<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-8736564</id><updated>2011-12-30T14:44:22.654Z</updated><title type='text'>o verso dos versos</title><subtitle type='html'>Pequenas ficções a partir de grandes poemas, por José Mário Silva (texto) e José Miguel Soares (fotografia). Trabalhos publicados originalmente no suplemento DNA do «Diário de Notícias». E-mail: versodosversos@yahoo.com</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://versodosversos.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://versodosversos.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>JMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04083069720990124613</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>37</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8736564.post-112111948573091881</id><published>2005-07-05T16:02:00.000+01:00</published><updated>2005-08-01T21:28:48.043+01:00</updated><title type='text'># 33</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4595/607/1600/JTM11.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4595/607/400/JTM1.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DO QUE ME LEMBRO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Lembro-me da música dos lugares a oeste&lt;br /&gt;dos planos para esse reino amado&lt;br /&gt;que pretendemos tanto tomar de assalto&lt;br /&gt;antes dos brados do fogo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas as minhas mãos traziam já&lt;br /&gt;uma sina mais escura, nem a noite&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qualquer penumbra serviu&lt;br /&gt;ao meu coração oculto&lt;br /&gt;a miséria do Inverno&lt;br /&gt;o treino dos falcões nas escarpas&lt;br /&gt;a glória iludida&lt;br /&gt;em que se consumiu o tempo&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;José Tolentino Mendonça (in «Longe não sabia», Presença)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4595/607/1600/JTM31.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4595/607/400/JTM3.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;«a glória iludida»&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Estacionei o automóvel noutra rua, mais recatada, debaixo de uma árvore. Caminhei rente aos prédios, «por dentro da sombra mínima do meio-dia», como mais tarde escrevi no meu pequeno Moleskine. Pus os óculos escuros, baixei a cabeça num ângulo de trinta graus, fingi súbito interesse por certas montras (chapelarias, alfarrabistas, lojas de lingerie), pretexto para analisar o reflexo da rua inteira nos vidros impecavelmente polidos, controlei as sombras e os sons de passos atrás de mim, ergui o colarinho da gabardina e entrei no café.&lt;br /&gt;– Quando é que te deixas disso, pá? – perguntou o Guilherme, visivelmente incomodado com os meus tiques de espião caricatural. O Guilherme não faz ideia do que se passa na minha vida, essa é que é essa. E nem sequer vale a pena explicar-lhe. Ele nunca seria capaz de perceber.&lt;br /&gt;– Essas tuas paranóias ainda nos vão sair caras, ouviste? Isto não é nenhum jogo. Isto não é um romance do John Le Carré. Isto não é um filme do James Bond. Percebes?&lt;br /&gt;É claro que percebo. E para perceber nunca necessitei dos tremeliques dele, menos ainda dos seus pânicos, dos seus lugares-comuns e das suas redundâncias. Eu sei que o Guilherme é um tipo porreiro, um tipo voluntarioso, mas anda nisto completamente às cegas. Entrou para a organização há dois anos e julga que já sabe tudo. Não sabe. Pior: não sabe que não sabe.&lt;br /&gt;– O que é que temos desta vez? – perguntou-me ele, em voz baixa. Os dedos tamborilando no tampo da mesa, as pupilas enormes. Passei-lhe o meu Moleskine e ele procurou a página com o canto dobrado. A tinta verde, na vertical, leu a frase: «o treino dos falcões nas escarpas».&lt;br /&gt;– Verso?&lt;br /&gt;– Verso –, respondi-lhe, depois de me certificar que o empregado de bigode à Nietzsche, vagamente suspeito, estava atrás do balcão a aquecer um galão escuro. A duas mesas de distância, quatro velhas faziam crochet e discutiam com voz esganiçada a vida sentimental de uma actriz. Ninguém ouvira a nossa conversa e isso satisfazia-me, por muito que outros pudessem ver nessa satisfação um sinal de descabido excesso de zelo.&lt;br /&gt;Enquanto eu terminava a bica curta, de um só gole, Guilherme começou logo a fazer esquemas num guardanapo de papel. Deixei uma moeda em cima da mesa, guardei o caderno, disse-lhe «até ver» (ele não respondeu) e saí do café, ajeitando de novo a gabardina e a inclinação dos óculos escuros.