22.3.05

# 22



AXIOMA

No desespero te confirmam
os que sabem (saberão?)
do estrume dos conceitos
e das épocas que morrem,
iguais ao vazio.
Mas não é bem isso:

querias apenas um lugar
de sombra, cercado de ausência,
um lugar comum combustível
e sem Deus. Aí, perdoando o corpo,
falarias do Inverno e dos
cigarros que se enrolam
ao lado de uma cerveja fria.

Curtas sentenças prosaicas
que em silêncio te confirmam
nos sítios de fora, errados,
onde a outra voz era esta.

Manuel de Freitas (in «Game Over», &Etc)



«queria apenas um lugar»

CIGARROS QUE SE ENROLAM AO LADO DE UMA CERVEJA FRIA — Olho para o maço de tabaco. Observo a minúscula mancha de café junto à letra M, memória da primeira bica do dia, a melhor. Entre os cigarros, restos de cinza. Luz baça caindo sobre a mesa de madeira. Marcas de canivete: «Mário ama Maria». O coração tosco atravessado por uma seta oblíqua. Obscenidades escondidas pelo copo de imperial vazio. O bloco de notas. A caneta Bic azul com uma tampa preta, roída. Palavras riscadas. Frases riscadas. Ideias riscadas. Mortalhas, um saco de plástico. Dedos que desfazem cigarros. Dedos que misturam tabacos. O isqueiro. Chama acesa durante dez segundos. Ao balcão, o velho Gomes inclina as sobrancelhas. Não gosta de fogo. Não gosta de engraçadinhos vestidos de preto. Em Lourenço Marques, há não sei quantas eternidades, perdeu um armazém cheio de máquinas (jipes, camiões, tractores) por causa de um incêndio. Já me contou a história mil vezes, as sobrancelhas inclinadas são apenas a milésima primeira. Enrolo o cigarro. Acendo o cigarro. Peço mais uma imperial. A luz baça lá de fora diminui, a luz baça cá de dentro cresce. Conto seis lâmpadas fluorescentes, fora a máquina roxa de matar moscas junto à porta. O velho Gomes traz o copo, em câmara lenta. O pano cheio de nódoas, ao ombro. Cinza a cair no chão de mosaicos encardidos. Sob as luzes baças sobrepostas, esboço uma errata: «Onde se lê Marlboro, leia-se Melancolia».

INVERNO — Coisa dolorosa, ter um passado. Pior ainda trazê-lo assim, pela coleira, cheio de pulgas, para o deixar debaixo da mesa, focinho em cima das patas, fio de baba e olhos de cão velho, enquanto se pede um jarro de tinto, se folheia os jornais desportivos, um ruído de TV sintonizada em telejornais sórdidos, travo amargo na garganta, suor nas palmas das mãos. Na rua o céu ameaça tempestade, nuvens assim escuras como o vinho dentro da boca. A ventania faz estremecer os telhados de Lisboa. O frio invade a tasca, infiltra-se por todo o lado, até debaixo da pele. Há precisamente trinta e oito anos, o meu pai declarou-se à minha mãe numa curva da serra, a caminho da casa na aldeia, sem direito a beijos. Não sei porque me lembro disto agora, logo agora, depois do que me aconteceu. Tento imaginar um mapa da minha vida, uma topografia do que fui sendo ao longo dos anos — baldios, estradas secundárias, ravinas — mas no fundo da tasca o ruído da televisão sobrepõe-se, o vento na rua já dobra guarda-chuvas, oiço agora o cão que rosna sob a mesa. Há precisamente doze anos, o meu pai suicidou-se com 605 Forte, a minha mãe vestida de negro à porta do cemitério, sem direito a beijos, um vento igual a este varrendo a aldeia deserta. Ergo o copo de vinho e lembro-me da neve, eu com cinco anos, um trenó improvisado, o meu pai a rir no meio da neve. Não pode ser. À porta da tasca, com o rabo entre as pernas, o passado corrido a pontapés.

16.3.05

# 21



O FIM DA ESCADA

A estranha sensação de ter morrido
em Viena, numa tarde de outono de 1992,
numa casa cuja escada nunca subi.
De ser desde então um intruso, um farsante,
o actor sem futuro de uma comédia má.
De que o destino, implacável e rasteiro,
se vingou na longa noite de um hospital,
nas horas vazias que tento preencher.
Inventar, não heterónimos como fez Pessoa,
mas algo mais simples, o homem que escreve agora,
a medíocre perseverança dos seus feitos,
enquanto, insistente, me tenta a ideia de voltar,
de subir de vez os degraus, de bater a uma porta.
Mas quem sabe se ainda uma história pior,
um horror mais nítido me espera ali,
no fim da escada, diante da imaginada porta?


