24.5.05

# 26



Os tristes heróis.
Têm lojas. Outros comércios.
Cortam os dedos com a faca da cozinha.
Sentem-se mal.
Falta-lhes a imediata compreensão
outros heróis mais perto das estrelas
e do azar
preso numa lata de conserva.


Che cosa è bello?
Che cosa sono io?

Entram celestes na primeira aventura.

João Miguel Fernandes Jorge (in «Antologia Poética – 1971-1994», Presença)



«outros heróis mais perto das estrelas»

Quando Mariana lhe abriu a porta, Gustavo inquietou-se com a visão do dedo ferido. Era uma coisa estranha ver aquele polegar assim, como uma múmia gorda, enrolado às três pancadas em gaze e ligadura. Logo aquele. O da mão esquerda.
— Então, querida, o que foi isso?
Mariana não respondeu. Baixou os olhos, compôs o cabelo com a outra mão e voltou para a cozinha. Gustavo ficou imóvel, como se tivesse medo de entrar na sua própria casa. Lá dentro ouvia-se o som da loiça a bater na loiça. Pelo corredor avançava o cheiro do refogado e o aroma dos bifes fritos com alho. Gustavo deu um passo e pendurou o casaco no cabide. Depois largou as chaves sobre o aparador do hall, o abominável aparador dos torcidos e do espelho encastrado. Acendeu a luz fraquinha da casa-de-banho, abriu a torneira da água quente e demorou-se a ensaboar as mãos sujas com a tinta do jornal da manhã.

— Aquela família da casa verde, junto ao jardim, vai deixar o bairro. — disse Mariana, com voz neutra, enquanto descascava uma laranja.
— Pena. Já vai sendo raro encontrar pessoas assim, tão prestáveis, tão educadas. Como é que era mesmo o apelido deles? Oliveira, parece-me. Ou Pereira, não sei bem.
— Moreira.
— Isso. Os Moreira. Simpatizava com eles. Gente simples, sem manias. Sabes por que razão decidiram partir?
Gustavo servia-se de queijo. Uma fatia triangular de Camembert, umas aparas de Roquefort, tiras fininhas de chèvre. Mariana mastigava os gomo sumarentos como se fosse um autómato.
— Não. Não sei. Coisas de família, quase de certeza. Chatices.
— É pena.
— É.
Um prato cheio de caroços, outro cheio de migalhas.

Cinco dias depois, no escritório, enquanto fazia encomendas, Gustavo sentiu uma dor de cabeça muito forte. Decidiu apanhar ar, beber um café. No outro canto do balcão estava o Sr. Moreira. Pensou interpelá-lo mas percebeu que a altura não era a melhor. Ele lia uma carta e só a custo conseguia evitar o choro. No momento em que começava a sentir comiseração, Gustavo identificou, mesmo à distância de uns quantos metros, a caligrafia da sua mulher. Enfurecido, teve o impulso de se levantar e pedir explicações mas depois parou, fechou os olhos, respirou fundo e saiu de mansinho, sem ser visto pelo outro.
Nessa tarde, Mariana voltou a abrir a porta da rua. À sua frente, cheio de raiva e disposto a tudo, Gustavo. Ela olhou-o nos olhos. Ele tremia.
— Então, amor, estás com frio? — perguntou Mariana, a sorrir. Um sorriso puro, igual aos sorrisos dos primeiros tempos.
Aturdido, ele só conseguiu reparar no polegar finalmente curado, mas com uma pequena cicatriz.