&lt;br /&gt;A meio da tarde, já me tinha encontrado com quase toda a gente. Faltava o Jorge («antes dos brados do fogo»), a Eduarda («ao meu coração oculto»), o Amílcar («Qualquer penumbra serviu») e a Vera («dos planos para esse reino amado»). Cada um deles saberá exactamente o que fazer, chegada a hora. O único que me preocupa é mesmo o Guilherme. Mas não penso nele agora. Não posso pensar. Agora preparo cada gesto, cada movimento, e repito o vago prenúncio negro do verso que me coube: «a glória iludida», «a glória iludida», «a glória iludida».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4595/607/1600/JTM21.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4595/607/400/JTM2.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8736564-112111948573091881?l=versodosversos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://versodosversos.blogspot.com/feeds/112111948573091881/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8736564&amp;postID=112111948573091881' title='82 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/112111948573091881'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/112111948573091881'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://versodosversos.blogspot.com/2005/07/33.html' title='# 33'/><author><name>JMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04083069720990124613</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>82</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8736564.post-112111933971733433</id><published>2005-07-04T11:01:00.000+01:00</published><updated>2005-08-01T21:23:50.876+01:00</updated><title type='text'># 32</title><content type='html'>&lt;em&gt;Dir-se-ia que o pulso&lt;br /&gt;pousa quase delicado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pincel esmerou-se,&lt;br /&gt;com efeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada macula a pele branca,&lt;br /&gt;pura, do príncipe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nenhum sinal de&lt;br /&gt;sangue ou espanto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;em sua espada,&lt;br /&gt;no brilho dos olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E belo, e jovem.&lt;br /&gt;O monstro. &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eucanaã Ferraz (in «Desassombro», Quasi)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;«sangue ou espanto»&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falam sobre o príncipe, junto à balaustrada. Ao longe, as colinas, o céu de um azul ferrete, aves em fuga para o sul, o sopro do vento nas searas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Diz-me da sua coragem.&lt;br /&gt;– Um dia, em plena batalha, avistou um pequeno gamo que estacara, paralisado pelo medo, a meio da planície onde estava alinhada, com as suas vestes garridas e o brilho das espadas, a infantaria inimiga. Os soldados, cegos pela raiva e pelos gritos dos comandantes, passavam pelo animal como se ele fosse invisível. E o nosso Príncipe, à distância, apercebeu-se de como tremia o pobre bicho, rodeado de fúria humana e metal. Foi então que esporeou o cavalo sem que ninguém o pudesse deter e, chegando num ápice ali onde estavam os infiéis, abriu caminho à espadeirada, chegou junto do gamo, apanhou-o sem desmontar e voltou triunfante para o lugar onde os nossos preparavam a refrega definitiva, não sem antes ser atingido por uma flecha no ombro. Entusiasmados com o heroísmo do Príncipe, vencemos a batalha e, mais tarde, a guerra. Eu próprio guardo várias cicatrizes no corpo, mas nenhuma tão formosa como a dele. Compreendes agora porque desenhamos tantos gamos nos brasões?&lt;br /&gt;– Compreendo. E a sua sabedoria? Onde chega ela?&lt;br /&gt;– Dizer que chega ao infinito pode parecer um exagero, mas não é. O nosso Príncipe, desde muito novo, demonstrou grande inclinação para a matemática e para todas as ciências que envolvem cálculos. Ainda petiz, com não mais de oito anos, já passava noites ao relento, com um óculo apontado aos astros, tentando estimar distâncias angulares, rotas de cometas, translações. Os mestres, quando chegou aos 15 anos, já nada tinham para lhe ensinar. Foi nessa altura que se fechou num mosteiro, a pão e água, pensando num sistema do mundo. Quem leu o seu Cosmos, um exemplar único que está guardado na Biblioteca Real, diz que explica o universo todo, da formiga à estrela, demonstrando com lógica inatacável que se trata de uma realidade sem limite. Só de imaginar tal prodígio, consta, os leigos como nós sentem vertigens. Nunca se viu nesta Terra, afirmam os mais distintos sábios europeus, inteligência tão profunda, tão abrangente.