3.3.05

# 19



CLANDESTINO

Recordem hoje comigo – a palavra
e contra-palavra
da evidência: a táctil aurora, amanhecendo
da minha mão cerrada: o aperto
ciliário do sol: o trecho de escuridão
que escrevi
na mesa do sono.

Agora
é a hora.
Tudo aquilo de que
me vierem privar,
levem-no agora de mim. Não
se esqueçam
de esquecer. Encham
de terra os bolsos,
e selem a boca
da minha caverna.

Foi lá
que sonhei a minha vida
rumo a um sonho
de fogo.

Paul Auster (in «Poemas Escolhidos», tradução de Rui Lage, Quasi)



«da evidência: a táctil aurora, amanhecendo»


Ela olhou para mim com aquela desconfiança típica dos executivos de Hollywood. Vestia um daqueles tailleurs com assinatura de um estilista francês, quase de certeza mais caro do que o orçamento total da minha última curta-metragem, e bebericava um quarto de Evian servido por uma assistente em copo de cristal. O seu corpo era um prodígio da anatomia — ou da cirurgia plástica, não cheguei a perceber — e os seus gestos denunciavam, mais do que a cortesia falsa (apanágio dos poderosos cínicos), uma indiferença prestes a transformar-se em enfado. Creio mesmo tê-la visto bocejar, mas não garanto.
Enfim, após cinco penosos segundos de silêncio, que se seguiram à minha sucinta apresentação curricular (durante a qual foi notória a sua indiferença perante o Prémio do Público que ganhei em Sundance), ela ergueu a sobrancelha esquerda, serviu-se de mais Evian e disse, num tom de voz pleno de condescendência: «Ok, já percebi que é mais um daqueles independentes malucos à espera de agarrar, por uma vez, um orçamento que se veja. Deixe-se de tretas e explique-me lá o filme, de forma a que até a minha assistente o consiga compreender.»
Apesar da rispidez, não me impressionei com aquela arrogância pré-fabricada. Quem sobreviveu aos sermões do meu pai, sobrevive a tudo. Pousei as mãos no volume encadernado de «A Táctil Aurora» (nona versão, 138 páginas), aclarei a garganta e desbobinei a sinopse, como se estivesse na igreja a recitar os salmos.
Ela ouviu, com atenção crescente, a minha história. Aquele morto logo a abrir, afundado na lama, com sete cadernos de cores diferentes guardados nos bolsos da gabardina, espicaçaram a sua curiosidade. Eu ia lendo as emoções no seu rosto, à medida que lhe explicava a intrincada trama policial, um vasto labirinto de pistas cruzadas e linhas narrativas paralelas (sete: uma por cada caderno e por cada cor do arco-íris; como se o crime inicial fosse o prisma que decompõe a luz que se espalha pelo resto da narrativa). Com mapas cheios de riscos, mostrei-lhe depois a geografia tortuosa do filme: o começo em Madagáscar, com passagens porLos Angeles, Nepal, Osaka, Marraquexe, Nova Zelândia, Trieste, Patagónia, Macau e Nova Iorque. Expliquei-lhe ainda, sem entrar em grandes detalhes, os rudimentos de mecânica quântica necessários para compreender a cena no interior do acelerador de partículas. E fiz-lhe um desenho da ascensão do herói (Harrison Ford?) aos céus, depois da gloriosa cena do sacrifício final.
Sem grande surpresa, a resposta da executiva acabou por ser negativa. «Not interested». O que me surpreendeu, porém, foi a justificação: «Vai-me desculpar a sinceridade, mas essa história nunca teria hipóteses em Hollywood. É demasiado verosímil.»