9.4.05

# 23



COM O TEMPO A SABEDORIA

Embora muitas sejam as folhas, a raiz é só uma;
Ao longo dos enganadores dias da mocidade,
Oscilaram ao sol minhas folhas, minhas flores;
Agora posso murchar no coração da verdade.


W. B. Yeats (in «Poemas», tradução de José Agostinho Baptista, Assírio & Alvim)



«Embora muitas sejam as folhas, a raiz é só uma;»

Meu amor,
esta é provavelmente a última carta que te escrevo. Estou muito cansado, muito gasto, muito triste. E, sabes, nos últimos dias voltei a sentir a presença da morte em cada gesto. Não te sei explicar bem isto — a clareza dos meus raciocínios, essa lucidez que tanto elogiavas, já não é o que era —, mas sinto como que um cerco invisível, um prenúncio do meu desaparecimento em cada coisa que me rodeia: os livros escurecidos pelo pó de décadas, as alfaias já sem préstimo a um canto do celeiro, o cata-vento enferrujado no topo da igreja, as maçãs que a Mrs. Abercombrie me trouxe há duas semanas (agora podres), o meu rosto cheio de rugas no espelho baço e rachado que ainda guardo na mesa de cabeceira. O teu espelho. O espelho que me ofereceste há tanto tempo. O espelho onde contemplaste a tua gloriosa juventude.
Às vezes pergunto-me se ainda te lembrarás desses dias. Lembras-te, Annie? Eu lembro-me. Se fechar os olhos, estes olhos quase extintos, vejo a tua silhueta caminhando à minha frente, um contorno a dar sentido à paisagem. Vejo a estrada cheia de lama, o muro de pedra a suster o bosque agreste, tu girando de repente sobre ti mesma, sorrindo, as mãos cheias de framboesas, colhidas quando eu não estava a olhar. Lembro-me do sabor das framboesas, sabor acre dos beijos presos por tão pouco. Lembro-me dos teus cabelos no meu rosto e da cor vermelha do céu. Lembras-te, Annie? Eu lembro-me. Foi em 23 de Setembro de 1934.
Talvez recordes melhor o resto. Os encontros secretos em Charing Cross, as dúvidas em relação ao pobre jornalista que então eu era, a incapacidade de pensares a tua vida sem ser à sombra do execrável Major e das suas festas tão bem frequentadas. Também me lembro disso tudo. A despedida sem lágrimas, o espelho envolto em pano-cru, a claridade lilás sobre o Tamisa quando me disseste que partias para a Índia, talvez para nunca mais voltares. Foi a 2 de Fevereiro de 1935.
Não te espantes com os detalhes. A memória é talvez o meu último bastião, mas mesmo esse começa a abrir brechas. Já não tenho forças para nada, nem mesmo para prosseguir esta ilusão. Durante 57 anos, escrevi-te uma carta todos os meses. Era uma forma de manter intacta a tua imagem, as tuas mãos cheias de framboesas, esta vã certeza de que foste a única mulher que amei verdadeiramente.
Agora apercebo-me de que não vale a pena continuar. Dentro de um mês estarei morto, as minhas cinzas espalhadas nas traseiras da casa onde nasci. Os meus netos disputarão os escassos bens que ainda me restam. Venderão os móveis, deitarão fora o espelho e lerão talvez, com a indiferença de quem nada compreende, estas centenas de cartas que nunca te enviei.

2 Comments:

Anonymous maria said...

Verdadeiramente fántástico.
Não sei como vim aqui parar (ah, foi atrás das framboesas) nem quando isto aqui deixado.
mas ainda bem que passei por aqui.

22 de março de 2009 às 21:08  
Anonymous maria said...

errata: fantástico.

22 de março de 2009 às 21:09  

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