&lt;br /&gt;– E é bom, este vosso Príncipe tão perfeito?&lt;br /&gt;– Bondade é uma palavra criada para o descrever. Onde havia pobreza e caos, impôs a ordem e a prosperidade. Onde havia crime e perfídia, tombou a lâmina da justiça.&lt;br /&gt;– Quereis dizer que não há nele a mínima sombra?&lt;br /&gt;– Já vês que não. É corajoso, é sábio, é bom.&lt;br /&gt;– Posso deduzir que os relatos de assassínios e outras ignomínias que lhe atribuem são mentiras sem qualquer fundamento?&lt;br /&gt;– Eis uma pergunta que nem merece resposta, estrangeiro. E para a engolires servir-te-ei, com prazer, o meu melhor vinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Retiram-se os fidalgos do belvedere, à medida que cai a noite e a lua, muito redonda, se levanta no horizonte.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8736564-112111933971733433?l=versodosversos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://versodosversos.blogspot.com/feeds/112111933971733433/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8736564&amp;postID=112111933971733433' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/112111933971733433'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/112111933971733433'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://versodosversos.blogspot.com/2005/07/32.html' title='# 32'/><author><name>JMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04083069720990124613</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8736564.post-112111930954824604</id><published>2005-07-02T22:58:00.000+01:00</published><updated>2005-08-01T21:22:19.373+01:00</updated><title type='text'># 31</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4595/607/1600/GC11.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4595/607/400/GC1.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O TEU OLHAR&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;O teu olhar fixou-se&lt;br /&gt;numa nuvem,&lt;br /&gt;um ponto que aumentou imensamente&lt;br /&gt;e te retém ao começo da noite&lt;br /&gt;como se fosse a ameaça&lt;br /&gt;de que talvez conheças a origem num passado&lt;br /&gt;ácido de faces, posso&lt;br /&gt;recomeçar quase tudo levantando&lt;br /&gt;a pedra&lt;br /&gt;final que nos esmaga;&lt;br /&gt;há coisas&lt;br /&gt;que não têm recomeço&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gastão Cruz (in «Repercussão», Assírio &amp;amp; Alvim)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4595/607/1600/GC21.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4595/607/400/GC2.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;«como se fosse uma ameaça»&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Há uma força irremediável na voz deste homem que sente, cada vez mais próxima, a respiração da morte. «Venham todos», diz ele, rouco e magnânimo. E os filhos, espalhados pelo mundo, obedecem-lhe. Cinco percursos convergindo para o velho solar emergindo da bruma, na margem direita do Lima, casa grande e apalaçada convertida ao turismo de habitação, fonte de euros cinco meses por ano. Os filhos regressam ao lugar da infância, à silhueta de pedra desenhando-se atrás do mesmo portão ferrujento e das mesmas videiras retorcidas, memória viva dos verões que pareciam eternos mas não eram. Tantos anos depois, o patriarca disse: «Venham todos». E eles aqui estão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. Espalhados pelos sofás da sala principal: Carmen, Filomena, Constança, Baltazar e Olímpio. Pernas cruzadas. Cigarrilhas acesas. Mãos tensas ajeitando blusas de seda e calças de veludo côtelé. Um silêncio constrangido. O tic-tac do relógio vertical. Cinzas mortas na lareira apagada. Pela janela, entra a luz púrpura do crepúsculo. Filomena aproxima-se da varanda, abre a porta de vidro, espreita lá para fora. O jardim mantém o rigor geométrico das sebes, a elegância britânica da relva cortada muito rente. Do lado esquerdo, um caminho de terra através do pomar de laranjeiras e entre a folhagem, cheio de brilhos, o movimento lento do rio. À direita, o curral, as colmeias, uma pequena horta, o poço e o bosque de pinheiros bravos, agora estranhamente encolhido e cheio de sombras. Filomena vira-se para dentro. «Lembram-se?», pergunta. Os outros entreolham-se, como se tivessem vergonha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. À mesa do pequeno-almoço. Toalha de linho, chávenas de porcelana holandesa, geleia de marmelo, pão