4.2.05

# 16



Por vezes era de noite tomado
de uma febre, os gestos cresciam na
escura tonalidade de lá fora

como se do fundo da casa
uma ordem sob outra ordem o repelisse

Maria Andresen de Sousa (in «Lugares», Relógio d’Água)



«Como se do fundo da casa»

«Lembrava-se da luz muito forte na cabeza do médico, uma luz ligeiramente acima da cabeça mas ainda presa à cabeça, uma luz redonda e branca, muito forte, como a auréola dos Santos que via esculpidos em madeira, na igreja, quando ia à missa com a avó Dolores, os Santos martirizados que lhe enchiam os sonhos de pavor, até àquela manhã em que encontrou a avó Dolores quase roxa, caída no genuflexório, cabeça aberta, poça de sangue, os Santos imóveis e ele vazio de tudo para sempre, a luz muito forte na cabeça do médico era um golpe dado em cheio nos olhos, agora, um golpe a acordar todos os golpes passados, a imagem da avó Dolores cada vez mais roxa, estendida no chão, e por trás da luz, por trás da claridade que magoava, os olhos atentos do médico, a olhar para o rosto dele, para as mínimas contracções dos músculos, para os efeitos do medo sobre a pele suada, os olhos do médico muito desfocados e distantes, escondidos por baixo de uma voz cavernosa, «e agora, o que sente?», «e agora, o que sente, Luís?», «vá, Luís, olhe para o meu dedo, Luís, olhe para o meu dedo», e o dedo indicador da mão direita, um dedo gordo a apontar para cima, a ir e a vir, da esquerda para a direita e da direita para a esquerda, muito devagar, «acompanhe o dedo, Luís, consegue acompanhar o dedo, Luís?», e atrás do dedo iam as ideias mais sujas e negras, incêndios, obscenidades, crimes imaginados há muito tempo e nem sequer postos por palavras, tantas flores arrancadas pela raiz, o médico sorrindo atrás da sua luz perversa, escrevendo palavras compridas em folhas de linhas apertadas, e depois o frio da agulha a atravessar a pele, o frio de uma coisa fria a entrar no corpo, a entrar no sangue, o torpor do sono e da impotência de nem sequer conseguir gritar.»
Foi assim que descreveu o seu pesadelo daquela noite. Como uma coisa má que acontece a outro. Mas no sonho, naquele sonho claustrofóbico e demencial, o outro era ele próprio. Disso não podia duvidar. O Luís não se chamava Luís. O Luís era ele, Artur Loyola: advogado, 42 anos, deprimido com a morte da família naquele estúpido acidente de automóvel, às voltas com a culpa, à beira da loucura, fechado numa casa vazia (um colchão, uma cadeira, comida congelada, televisão sem antena), longe da ajuda piedosa dos amigos, ainda mais longe dos médicos de luzes ameaçadoras, mas demasiado perto dos comprimidos. A sua avó chamava-se Dolores mas sempre lhe disseram que morreu durante o sono, uma morte santa. «O que raio quererá isto tudo dizer?», rabiscou no caderno de notas, enquanto nos quartos mais distantes da casa o vento crescia, espalhando pelo corredor ecos da verdade assustadora.