31.5.05

# 30



CERTEZA

Se é real a luz branca
desta lâmpada, real
a mão que escreve, são reais
os olhos que olham o escrito?

Duma palavra à outra
o que digo desvanece-se.
Sei que estou vivo
entre dois parênteses.


Octavio Paz (in «Antologia Poética», trad. de Luís Pignatelli, Dom Quixote)



«Se é real a luz branca»

(O que vejo, escrevo. O que sinto, escrevo. O que penso, escrevo. O que respiro, escrevo. É esta a minha existência. Escrever. É esta a minha tortura, a minha alegria, a minha maldição.)

Só a luz branca é real. O seu esplendor. A sua cegueira. Tudo o resto é incerto. Mais incerto ainda, eu. À minha volta um espaço sem dimensões, opaco, turvo, negro para dentro como a água esquecida no fundo de um poço. O real é a luz branca que atravessa o corpo que não tenho, é a tinta a espalhar-se. Não vou descrever o indescritível. Olho apenas. Penso. Escrevo. Do lado de lá, quer dizer, do outro lado disto que não sei o que é, há formas que se movimentam. Sombras longas. Quedas. Alucinações. Um rectângulo vagamente azul pode ser uma piscina. Sei o que é uma piscina. Lembro-me do que é uma piscina, uma memória anterior a isto, a esta luz branca tão real e mortífera. Lembro-me de todas as piscinas em que mergulhei e ainda de algumas em que não mergulhei. Os pequenos ladrilhos quadrangulares com dois tons de azul, a água agitando-se à superfície com o arrepio trazido pela brisa da tarde, a claridade volátil que cintila como se irradiasse lá do fundo aquático, o cheiro a cloro, o toque frio das escadas de alumínio. De repente estou a escrever tudo o que sei sobre piscinas. O que relembro, escrevo. A piscina onde morreu afogada a única mulher que amei. Uma piscina em forma de coração, nas traseiras de um hotel piroso. Uma piscina vazia num filme de Tarkovski. Uma piscina cheia num quadro de David Hockney. Uma final olímpica. Agora mergulho mentalmente na água e vou escrevendo, aqui, esse mergulho que acontece lá, na memória, gesto a gesto, os pulmões em brasa. Mergulho a pique, cada vez mais fundo. Sinto o ar preso na garganta, os olhos aflitos. A piscina não acaba, não tem fim. A piscina dissolveu-se e agora é só água. Continuo a mergulhar, cada vez mais fundo. A escuridão. O silêncio. O corpo que não tenho adormece. O que adormece em mim, escrevo. Coração, boca, passado. Adormeço nas águas impossíveis. E depois a luz branca, novamente. Não saí do mesmo lugar. Está tudo na mesma. A cegueira. O espaço opaco. Do outro lado, sombras longas, quedas, alucinações. Um paralelepípedo vagamente amarelo pode ser uma casa. Sei o que é uma casa. Lembro-me do que é uma casa, uma memória anterior a isto, a esta luz branca tão real e mortífera. Gostava de acreditar que há uma possibilidade de fuga, a hipótese de um rasgão nisto que não sei o que é. Mas os meus olhos já desistiram, os meus olhos são agora uma lâmina inútil.

(O que vejo, escrevo. O que sinto, escrevo. O que penso, escrevo. O que respiro, escrevo. É esta a minha existência. Escrever. É esta a minha tortura, a minha alegria, a minha maldição.)

2 Comments:

Anonymous Luis Oliveira said...

Simplesmente Parabens

1 de junho de 2005 às 20:03  
Anonymous divulgação said...

quem se interessa pelas novidades literárias vem aqui:

http://www.icicom.up.pt/blog/muitaletra/

10 de junho de 2005 às 13:26  

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