as grandes azinhagas ribatejanas completamente inundadas, com ramos de árvores a emergirem da corrente lodosa, mas a imagem do seu próprio corpo a calcorrear os campos submersos, ajudando um amigo agricultor que reunia vacas e as conduzia para locais mais altos, a imagem do corpo pressentindo, ali tão perto, por baixo das botas de borracha, a ameaça líquida, a linha da margem a crescer num galope e as marcas nas paredes com datas antigas. O medo pelas costas, subindo como um murmúrio.

De repente, lembrou-se de um conto que não chegou a escrever. Foi num período em que andava com a cabeça cheia de Melville. A grande baleia branca. As tempestades. O temor bíblico do mar em fúria. Queria escrever uma história tão aquática e tão fluída que o leitor, ao virar as páginas, sentiria no rosto os borrifos da espuma ou o vórtice asfixiante dos afogados. Nunca encontrou, porém, sequer a primeira palavra.

De repente, lembrou-se da pequenez destas memórias. Alguém ligou a TV. Era domingo, manhã radiosa. E no outro lado do mundo uma onda erguia-se muito acima da ficção.