cozido em forno a lenha. Gargalhadas, gritinhos, manchas de café que alguém entornou de propósito. A euforia reverberando nos corredores. «Há quantos anos não estávamos assim, todos juntos? Vinte? Trinta?» A frieza da véspera dissolveu-se com as conversas nocturnas. Recapitularam-se já os diferentes rumos, as vidas tão díspares, reduzidas a um mero intervalo, uma pausa, uma elipse. Circulam fotos de filhos, escritórios em Nova Iorque, novos maridos, casas ainda a cheirar a tinta. Na cozinha, a mais velha das empregadas comove-se com o ruído infantil que volta a encher a casa, como no tempo em que a senhora ainda era viva e dava ordens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. Sobre o que o velho lhes vai dizer, paira a incógnita. Carmen e Baltazar acreditam que o pai, amolecido pela velhice, vai perdoar os desvarios da prole e recompensá-los a todos com um testamento generoso. Constança e Olímpio, por seu lado, temem um castigo tardio digno do Antigo Testamento. Só Filomena, a caçula ingénua, sorri: «Acho que ele nos chamou para isto, para estarmos juntos outra vez, para nos reencontrarmos assim».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5. No quarto sombrio, o moribundo pede para falar com a filha mais nova. Os outros saem e ele partilha por fim o segredo que lhe envenenou a vida: «Apenas tu, querida, és sangue do meu sangue». À saída, Filomena diz aos outros que o pai morreu sereno. E esconde-lhes a verdade. Dentro da malinha, inútil, o testamento que há-de rasgar mais tarde, no coração do bosque.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4595/607/1600/GC31.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4595/607/400/GC3.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8736564-112111930954824604?l=versodosversos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://versodosversos.blogspot.com/feeds/112111930954824604/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8736564&amp;postID=112111930954824604' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/112111930954824604'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/112111930954824604'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://versodosversos.blogspot.com/2005/07/31.html' title='# 31'/><author><name>JMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04083069720990124613</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8736564.post-111755866558237805</id><published>2005-05-31T17:31:00.000+01:00</published><updated>2005-05-31T17:57:45.623+01:00</updated><title type='text'># 30</title><content type='html'>&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/OP1.jpg" width="400" height="400"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CERTEZA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Se é real a luz branca&lt;br /&gt;desta lâmpada, real&lt;br /&gt;a mão que escreve, são reais&lt;br /&gt;os olhos que olham o escrito?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duma palavra à outra&lt;br /&gt;o que digo desvanece-se.&lt;br /&gt;Sei que estou vivo&lt;br /&gt;entre dois parênteses.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Octavio Paz (&lt;em&gt;in&lt;/em&gt; «Antologia Poética», trad. de Luís Pignatelli, Dom Quixote)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/OP2.jpg" width="400" height="400"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;«Se é real a luz branca»&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(O que vejo, escrevo. O que sinto, escrevo. O que penso, escrevo. O que respiro, escrevo. É esta a minha existência. Escrever. É esta a minha tortura, a minha alegria, a minha maldição.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só a luz branca é real. O seu esplendor. A sua cegueira. Tudo o resto é incerto. Mais incerto ainda, eu. À minha volta um espaço sem dimensões, opaco, turvo, negro para dentro como a água esquecida no fundo de um poço. O real é a luz branca que atravessa o corpo que não tenho, é a tinta a espalhar-se. Não vou descrever o indescritível. Olho apenas. Penso. Escrevo. Do lado de lá, quer dizer, do outro lado disto que não sei o que é, há formas que se movimentam. Sombras longas. Quedas. Alucinações. Um rectângulo vagamente azul pode ser uma piscina. Sei o que é uma piscina. Lembro-me do que é uma piscina, uma memória anterior a isto, a esta luz branca tão real e mortífera. Lembro-me de todas as piscinas em que mergulhei e ainda de algumas em que não mergulhei. Os pequenos ladrilhos quadrangulares com dois tons de azul, a água agitando-se à superfície