11.2.05

# 18



recado

ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte

vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer — vai por esse campo
de crateras extintas — vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite

deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo — deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração — ouve-me

que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna — o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite

não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira — não esqueças o ouro
o marfim — os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço

Al Berto (in «Horto de Incêndio», Assírio & Alvim)



«que o dia te seja limpo»

Muito lentamente, com um vinco diagonal, dobrou o canto da página. Hábito antigo, forma de marcar poemas dentro dos livros — antecipando futuros regressos, reincidências, releituras. Dobrou o canto da página e pousou o livro em cima da mesa, junto à janela. Sentou-se numa cadeira e olhou a mulher deitada. A sua mulher. Um vulto na penumbra, um contorno sob os lençóis.
— Não consegues dormir? — perguntou ela.
— Não, não consigo. E tu?
— Também não.
— Mas tenta, meu amor, tenta. Tens mesmo que descansar.
Pela janela, conseguia ver o rio, a noite cerrada, algumas estrelas. O «Horto de Incêndio», mesmo fechado em cima da mesa, continuava a arder. E aquele poema do recado era, entre todos, o que mais queimava. Não queria pensar nele agora. Havia qualquer coisa de assustador na matéria negra que lhe atravessava os versos: a ténue melancolia do homem sem salvação, o rasto da morte a pairar naqueles irónicos «sessenta comprimidos letais». Não, não queria pensar nisso agora. Não queria ser perseguido pela imagem de um corpo que se despede do esplendor do mundo. Não agora. Não hoje. Por isso, olhando o Tejo, recordava do poema apenas as imagens radiosas: a «esquina de luz», a «porta de água», a «árvore das cassiopeias», a doçura do «breve coração», o «arco de sal», o «navio carregado de lumes».
Olhou para o relógio. Ouviu, vindo dos corredores, o silêncio espesso do hospital. Passos abafados, ao longe. Sentiu a madrugada a deixar-lhe marcas no corpo. Um cansaço estranho, como nunca experimentara antes. Cansaço tenso mas bom. Cansaço eufórico. Cansaço de quem chega onde sempre quis chegar.
Levantou-se. Cabeça encostada ao vidro, observou o seu rosto no reflexo. Olhos castanhos, arcadas supraciliares salientes, os cabelos revoltos, um determinado contorno do queixo. O seu rosto — incerto património genético, à espera de se revelar noutro rosto. E poucas horas a separarem-no desse momento. No seus braços, a filha tão desejada. O seu rosto naquele rosto. O rosto da mãe naquele rosto. Um rosto novo e puro, só dela. Sublime materialização do amor.
— Em que é que estás a pensar?
— Num verso do Al Berto: «Que o dia te seja limpo.» Só isto: «Que o dia te seja limpo.»
— Será. Vais ver que será. Mas agora dorme.
Deitado, pôs-se a imaginar o parto. «Que o dia te seja limpo», repetiu. «Que a vida te seja limpa». E não conseguiu dormir.


9.2.05

# 17



Quis ver o rosto do nada
quando olhei
para ver quem me seguia
ou seguiria
enquanto não olhasse
a sombra indecifrada
desta não sei se selva
ou estrada
ou talvez praia
ou destino perdido no caminho.

Helder Macedo (in «Viagem de Inverno», Presença)



«Quis ver o rosto do nada»

