14.4.05

# 25



Cidade dos Outros

Uma terrível atroz imensa
Desonestidade
Cobre a cidade

Há um murmúrio de combinações
Uma telegrafia
Sem gestos sem sinais sem fios

O mal procura o mal e ambos se entendem
Compram e vendem

E com um sabor a coisa morta
A cidade dos outros
Bate à nossa porta

Sophia de Mello Breyner Andresen (in «Geografia», Ática)



«O mal procura o mal e ambos se entendem»

Cheguei a Gatarnay numa manhã escura de Novembro. As nuvens, muito baixas, cobriam a cidade com uma espécie de manto plúmbeo. Afastando as pesadas cortinas que tapavam as janelas da liteira, carregada em esforço por oito homens, a minha primeira visão foi essa: um céu tenebroso que parecia prestes a desabar, pairando (cheio de relâmpagos) poucos palmos acima dos pináculos de Gatarnay. Ao conferir o meu caderno — onde apontei, durante cinco meses, as idiossincrasias de urbes bizarras (à imagem, admito, dos inventários de Marco Polo nos domínios do imperador mongol) —, desfilaram em frente aos meus olhos imagens poderosas: a praça central de Xinzonu (com os seus palácios de gelo fino, reconstruídos todas as manhãs); o cais semi-circular de Lartúria (onde só acostam os navios feitos com o molde daquela curva); a rede de avenidas diagonais sobrepostas de Blokengast (labirinto de asfalto com 36 níveis, gerido por um comité de mil matemáticos); o plano ambiental extremo levado à prática em Telicusam (onde as casas foram abandonadas, a natureza invadiu tudo e os homens vivem agora nas árvores, alimentando-se de frutos e pássaros); o inferno de Dunwai, cidade-forno em que todos os habitantes trabalham em metalurgias, sob um calor que nunca baixa dos 45 graus; ou a alegria que se cola à nossa pele nos bairros desordenados de Valupi (a cidade utópica onde cada um só faz o que quer, quando quer e como quer, numa improvável harmonia que obedece às leis do caos e do acaso).
Que tipo de surpresas me reservaria Gatarnay? À distância, dentro da liteira, pressenti que seriam tudo menos agradáveis. Aquele céu funesto, pus-me a imaginar, só podia ser um reflexo da maldade que consumia o núcleo histórico da povoação, esse amontoado de casas lúgubres escondido atrás das espessas muralhas e das ameias pontiagudas. Ao entrar na cidade, através de uns majestosos portões de cobre, logo percebi que a minha intuição estava correcta. Em cada esquina, em cada beco, em cada parapeito, em cada sombra, havia um assassino ou um vigarista ou um conspirador. A atmosfera estava saturada de boatos, de comentários acintosos, de calúnias, de blasfémias, de imprecações. A todo o instante se ouviam gritos de vingança e de raiva, a toda a hora se viam cadáveres lançados à rua, atentados, traições. «Onde é que vim parar?», perguntei a um velho mendigo, encolhido junto a uma sarjeta. «A uma cidade-fantasma», respondeu ele. «Aqui não vive ninguém, isto que vê são projecções mentais, uma irradiação da maldade que transborda do resto do mundo e que...» Não acabou a frase, trespassado por uma lança vinda não sei de onde. Era óbvio que chegara a hora de fugir dali.
Infelizmente, do alto das muralhas, alguém assassinara os carregadores da liteira. Tive que fazer o resto da viagem a pé.