5.7.05

# 33



DO QUE ME LEMBRO


Lembro-me da música dos lugares a oeste
dos planos para esse reino amado
que pretendemos tanto tomar de assalto
antes dos brados do fogo

Mas as minhas mãos traziam já
uma sina mais escura, nem a noite

Qualquer penumbra serviu
ao meu coração oculto
a miséria do Inverno
o treino dos falcões nas escarpas
a glória iludida
em que se consumiu o tempo


José Tolentino Mendonça (in «Longe não sabia», Presença)



«a glória iludida»

Estacionei o automóvel noutra rua, mais recatada, debaixo de uma árvore. Caminhei rente aos prédios, «por dentro da sombra mínima do meio-dia», como mais tarde escrevi no meu pequeno Moleskine. Pus os óculos escuros, baixei a cabeça num ângulo de trinta graus, fingi súbito interesse por certas montras (chapelarias, alfarrabistas, lojas de lingerie), pretexto para analisar o reflexo da rua inteira nos vidros impecavelmente polidos, controlei as sombras e os sons de passos atrás de mim, ergui o colarinho da gabardina e entrei no café.
– Quando é que te deixas disso, pá? – perguntou o Guilherme, visivelmente incomodado com os meus tiques de espião caricatural. O Guilherme não faz ideia do que se passa na minha vida, essa é que é essa. E nem sequer vale a pena explicar-lhe. Ele nunca seria capaz de perceber.
– Essas tuas paranóias ainda nos vão sair caras, ouviste? Isto não é nenhum jogo. Isto não é um romance do John Le Carré. Isto não é um filme do James Bond. Percebes?
É claro que percebo. E para perceber nunca necessitei dos tremeliques dele, menos ainda dos seus pânicos, dos seus lugares-comuns e das suas redundâncias. Eu sei que o Guilherme é um tipo porreiro, um tipo voluntarioso, mas anda nisto completamente às cegas. Entrou para a organização há dois anos e julga que já sabe tudo. Não sabe. Pior: não sabe que não sabe.
– O que é que temos desta vez? – perguntou-me ele, em voz baixa. Os dedos tamborilando no tampo da mesa, as pupilas enormes. Passei-lhe o meu Moleskine e ele procurou a página com o canto dobrado. A tinta verde, na vertical, leu a frase: «o treino dos falcões nas escarpas».
– Verso?
– Verso –, respondi-lhe, depois de me certificar que o empregado de bigode à Nietzsche, vagamente suspeito, estava atrás do balcão a aquecer um galão escuro. A duas mesas de distância, quatro velhas faziam crochet e discutiam com voz esganiçada a vida sentimental de uma actriz. Ninguém ouvira a nossa conversa e isso satisfazia-me, por muito que outros pudessem ver nessa satisfação um sinal de descabido excesso de zelo.
Enquanto eu terminava a bica curta, de um só gole, Guilherme começou logo a fazer esquemas num guardanapo de papel. Deixei uma moeda em cima da mesa, guardei o caderno, disse-lhe «até ver» (ele não respondeu) e saí do café, ajeitando de novo a gabardina e a inclinação dos óculos escuros.
A meio da tarde, já me tinha encontrado com quase toda a gente. Faltava o Jorge («antes dos brados do fogo»), a Eduarda («ao meu coração oculto»), o Amílcar («Qualquer penumbra serviu») e a Vera («dos planos para esse reino amado»). Cada um deles saberá exactamente o que fazer, chegada a hora. O único que me preocupa é mesmo o Guilherme. Mas não penso nele agora. Não posso pensar. Agora preparo cada gesto, cada movimento, e repito o vago prenúncio negro do verso que me coube: «a glória iludida», «a glória iludida», «a glória iludida».

4.7.05

# 32

Dir-se-ia que o pulso
pousa quase delicado.

O pincel esmerou-se,
com efeito.

Nada macula a pele branca,
pura, do príncipe.

Nenhum sinal de
sangue ou espanto

em sua espada,
no brilho dos olhos.

E belo, e jovem.
O monstro.


Eucanaã Ferraz (in «Desassombro», Quasi)


«sangue ou espanto»

Falam sobre o príncipe, junto à balaustrada. Ao longe, as colinas, o céu de um azul ferrete, aves em fuga para o sul, o sopro do vento nas searas.