Quando A. M. Sousa publicou o seu primeiro romance, aos 31 anos, em 2008, a literatura portuguesa levou, nas palavras do crítico José Maurício Palhavã, «um choque eléctrico fulminante». Ninguém esperava aquilo. Ninguém esperava uma obra com o fôlego e a ousadia do agora clássico «Onde os Leões Rugem», mais de 900 páginas de uma escrita que reinventa um género gasto, cruzando brilhantemente — e com uma ironia muito pós-moderna — as histórias de cinco famílias (mosaico complexo em que muitos viram a simbologia das quinas), tendo como pano de fundo a História de Portugal, da guerra em África aos Descobrimentos, passando por uma infinidade de referências, em filigrana, à estrutura épica d’ «Os Lusíadas».
Não faltou quem clamasse, com o exagero próprio dos juízos precipitados, que A. M. Sousa tinha perfil para ser o novo Joyce — autor de um só livro, é certo, mas um livro que poderia muito bem transformar-se no «Ulisses» do séc. XXI. A histeria mediática que se seguiu foi a que se imagina: entrevistas de fundo nos principais jornais portugueses, traduções em toda a Europa, prémios a rodos (o APE, o PEN, o Saramago, o Femina), citações elogiosas na New York Review of Books e na Granta, uma polémica com Eduardo Prado Coelho, vendas superiores a 250.000 exemplares, a palavra «fenómeno» escrita em letras maiúsculas por baixo do seu retrato a sépia (espalhado pelo país em outdoors monumentais).
Depois, deu-se o previsível colapso. A insuportável pressão que o conduziu ao bloqueio criativo. Cenas lamentáveis num talk show. A depressão com internamento numa clínica psiquiátrica. A longa travessia do deserto. O culto do silêncio. A vida austera num quarto austero. A pose de eremita. Pouco a pouco, A. M. Sousa escondeu-se do mundo e o mundo esqueceu-se de A. M. Sousa. Mais do que Joyce, quando agora se falava dele e da sua glória efémera, era Salinger que vinha à baila.
Até que um dia, numa manhã de Outubro de 2023, Sousa descobriu, na sua caixa de correio, um envelope pardo. Lá dentro, os três primeiros capítulos do livro que andava às voltas dentro da sua cabeça há mais de 15 anos. Quem é que escrevera aquelas páginas? Com que fim? Em troca de quê? Sentado na sua tosca mesa de trabalho, olhando pela janela as ondas do Atlântico a desfazerem-se contra as rochas, recusou-se a encontrar respostas.
Pela primeira vez em muito tempo, sentia uma irreprimível vontade de escrever. E isso é que era importante. Com um gesto solene, voltou a ligar o computador portátil, enquanto lá fora as sombras empurravam todas as coisas para o vazio da noite.


4.2.05

# 16



Por vezes era de noite tomado
de uma febre, os gestos cresciam na
escura tonalidade de lá fora

como se do fundo da casa
uma ordem sob outra ordem o repelisse

Maria Andresen de Sousa (in «Lugares», Relógio d’Água)



«Como se do fundo da casa»

«Lembrava-se da luz muito forte na cabeza do médico, uma luz ligeiramente acima da cabeça mas ainda presa à cabeça, uma luz redonda e branca, muito forte, como a auréola dos Santos que via esculpidos em madeira, na igreja, quando ia à missa com a avó Dolores, os Santos martirizados que lhe enchiam os sonhos de pavor, até àquela manhã em que encontrou a avó Dolores quase roxa, caída no genuflexório, cabeça aberta, poça de sangue, os Santos imóveis e ele vazio de tudo para sempre, a luz muito forte na cabeça do médico era um golpe dado em cheio nos olhos, agora, um golpe a acordar todos os golpes passados, a imagem da avó Dolores cada vez mais roxa, estendida no chão, e por trás da luz, por trás da claridade que magoava, os olhos atentos do médico, a olhar para o rosto dele, para as mínimas contracções dos músculos, para os efeitos do medo sobre a pele suada, os olhos do médico muito desfocados e distantes, escondidos por baixo de uma voz cavernosa, «e agora, o que sente?», «e agora, o que sente, Luís?», «vá, Luís, olhe para o meu dedo, Luís, olhe para o meu dedo», e o dedo indicador da mão direita, um dedo gordo a apontar para cima, a ir e a vir, da esquerda para a direita e da direita para a esquerda, muito devagar, «acompanhe o dedo, Luís, consegue acompanhar o dedo, Luís?», e atrás do dedo iam as ideias mais sujas e negras, incêndios, obscenidades, crimes imaginados há muito tempo e nem sequer postos por palavras, tantas flores arrancadas pela raiz, o médico sorrindo atrás da sua luz perversa, escrevendo palavras compridas em folhas de linhas apertadas, e depois o frio da agulha a atravessar a pele, o frio de uma coisa fria a entrar no corpo, a entrar no sangue, o torpor do sono e da impotência de nem sequer conseguir gritar.»
Foi assim que descreveu o seu pesadelo daquela noite. Como uma coisa má que acontece a outro. Mas no sonho, naquele sonho claustrofóbico e demencial, o outro era ele próprio. Disso não podia duvidar. O Luís não se chamava Luís. O Luís era ele, Artur Loyola: advogado, 42 anos, deprimido com a morte da família naquele estúpido acidente de automóvel, às voltas com a culpa, à beira da loucura, fechado numa casa vazia (um colchão, uma cadeira, comida congelada, televisão sem antena), longe da ajuda piedosa dos amigos, ainda mais longe dos médicos de luzes ameaçadoras, mas demasiado perto dos comprimidos. A sua avó chamava-se Dolores mas sempre lhe disseram que morreu durante o sono, uma morte santa. «O que raio quererá isto tudo dizer?», rabiscou no caderno de notas, enquanto nos quartos mais distantes da casa o vento crescia, espalhando pelo corredor ecos da verdade assustadora.