com o arrepio trazido pela brisa da tarde, a claridade volátil que cintila como se irradiasse lá do fundo aquático, o cheiro a cloro, o toque frio das escadas de alumínio. De repente estou a escrever tudo o que sei sobre piscinas. O que relembro, escrevo. A piscina onde morreu afogada a única mulher que amei. Uma piscina em forma de coração, nas traseiras de um hotel piroso. Uma piscina vazia num filme de Tarkovski. Uma piscina cheia num quadro de David Hockney. Uma final olímpica. Agora mergulho mentalmente na água e vou escrevendo, aqui, esse mergulho que acontece lá, na memória, gesto a gesto, os pulmões em brasa. Mergulho a pique, cada vez mais fundo. Sinto o ar preso na garganta, os olhos aflitos. A piscina não acaba, não tem fim. A piscina dissolveu-se e agora é só água. Continuo a mergulhar, cada vez mais fundo. A escuridão. O silêncio. O corpo que não tenho adormece. O que adormece em mim, escrevo. Coração, boca, passado. Adormeço nas águas impossíveis. E depois a luz branca, novamente. Não saí do mesmo lugar. Está tudo na mesma. A cegueira. O espaço opaco. Do outro lado, sombras longas, quedas, alucinações. Um paralelepípedo vagamente amarelo pode ser uma casa. Sei o que é uma casa. Lembro-me do que é uma casa, uma memória anterior a isto, a esta luz branca tão real e mortífera. Gostava de acreditar que há uma possibilidade de fuga, a hipótese de um rasgão nisto que não sei o que é. Mas os meus olhos já desistiram, os meus olhos são agora uma lâmina inútil. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(O que vejo, escrevo. O que sinto, escrevo. O que penso, escrevo. O que respiro, escrevo. É esta a minha existência. Escrever. É esta a minha tortura, a minha alegria, a minha maldição.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/OP3.jpg" width="400" height="400"&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8736564-111755866558237805?l=versodosversos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://versodosversos.blogspot.com/feeds/111755866558237805/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8736564&amp;postID=111755866558237805' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/111755866558237805'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/111755866558237805'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://versodosversos.blogspot.com/2005/05/30.html' title='# 30'/><author><name>JMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04083069720990124613</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8736564.post-111754842814455612</id><published>2005-05-29T14:43:00.000+01:00</published><updated>2005-06-01T09:24:21.370+01:00</updated><title type='text'># 29</title><content type='html'>&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/AO1.jpg" width="400" height="400"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A VIDA DE FAMÍLIA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;a vida de família tornou-se bem difícil&lt;br /&gt;com as contas a pagar os filhos a fazer&lt;br /&gt;ou a evitar a ranhoca a limpar&lt;br /&gt;a vida de família não tem razão de ser&lt;br /&gt;não tem ração de querer&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a vida de família jangada da medusa&lt;br /&gt;é o tablado da antropofagia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mas ficam os retratos cristo virgem maria&lt;br /&gt;e os sobreviventes, que vão chupando os dentes&lt;/em&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Alexandre O’Neill (&lt;em&gt;in&lt;/em&gt; «Poesias Completas», Assírio e Alvim)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/AO2.jpg" width="400" height="400"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;«a vida de família jangada da medusa»&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu nome é Pedro e tenho oito anos. Estou sentado no segundo degrau das escadas do meu prédio, a escrever num caderno com linhas. A minha professora disse-me para escrever durante as férias tudo o que fosse acontecendo à minha volta e é isso mesmo que eu faço. Olho, oiço e escrevo. O meu pai é que não gosta lá muito da ideia. Este miúdo devia era ir jogar à bola com os outros miúdos, a ver se aprende a ser homenzinho, em vez de se fechar no quarto a escrevinhar horas a fio naquele caderno, diz ele. E nessas alturas a minha mãe fica sempre com cara de zanga e as sobrancelhas assim todas esticadas para cima. Diz ela, deixa-o em paz, Tó Zé, não vês que o nosso filho é dado aos estudos, assim pelo menos pode ser que saia menos burro do que o pai