27.5.05

# 28



Acordar de madrugada
Pois a alegria sufoca,
E olhar pela vigia
Para as vagas de cor verde,
Ou no convés com mau tempo
Gasalhada em brandas peles,
Ouvir o bater da máquina,
E não pensar em nada,
Mas, pressentindo o encontro
Com esse que se tornou minha estrela,
Pelas gotas salgadas e o vento
Em cada hora rejuvenescer.


Anna Akhmatova (in «Poemas», tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Vadim Dmitriev, Relógio d’Água)



«E não pensar em nada,»

A mulher dorme. Um corpo sob os lençóis, belo e precário. A respiração. Lenta, profunda. Os dedos da mão estremecem. Os lábios murmuram algo incompreensível. A luz que entra pela vigia é mínima. Luz da aurora. Luz ainda cheia da escuridão da noite. Luz de estrelas mortas e nuvens púrpura, feridas pelo sol que se levanta. Tão humilde, esta claridade. Ei-la que progride sobre os objectos do quarto. A carpete vermelha com cornucópias douradas. O jornal de há cinco dias, sobre a mesinha de vidro. A cadeira de braços. O vestido verde sobre a cadeira de braços. O camafeu com um rosto antigo, pregado ao vestido verde, sobre o lugar do coração. A claridade inunda o camarote. Acende o contorno das coisas. Torna concreta a manhã. E invade também o sonho da mulher que dorme. Sonho a preto e branco, sufocante. Há brumas dentro do sonho. Ruas escuras. Estações onde os comboios apitam numa estridência demasiado aguda. A luz varre a praça onde a mulher, dentro do sonho, procurou refúgio, a um canto, numa pequena esplanada, à sombra da grande basílica. A mulher lê uma carta. Chora. As palavras são do homem que atravessa agora planícies que ela nunca verá. Ela imagina o homem dentro do comboio. A cabeça encostada ao vidro frio, a imaginar as lágrimas dela, numa praça qualquer, lendo as palavras que escreveu à pressa no quartel, antes da última saída, antes do último encontro. A mulher pára de ler a carta. Olha para a praça, onde entretanto pousaram milhares de albatrozes. As grandes asas batendo umas nas outras. Os gritos lancinantes. E de repente cresce uma histeria de bicos assassinos. As penas brancas manchadas de sangue. A praça a pulsar com uma energia malsã. A claridade exterior a invadir o preto e branco do sonho. Como se o sol estivesse agora a rasar os telhados. A claridade exterior a tornar vermelhas as manchas de sangue, a dar consistência ao tumulto das aves e à angústia da mulher que viu partir o amante, talvez para sempre. A mulher do sonho fecha os olhos quando a mulher que dorme abre os olhos. É a mesma mulher debaixo da mesma luz. "O que foi isto?", murmura. Ergue-se cambaleando, o corpo ainda trôpego de sono. Veste um roupão de seda. Lava o rosto com água de rosas. A vigia é um círculo de mar na parede do quarto. Aproxima-se. Espreita lá para fora. O mar está agitado. Vagas de coroa branca, muito verdes. O horizonte íngreme, à mercê das inclinações do navio. Uma bóia vermelha, ao longe, desaparecendo aos poucos. O sonho, incompreensível, ainda paira na cabeça da mulher. "O que foi aquilo?" A angústia espalha-se como uma mancha dentro do corpo, devorando a alegria de reencontrar o seu amor, dentro de dois dias, no outro lado do oceano. "Que sinais são estes?", pergunta-se a mulher. E um albatroz desce, súbito, até à flor das águas.