Juan Luis Panero (in «Poemas», tradução de Joaquim Manuel Magalhães, Relógio d’Água)



«A estranha sensação de ter morrido»

Ainda hoje não sei como é que esta história começou. Lembro-me vagamente de participar num congresso de literatura comparada, em Viena, no princípio dos anos 90: apresentações aborrecidas num palácio de arquitectura demasiado solene, neve tombando suavemente como nos contos infantis, escapadelas em grupo para ouvir alunos do Conservatório a tocar Brahms (à porta de centros comerciais hiper-aquecidos) e deambular pelos alfarrabistas em busca de miríficas primeiras edições, conversas no hall do hotel com o ensaísta turco das barbas longas e com o poeta libanês das rosas tatuadas no pescoço, a imagem de uma mulher loura a atravessar a rua na minha direcção, chocolate quente, uma garrafa de gin, apfelstrudel.
A minha memória daqueles dias estilhaçou-se em mil fragmentos, é agora um obscuro caleidoscópio que me confunde e cega. Esforço-me por encontrar um fio condutor, uma ordem cronológica, uma sequência de factos. Em vão. Nada bate certo. Em Viena aconteceu-me qualquer coisa (não sei o quê), a que se seguiu um labirinto mental de imagens e simulacros (do qual, tantos anos depois, não cheguei a sair). É tudo.
Nesta espécie de sonho caótico em que se transformou a minha existência (se é que lhe posso chamar existência), só tenho duas certezas: 1) eu estive realmente em Viena (sei, por exemplo, que a memória do ar gélido de Outubro a entrar-me nos pulmões, quando saí do Musikverein, é verdadeira — mesmo que todas as outras sejam falsas); 2) o limbo em que me encontro só pode ser um estado de consciência exterior ou paralelo àquilo a que normalmente se chama vida. Dito de outro modo: ou estou morto, ou estou em coma.
Se estou morto, é tudo mais simples. Posso compreender finalmente o conceito de inferno, sem as desnecessárias metáforas do fogo e das penitências eternas. O inferno é isto. Ficar preso numa rede de tempos e lugares e factos e palavras e gestos que se repetem indefinidamente, com sequências e lógicas sempre variáveis, não permitindo a quem as revive — eu, o condenado — qualquer espécie de descanso, de fuga ou de consolo.
Se estou em coma, as coisas complicam-se. Talvez eu tenha sido atropelado à frente do Musikverein, num momento de fuga ao congresso de literatura comparada. Talvez me tenham levado em estado crítico para o hospital. Talvez esteja há mais de dez anos fechado dentro de mim, com soro nas veias e máquinas presas ao corpo. Talvez os médicos cochichem ao fundo do quarto com os meus familiares e eu reconheça uma palavra que arde: «desligar». Talvez eu procure a saída do labirinto, a porta de salvação que me tire daqui. Talvez eu descubra, sem surpresa, que a porta está trancada desde o primeiro momento (aquele em que a minha cabeça bateu no alcatrão coberto de gelo).

11.3.05

# 20



Em animada conversa
dois vagabundos
e um lírio


Matsuo Bashô (in «O Gosto Solitário do Orvalho», versão de Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim)



«dois vagabundos»

[Luar sobre os arrozais. Deitados sobre uma pequena elevação, dois homens olham as constelações muito nítidas que se desenham no céu.]
— Quando ficas assim, parado, a olhar para cima, o que vês?
— O mesmo que tu.
— As estrelas?
— Não.
— O espaço negro entre elas?
— Também não.
— Então o quê?
— A memória da nossa fome.
[Um dos homens está agora sentado, com um pano aberto sobre os joelhos, a cortar fatias muito finas de pão seco e tiras ainda mais finas de toucinho. O outro olha fixamente para o movimento da faca, enquanto aconchega o seu casaco em farrapos.]
— Queres um bocado?
— Sim.
— O que é que me dás em troca?
— Deixa-me pensar. [Vasculha os bolsos vazios.]
— Sabes que tens que me dar qualquer coisa em troca.
— Sim, já calculava. Olha, posso dar-te uma história.
— Que história?
— A minha. Uma bela história. A minha história.
— É alegre?
— Não. Nada. Pelo contrário. É até muito triste.
— Então está bem. Podes começar. [Estende-lhe um naco de pão seco; o outro espreita o pouco que lhe coube, sem esconder o desalento.] Querias mais? Pois não protestes. Só levas o toucinho quando chegares ao fim.
[Passaram quarenta minutos. Os dois acabam de comer. Parecem saciados.]
— Muito boa, a tua história.
— Muito bom, o teu toucinho.
— Há muito tempo que não ouvia uma história tão trágica.
— Há muito tempo que não comia um toucinho tão delicioso.
— Mas como posso ter a certeza de que a história é mesmo verdadeira?
— Não podes, nem isso interessa. Eu também não sei se foste tu que mataste o porco.
[Um dos homens levanta-se, aproxima-se do canavial, colhe um lírio. O outro encolhe-se, com frio.]
— O que tens tu na mão? Um lírio?
— Não.
— Uma estrela?
— Não.
— O amor que perdeste há tantos anos?
— Não.
— A primeira palavra do teu último poema?
— Não.
— Um reflexo da manhã que se aproxima?
— Não.
— A própria ideia de brancura?
— Isso, amigo. A própria ideia de brancura.
[Os dois homens voltam a deitar-se na pequena elevação, bebendo saké de uma garrafa opaca. Olham as constelações lá no alto, agora difusas. Luar sobre os arrozais.]

