4.7.05

# 32

Dir-se-ia que o pulso
pousa quase delicado.

O pincel esmerou-se,
com efeito.

Nada macula a pele branca,
pura, do príncipe.

Nenhum sinal de
sangue ou espanto

em sua espada,
no brilho dos olhos.

E belo, e jovem.
O monstro.


Eucanaã Ferraz (in «Desassombro», Quasi)


«sangue ou espanto»

Falam sobre o príncipe, junto à balaustrada. Ao longe, as colinas, o céu de um azul ferrete, aves em fuga para o sul, o sopro do vento nas searas.

– Diz-me da sua coragem.
– Um dia, em plena batalha, avistou um pequeno gamo que estacara, paralisado pelo medo, a meio da planície onde estava alinhada, com as suas vestes garridas e o brilho das espadas, a infantaria inimiga. Os soldados, cegos pela raiva e pelos gritos dos comandantes, passavam pelo animal como se ele fosse invisível. E o nosso Príncipe, à distância, apercebeu-se de como tremia o pobre bicho, rodeado de fúria humana e metal. Foi então que esporeou o cavalo sem que ninguém o pudesse deter e, chegando num ápice ali onde estavam os infiéis, abriu caminho à espadeirada, chegou junto do gamo, apanhou-o sem desmontar e voltou triunfante para o lugar onde os nossos preparavam a refrega definitiva, não sem antes ser atingido por uma flecha no ombro. Entusiasmados com o heroísmo do Príncipe, vencemos a batalha e, mais tarde, a guerra. Eu próprio guardo várias cicatrizes no corpo, mas nenhuma tão formosa como a dele. Compreendes agora porque desenhamos tantos gamos nos brasões?
– Compreendo. E a sua sabedoria? Onde chega ela?
– Dizer que chega ao infinito pode parecer um exagero, mas não é. O nosso Príncipe, desde muito novo, demonstrou grande inclinação para a matemática e para todas as ciências que envolvem cálculos. Ainda petiz, com não mais de oito anos, já passava noites ao relento, com um óculo apontado aos astros, tentando estimar distâncias angulares, rotas de cometas, translações. Os mestres, quando chegou aos 15 anos, já nada tinham para lhe ensinar. Foi nessa altura que se fechou num mosteiro, a pão e água, pensando num sistema do mundo. Quem leu o seu Cosmos, um exemplar único que está guardado na Biblioteca Real, diz que explica o universo todo, da formiga à estrela, demonstrando com lógica inatacável que se trata de uma realidade sem limite. Só de imaginar tal prodígio, consta, os leigos como nós sentem vertigens. Nunca se viu nesta Terra, afirmam os mais distintos sábios europeus, inteligência tão profunda, tão abrangente.
– E é bom, este vosso Príncipe tão perfeito?
– Bondade é uma palavra criada para o descrever. Onde havia pobreza e caos, impôs a ordem e a prosperidade. Onde havia crime e perfídia, tombou a lâmina da justiça.
– Quereis dizer que não há nele a mínima sombra?
– Já vês que não. É corajoso, é sábio, é bom.
– Posso deduzir que os relatos de assassínios e outras ignomínias que lhe atribuem são mentiras sem qualquer fundamento?
– Eis uma pergunta que nem merece resposta, estrangeiro. E para a engolires servir-te-ei, com prazer, o meu melhor vinho.

Retiram-se os fidalgos do belvedere, à medida que cai a noite e a lua, muito redonda, se levanta no horizonte.

1 Comments:

Blogger Mendes Ferreira said...

este é o blog do meu espanto....venho cá sempre. sempre.sempre.

27 de fevereiro de 2006 às 19:11  

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