– Diz-me da sua coragem.
– Um dia, em plena batalha, avistou um pequeno gamo que estacara, paralisado pelo medo, a meio da planície onde estava alinhada, com as suas vestes garridas e o brilho das espadas, a infantaria inimiga. Os soldados, cegos pela raiva e pelos gritos dos comandantes, passavam pelo animal como se ele fosse invisível. E o nosso Príncipe, à distância, apercebeu-se de como tremia o pobre bicho, rodeado de fúria humana e metal. Foi então que esporeou o cavalo sem que ninguém o pudesse deter e, chegando num ápice ali onde estavam os infiéis, abriu caminho à espadeirada, chegou junto do gamo, apanhou-o sem desmontar e voltou triunfante para o lugar onde os nossos preparavam a refrega definitiva, não sem antes ser atingido por uma flecha no ombro. Entusiasmados com o heroísmo do Príncipe, vencemos a batalha e, mais tarde, a guerra. Eu próprio guardo várias cicatrizes no corpo, mas nenhuma tão formosa como a dele. Compreendes agora porque desenhamos tantos gamos nos brasões?
– Compreendo. E a sua sabedoria? Onde chega ela?
– Dizer que chega ao infinito pode parecer um exagero, mas não é. O nosso Príncipe, desde muito novo, demonstrou grande inclinação para a matemática e para todas as ciências que envolvem cálculos. Ainda petiz, com não mais de oito anos, já passava noites ao relento, com um óculo apontado aos astros, tentando estimar distâncias angulares, rotas de cometas, translações. Os mestres, quando chegou aos 15 anos, já nada tinham para lhe ensinar. Foi nessa altura que se fechou num mosteiro, a pão e água, pensando num sistema do mundo. Quem leu o seu Cosmos, um exemplar único que está guardado na Biblioteca Real, diz que explica o universo todo, da formiga à estrela, demonstrando com lógica inatacável que se trata de uma realidade sem limite. Só de imaginar tal prodígio, consta, os leigos como nós sentem vertigens. Nunca se viu nesta Terra, afirmam os mais distintos sábios europeus, inteligência tão profunda, tão abrangente.
– E é bom, este vosso Príncipe tão perfeito?
– Bondade é uma palavra criada para o descrever. Onde havia pobreza e caos, impôs a ordem e a prosperidade. Onde havia crime e perfídia, tombou a lâmina da justiça.
– Quereis dizer que não há nele a mínima sombra?
– Já vês que não. É corajoso, é sábio, é bom.
– Posso deduzir que os relatos de assassínios e outras ignomínias que lhe atribuem são mentiras sem qualquer fundamento?
– Eis uma pergunta que nem merece resposta, estrangeiro. E para a engolires servir-te-ei, com prazer, o meu melhor vinho.

Retiram-se os fidalgos do belvedere, à medida que cai a noite e a lua, muito redonda, se levanta no horizonte.

2.7.05

# 31



O TEU OLHAR

O teu olhar fixou-se
numa nuvem,
um ponto que aumentou imensamente
e te retém ao começo da noite
como se fosse a ameaça
de que talvez conheças a origem num passado
ácido de faces, posso
recomeçar quase tudo levantando
a pedra
final que nos esmaga;
há coisas
que não têm recomeço


Gastão Cruz (in «Repercussão», Assírio & Alvim)




«como se fosse uma ameaça»

1. Há uma força irremediável na voz deste homem que sente, cada vez mais próxima, a respiração da morte. «Venham todos», diz ele, rouco e magnânimo. E os filhos, espalhados pelo mundo, obedecem-lhe. Cinco percursos convergindo para o velho solar emergindo da bruma, na margem direita do Lima, casa grande e apalaçada convertida ao turismo de habitação, fonte de euros cinco meses por ano. Os filhos regressam ao lugar da infância, à silhueta de pedra desenhando-se atrás do mesmo portão ferrujento e das mesmas videiras retorcidas, memória viva dos verões que pareciam eternos mas não eram. Tantos anos depois, o patriarca disse: «Venham todos». E eles aqui estão.

2. Espalhados pelos sofás da sala principal: Carmen, Filomena, Constança, Baltazar e Olímpio. Pernas cruzadas. Cigarrilhas acesas. Mãos tensas ajeitando blusas de seda e calças de veludo côtelé. Um silêncio constrangido. O tic-tac do relógio vertical. Cinzas mortas na lareira apagada. Pela janela, entra a luz púrpura do crepúsculo. Filomena aproxima-se da varanda, abre a porta de vidro, espreita lá para fora. O jardim mantém o rigor geométrico das sebes, a elegância britânica da relva cortada muito rente. Do lado esquerdo, um caminho de terra através do pomar de laranjeiras e entre a folhagem, cheio de brilhos, o movimento lento do rio. À direita, o curral, as colmeias, uma pequena horta, o poço e o bosque de pinheiros bravos, agora estranhamente encolhido e cheio de sombras. Filomena vira-se para dentro. «Lembram-se?», pergunta. Os outros entreolham-se, como se tivessem vergonha.

3. À mesa do pequeno-almoço. Toalha de linho, chávenas de porcelana holandesa, geleia de marmelo, pão cozido em forno a lenha. Gargalhadas, gritinhos, manchas de café que alguém entornou de propósito. A euforia reverberando nos corredores. «Há quantos anos não estávamos assim, todos juntos? Vinte? Trinta?» A frieza da véspera dissolveu-se com as conversas nocturnas. Recapitularam-se já os diferentes rumos, as vidas tão díspares, reduzidas a um mero intervalo, uma pausa, uma elipse. Circulam fotos de filhos, escritórios em Nova Iorque, novos maridos, casas ainda a cheirar a tinta. Na cozinha, a mais velha das empregadas comove-se com o ruído infantil que volta a encher a casa, como no tempo em que a senhora ainda era viva e dava ordens.

4. Sobre o que o velho lhes vai dizer, paira a incógnita. Carmen e Baltazar acreditam que o pai, amolecido pela velhice, vai perdoar os desvarios da prole e recompensá-los a todos com um testamento generoso. Constança e Olímpio, por seu lado, temem um castigo tardio digno do Antigo Testamento. Só Filomena, a caçula ingénua, sorri: «Acho que ele nos chamou para isto, para estarmos juntos outra vez, para nos reencontrarmos assim».

5. No quarto sombrio, o moribundo pede para falar com a filha mais nova. Os outros saem e ele partilha por fim o segredo que lhe envenenou a vida: «Apenas tu, querida, és sangue do meu sangue». À saída, Filomena diz aos outros que o pai morreu sereno. E esconde-lhes a verdade. Dentro da malinha, inútil, o testamento que há-de rasgar mais tarde, no coração do bosque.