11.3.05

# 20



Em animada conversa
dois vagabundos
e um lírio


Matsuo Bashô (in «O Gosto Solitário do Orvalho», versão de Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim)



«dois vagabundos»

[Luar sobre os arrozais. Deitados sobre uma pequena elevação, dois homens olham as constelações muito nítidas que se desenham no céu.]
— Quando ficas assim, parado, a olhar para cima, o que vês?
— O mesmo que tu.
— As estrelas?
— Não.
— O espaço negro entre elas?
— Também não.
— Então o quê?
— A memória da nossa fome.
[Um dos homens está agora sentado, com um pano aberto sobre os joelhos, a cortar fatias muito finas de pão seco e tiras ainda mais finas de toucinho. O outro olha fixamente para o movimento da faca, enquanto aconchega o seu casaco em farrapos.]
— Queres um bocado?
— Sim.
— O que é que me dás em troca?
— Deixa-me pensar. [Vasculha os bolsos vazios.]
— Sabes que tens que me dar qualquer coisa em troca.
— Sim, já calculava. Olha, posso dar-te uma história.
— Que história?
— A minha. Uma bela história. A minha história.
— É alegre?
— Não. Nada. Pelo contrário. É até muito triste.
— Então está bem. Podes começar. [Estende-lhe um naco de pão seco; o outro espreita o pouco que lhe coube, sem esconder o desalento.] Querias mais? Pois não protestes. Só levas o toucinho quando chegares ao fim.
[Passaram quarenta minutos. Os dois acabam de comer. Parecem saciados.]
— Muito boa, a tua história.
— Muito bom, o teu toucinho.
— Há muito tempo que não ouvia uma história tão trágica.
— Há muito tempo que não comia um toucinho tão delicioso.
— Mas como posso ter a certeza de que a história é mesmo verdadeira?
— Não podes, nem isso interessa. Eu também não sei se foste tu que mataste o porco.
[Um dos homens levanta-se, aproxima-se do canavial, colhe um lírio. O outro encolhe-se, com frio.]
— O que tens tu na mão? Um lírio?
— Não.
— Uma estrela?
— Não.
— O amor que perdeste há tantos anos?
— Não.
— A primeira palavra do teu último poema?
— Não.
— Um reflexo da manhã que se aproxima?
— Não.
— A própria ideia de brancura?
— Isso, amigo. A própria ideia de brancura.
[Os dois homens voltam a deitar-se na pequena elevação, bebendo saké de uma garrafa opaca. Olham as constelações lá no alto, agora difusas. Luar sobre os arrozais.]