26.5.05

# 27



surpreendente

de repente no meio da rua
não se saber onde se está
de repente no meio da rua
não se saber quem se é
não encontrar o bilhete
de identidade nem a chave
de casa nem o dinheiro nem
conhecer os sapatos que
se trazem nem as calças e
a camisa eventualmente
o casaco nem compreender
a língua que falam todos
os que de roda se puseram
empurrando-se para ver
melhor até chegar a polí
cia e encarregar-se de tu
do o resto quer dizer: de
fazer o transporte e de
abrir e fechar a porta da
cela branca branca vazia
donde nunca mais se sairá


Alberto Pimenta (in «Obra Quase Completa», Fenda)



«de repente no meio da rua»

Tudo começou a complicar-se quando publiquei o meu quarto romance e a crítica decidiu arrasá-lo sem dó nem piedade. O meu quarto romance, talvez se recordem, era aquele com os círculos do inferno na capa e, lá dentro, uma parábola sobre o que se passara na minha cabeça depois do sucesso inesperado do terceiro romance. Vocês lembram-se: os prémios, as mulheres, as drogas, a queda com estilo numa depressão antológica. Lembram-se de certeza. Fui internado cinco vezes, tentei suicidar-me com um golpe no pescoço, fiz aquela cena lamentável na varanda do hotel (nu sob os holofotes) e finalmente matei com as minhas próprias mãos, a murro, o anormal de óculos redondos que me chamou, com todas as letras, “aforista decadente”.
[Não, não foi nada assim. Foi mais para trás. Rewind.]
A loucura bateu-me à porta numa segunda-feira e trazia flores. Gladíolos. A loucura tinha nome de mulher (Glória) e um corpo in excelsis. Foi ela que dactilografou o meu quarto romance, fechados os dois num hotel em frente à praia, perto de Rimini, alimentados apenas a ostras e champanhe (como Karen Blixen no fim da vida). Ostras, champanhe e sexo. A máquina de escrever. Os dedos dela. O meu inferno mental a deslizar pela voz em ruínas até aos dedos dela, os dedos dela a baterem nas teclas como na minha pele exausta. E um dia partiu, sem dizer uma palavra, deixando atrás de si, impecavelmente ordenadas sobre a mesa de cabeceira, as 358 páginas de requintada perfídia, de insensato derrame barroco, de puro delírio egocêntrico, enfim, o espelho onde pude contemplar por fim o meu rosto disforme.
[Também não foi bem isto, não foi bem isto.]
Certa tarde estava a assinar autógrafos numa feira do Livro de província, mecanicamente, aborrecido de morte, quando ela se pôs na fila. Ela, Glória, tanto tempo depois. Quando chegou a sua vez, estendeu-me um volume de capa negra, com o título do meu quinto romance, o livro que nunca cheguei a começar. Lá dentro, páginas brancas. As mãos dela, cruéis. Unhas escarlate.
[Mentiras que não ardem. Mentiras que não se podem rasgar.]
Tantas máscaras no chão do quarto. Os lençóis vazios. O frio. O sangue na banheira cheia de água quente. Quem é que morreu, afinal, no dia em que morreste?
[Volto ao princípio, como se houvesse um princípio.]
A preparação metódica de um suicídio. Era essa a história do quarto romance. A preparação metódica de um suicídio. O suicídio do narrador nos círculos infernais da sua consciência. O meu suicídio. Tudo bem explicadinho. Tudo verdadeiro. Tudo falso.
[Fast forward. Stop. Fast forward. Fita enrolada.]
Inicio agora, mais tranquilo, o quinto romance. A história de como escapei da literatura, ileso. Uma bala de cinza. As mãos em fogo. O vento (o seu silêncio) apagando todos os indícios do crime.