11.4.05

# 24



AI

Another round for my dark companion.

Tuxedomoon



Aos poucos um corpo, como diz o outro,
vai ficando sozinho, bate com as portas,
recua e recua. Quando dá por isso,
já não sabe dançar, conta as estações
pela volta do correio. Assim se começa
a olhar para trás, por cima do ombro,
pegando nas coisas pelo lado mais fraco.
Pagamos o preço de querer dissecar,
fibra por fibra, em prol da ciência,
o músculo baixo, descoordenado,
a que chamamos ai coração ai.

José Miguel Silva (in «Vista para um Pátio seguido de Desordem», Relógio d’Água)



«a olhar para trás, por cima do ombro»

Disse-me: «A dada altura, é preciso saber parar.» Era fácil para ele, nessa altura, um desprendimento assim. Eu sei que era. Tinha os gestos certos, a pose certa, as palavras certas, as certezas certas. Exibia, ufano, a sua superioridade: família, amor, dinheiro, um disco quase a chegar à platina, reconhecimento público (isso a que os néscios chamam fama), uma vida cor-de-rosa avançando em linha recta sobre carris dourados, sem o mínimo atrito. E sorria, o sacana, um sorriso onde cabia toda a pusilânime condescendência com que me esmagava.
Estávamos sentados no bar do velho Astoria, bebericando cocktails com mais cores garridas do que álcool e David, com a dúbia autoridade de irmão mais velho, dava-me lições de moral. Lições de moral, caralho. A_mim só me apetecia rebentar-lhe a boca, estoirar-lhe as ventas presumidas de cabrão a abarrotar de estúpidos complexos de culpa, ver sangue a jorrar daquele sobrolho sempre arqueado e pedante, sangue a pingar sobre o balcão de madeira polida, sobre o caríssimo casaco de caxemira e também sobre os irritantes sapatos de ponta fina, à maricas.
Ele falava, falava, falava, olhando-me de lado como quando éramos putos e nos escondíamos atrás dos barrações da fábrica de cortiça, a fumar cigarros espanhóis, intragáveis e sulforosos, depois das aulas, antes de voltarmos para casa. O olhar era o mesmo. Um olhar que dizia: «Nem sei por que raio estou aqui contigo agora, tu nunca merecerás que te olhe de frente, como um igual». Foi há 30 anos, tinha eu 11 e ele 16. Já um abismo a separar-nos. Um abismo cheio de ressentimento, remorsos, fel.
«Queres um Cohiba?», perguntou com aqueles dentes demasiado brancos, reconstruídos por um médico de celebridades. Os dentes branquíssimos que aparecem em grande plano no videoclip do último êxito: «The way I love you tonight» — balada pirosa em que ele murmura a letra com uma voz à la Leonard Cohen, rodeado de adolescentes loiras, a ensaiar ridículos passinhos de rumba no terraço de um arranha-céus, talvez em Manhattan. «Cabrão, cabrão, cabrão», repeti mentalmente, enquanto aceitava o charuto que me estendia, ainda embrulhado, como que a medo.
O meu fumo misturou-se com o fumo dele. Ilusória irmandade a desfazer-se, em volutas etéreas, já perto do tecto. «Olha para trás», dizia-me. «Ainda vais a tempo». Os prospectos da clínica de reabilitação, com fotos de piscinas e relvados. «Eu só quero ajudar». A cinza do Cohiba no cinzeiro transparente. O sorriso branco. O olhar a dizer: «Já lixaste a tua vida vezes de mais, és uma vergonha, um traste, mas eu quero salvar-te para me sentir melhor». O meu punho fechado, nós dos dedos prestes a libertar toda a raiva, a súbita memória das suas fragilidades (tão escondidas). Poderia dar-lhe o soco que nunca lhe dei. Mas já não valia a pena. Apaguei o charuto no copo dele. E fui-me embora.