3.3.05

# 19



CLANDESTINO

Recordem hoje comigo – a palavra
e contra-palavra
da evidência: a táctil aurora, amanhecendo
da minha mão cerrada: o aperto
ciliário do sol: o trecho de escuridão
que escrevi
na mesa do sono.

Agora
é a hora.
Tudo aquilo de que
me vierem privar,
levem-no agora de mim. Não
se esqueçam
de esquecer. Encham
de terra os bolsos,
e selem a boca
da minha caverna.

Foi lá
que sonhei a minha vida
rumo a um sonho
de fogo.

Paul Auster (in «Poemas Escolhidos», tradução de Rui Lage, Quasi)



«da evidência: a táctil aurora, amanhecendo»


Ela olhou para mim com aquela desconfiança típica dos executivos de Hollywood. Vestia um daqueles tailleurs com assinatura de um estilista francês, quase de certeza mais caro do que o orçamento total da minha última curta-metragem, e bebericava um quarto de Evian servido por uma assistente em copo de cristal. O seu corpo era um prodígio da anatomia — ou da cirurgia plástica, não cheguei a perceber — e os seus gestos denunciavam, mais do que a cortesia falsa (apanágio dos poderosos cínicos), uma indiferença prestes a transformar-se em enfado. Creio mesmo tê-la visto bocejar, mas não garanto.
Enfim, após cinco penosos segundos de silêncio, que se seguiram à minha sucinta apresentação curricular (durante a qual foi notória a sua indiferença perante o Prémio do Público que ganhei em Sundance), ela ergueu a sobrancelha esquerda, serviu-se de mais Evian e disse, num tom de voz pleno de condescendência: «Ok, já percebi que é mais um daqueles independentes malucos à espera de agarrar, por uma vez, um orçamento que se veja. Deixe-se de tretas e explique-me lá o filme, de forma a que até a minha assistente o consiga compreender.»
Apesar da rispidez, não me impressionei com aquela arrogância pré-fabricada. Quem sobreviveu aos sermões do meu pai, sobrevive a tudo. Pousei as mãos no volume encadernado de «A Táctil Aurora» (nona versão, 138 páginas), aclarei a garganta e desbobinei a sinopse, como se estivesse na igreja a recitar os salmos.
Ela ouviu, com atenção crescente, a minha história. Aquele morto logo a abrir, afundado na lama, com sete cadernos de cores diferentes guardados nos bolsos da gabardina, espicaçaram a sua curiosidade. Eu ia lendo as emoções no seu rosto, à medida que lhe explicava a intrincada trama policial, um vasto labirinto de pistas cruzadas e linhas narrativas paralelas (sete: uma por cada caderno e por cada cor do arco-íris; como se o crime inicial fosse o prisma que decompõe a luz que se espalha pelo resto da narrativa). Com mapas cheios de riscos, mostrei-lhe depois a geografia tortuosa do filme: o começo em Madagáscar, com passagens porLos Angeles, Nepal, Osaka, Marraquexe, Nova Zelândia, Trieste, Patagónia, Macau e Nova Iorque. Expliquei-lhe ainda, sem entrar em grandes detalhes, os rudimentos de mecânica quântica necessários para compreender a cena no interior do acelerador de partículas. E fiz-lhe um desenho da ascensão do herói (Harrison Ford?) aos céus, depois da gloriosa cena do sacrifício final.
Sem grande surpresa, a resposta da executiva acabou por ser negativa. «Not interested». O que me surpreendeu, porém, foi a justificação: «Vai-me desculpar a sinceridade, mas essa história nunca teria hipóteses em Hollywood. É demasiado verosímil.»