16.3.05

# 21



O FIM DA ESCADA

A estranha sensação de ter morrido
em Viena, numa tarde de outono de 1992,
numa casa cuja escada nunca subi.
De ser desde então um intruso, um farsante,
o actor sem futuro de uma comédia má.
De que o destino, implacável e rasteiro,
se vingou na longa noite de um hospital,
nas horas vazias que tento preencher.
Inventar, não heterónimos como fez Pessoa,
mas algo mais simples, o homem que escreve agora,
a medíocre perseverança dos seus feitos,
enquanto, insistente, me tenta a ideia de voltar,
de subir de vez os degraus, de bater a uma porta.
Mas quem sabe se ainda uma história pior,
um horror mais nítido me espera ali,
no fim da escada, diante da imaginada porta?


Juan Luis Panero (in «Poemas», tradução de Joaquim Manuel Magalhães, Relógio d’Água)



«A estranha sensação de ter morrido»

Ainda hoje não sei como é que esta história começou. Lembro-me vagamente de participar num congresso de literatura comparada, em Viena, no princípio dos anos 90: apresentações aborrecidas num palácio de arquitectura demasiado solene, neve tombando suavemente como nos contos infantis, escapadelas em grupo para ouvir alunos do Conservatório a tocar Brahms (à porta de centros comerciais hiper-aquecidos) e deambular pelos alfarrabistas em busca de miríficas primeiras edições, conversas no hall do hotel com o ensaísta turco das barbas longas e com o poeta libanês das rosas tatuadas no pescoço, a imagem de uma mulher loura a atravessar a rua na minha direcção, chocolate quente, uma garrafa de gin, apfelstrudel.
A minha memória daqueles dias estilhaçou-se em mil fragmentos, é agora um obscuro caleidoscópio que me confunde e cega. Esforço-me por encontrar um fio condutor, uma ordem cronológica, uma sequência de factos. Em vão. Nada bate certo. Em Viena aconteceu-me qualquer coisa (não sei o quê), a que se seguiu um labirinto mental de imagens e simulacros (do qual, tantos anos depois, não cheguei a sair). É tudo.
Nesta espécie de sonho caótico em que se transformou a minha existência (se é que lhe posso chamar existência), só tenho duas certezas: 1) eu estive realmente em Viena (sei, por exemplo, que a memória do ar gélido de Outubro a entrar-me nos pulmões, quando saí do Musikverein, é verdadeira — mesmo que todas as outras sejam falsas); 2) o limbo em que me encontro só pode ser um estado de consciência exterior ou paralelo àquilo a que normalmente se chama vida. Dito de outro modo: ou estou morto, ou estou em coma.
Se estou morto, é tudo mais simples. Posso compreender finalmente o conceito de inferno, sem as desnecessárias metáforas do fogo e das penitências eternas. O inferno é isto. Ficar preso numa rede de tempos e lugares e factos e palavras e gestos que se repetem indefinidamente, com sequências e lógicas sempre variáveis, não permitindo a quem as revive — eu, o condenado — qualquer espécie de descanso, de fuga ou de consolo.
Se estou em coma, as coisas complicam-se. Talvez eu tenha sido atropelado à frente do Musikverein, num momento de fuga ao congresso de literatura comparada. Talvez me tenham levado em estado crítico para o hospital. Talvez esteja há mais de dez anos fechado dentro de mim, com soro nas veias e máquinas presas ao corpo. Talvez os médicos cochichem ao fundo do quarto com os meus familiares e eu reconheça uma palavra que arde: «desligar». Talvez eu procure a saída do labirinto, a porta de salvação que me tire daqui. Talvez eu descubra, sem surpresa, que a porta está trancada desde o primeiro momento (aquele em que a minha cabeça bateu no alcatrão coberto de gelo).