9.2.05

# 17



Quis ver o rosto do nada
quando olhei
para ver quem me seguia
ou seguiria
enquanto não olhasse
a sombra indecifrada
desta não sei se selva
ou estrada
ou talvez praia
ou destino perdido no caminho.

Helder Macedo (in «Viagem de Inverno», Presença)



«Quis ver o rosto do nada»

Quando A. M. Sousa publicou o seu primeiro romance, aos 31 anos, em 2008, a literatura portuguesa levou, nas palavras do crítico José Maurício Palhavã, «um choque eléctrico fulminante». Ninguém esperava aquilo. Ninguém esperava uma obra com o fôlego e a ousadia do agora clássico «Onde os Leões Rugem», mais de 900 páginas de uma escrita que reinventa um género gasto, cruzando brilhantemente — e com uma ironia muito pós-moderna — as histórias de cinco famílias (mosaico complexo em que muitos viram a simbologia das quinas), tendo como pano de fundo a História de Portugal, da guerra em África aos Descobrimentos, passando por uma infinidade de referências, em filigrana, à estrutura épica d’ «Os Lusíadas».
Não faltou quem clamasse, com o exagero próprio dos juízos precipitados, que A. M. Sousa tinha perfil para ser o novo Joyce — autor de um só livro, é certo, mas um livro que poderia muito bem transformar-se no «Ulisses» do séc. XXI. A histeria mediática que se seguiu foi a que se imagina: entrevistas de fundo nos principais jornais portugueses, traduções em toda a Europa, prémios a rodos (o APE, o PEN, o Saramago, o Femina), citações elogiosas na New York Review of Books e na Granta, uma polémica com Eduardo Prado Coelho, vendas superiores a 250.000 exemplares, a palavra «fenómeno» escrita em letras maiúsculas por baixo do seu retrato a sépia (espalhado pelo país em outdoors monumentais).
Depois, deu-se o previsível colapso. A insuportável pressão que o conduziu ao bloqueio criativo. Cenas lamentáveis num talk show. A depressão com internamento numa clínica psiquiátrica. A longa travessia do deserto. O culto do silêncio. A vida austera num quarto austero. A pose de eremita. Pouco a pouco, A. M. Sousa escondeu-se do mundo e o mundo esqueceu-se de A. M. Sousa. Mais do que Joyce, quando agora se falava dele e da sua glória efémera, era Salinger que vinha à baila.
Até que um dia, numa manhã de Outubro de 2023, Sousa descobriu, na sua caixa de correio, um envelope pardo. Lá dentro, os três primeiros capítulos do livro que andava às voltas dentro da sua cabeça há mais de 15 anos. Quem é que escrevera aquelas páginas? Com que fim? Em troca de quê? Sentado na sua tosca mesa de trabalho, olhando pela janela as ondas do Atlântico a desfazerem-se contra as rochas, recusou-se a encontrar respostas.
Pela primeira vez em muito tempo, sentia uma irreprimível vontade de escrever. E isso é que era importante. Com um gesto solene, voltou a ligar o computador portátil, enquanto lá fora as sombras empurravam todas as coisas para o vazio da noite.