e sempre nos poupa o dinheiro que os outros miúdos gastam por causa dos vidros partidos. Depois continuam a discutir por outras razões lá deles e eu já não tenho paciência para os ouvir. Vou buscar uma caneta à sala, onde a minha irmã mais nova e o meu avô continuam pregados à TV, a ver um programa qualquer com muitas bailarinas e um apresentador de sorriso estúpido que faz uma coisa esquisita com a voz, e saio para o quintal com o meu caderno. Debaixo da árvore dos maracujás, que a minha avó plantou há muito tempo depois de uma viagem ao Brasil, mas que nunca deu frutos e se calhar não é uma árvore dos maracujás coisa nenhuma, eu cá acho que é uma árvore rara da Amazónia que a minha avó trouxe numa mala muito grande, às escondidas, eu sento-me debaixo dessa árvore, rara ou dos maracujás, não interessa, e fico na sombra a olhar para as páginas brancas do caderno de linhas e há manchas de luz que se agitam sobre o papel. É então que me ponho a recordar tudo o que acontece dentro da nossa casa e depois transformo essas conversas, esses gestos, esses barulhos, em palavras que desenho aqui muito devagarinho, arredondando a letra como pede a professora. Agora o caderno está quase a chegar ao fim e as férias também, o pai prometeu que ia connosco ao Jardim Zoológico esta tarde, mas a minha irmã preferiu ficar a ver desenhos animados ao lado do meu avô, que dorme e se baba no sofá, com a placa dos dentes fora do sítio, o pai prometeu-me e eu quero muito desenhar um elefante, um crocodilo, uma cobra venenosa e um leão no meu caderno, mas o pai nunca mais desce, está fechado na cozinha há três horas com a minha mãe e eu olho o postal que um dia a minha tia mandou de França, é um quadro que está no museu do Louvre, acho que se escreve assim, uma jangada cheia de pessoas aflitas que querem chamar a atenção de um barco ao longe mas o barco não vê essas pessoas, é assim a nossa família, disse-me a tia, e agora vejo a mãe ao cimo das escadas, com os olhos vermelhos, o pai saiu pelas traseiras e eu já sei que não vai haver Jardim Zoológico para ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/AO3.jpg" width="400" height="400"&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8736564-111754842814455612?l=versodosversos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://versodosversos.blogspot.com/feeds/111754842814455612/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8736564&amp;postID=111754842814455612' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/111754842814455612'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/111754842814455612'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://versodosversos.blogspot.com/2005/05/29.html' title='# 29'/><author><name>JMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04083069720990124613</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8736564.post-111754747585018626</id><published>2005-05-27T16:35:00.000+01:00</published><updated>2005-06-01T09:22:56.933+01:00</updated><title type='text'># 28</title><content type='html'>&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/AA1.jpg" width="400" height="400"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Acordar de madrugada&lt;br /&gt;Pois a alegria sufoca,&lt;br /&gt;E olhar pela vigia&lt;br /&gt;Para as vagas de cor verde,&lt;br /&gt;Ou no convés com mau tempo&lt;br /&gt;Gasalhada em brandas peles,&lt;br /&gt;Ouvir o bater da máquina,&lt;br /&gt;E não pensar em nada,&lt;br /&gt;Mas, pressentindo o encontro&lt;br /&gt;Com esse que se tornou minha estrela,&lt;br /&gt;Pelas gotas salgadas e o vento&lt;br /&gt;Em cada hora rejuvenescer.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anna Akhmatova (&lt;em&gt;in&lt;/em&gt; «Poemas», tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Vadim Dmitriev, Relógio d’Água)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/AA2.jpg" width="400" height="400"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;«E não pensar em nada,»&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher dorme. Um corpo sob os lençóis, belo e precário. A respiração. Lenta, profunda. Os dedos da mão estremecem. Os lábios murmuram algo incompreensível. A luz que entra pela vigia é mínima. Luz da aurora. Luz ainda cheia da escuridão da noite. Luz de estrelas mortas e nuvens púrpura, feridas pelo sol que se levanta. Tão humilde, esta claridade. Ei-la que progride sobre os objectos do quarto. A carpete vermelha com cornucópias douradas. O jornal de há cinco dias, sobre a mesinha de vidro. A cadeira de braços. O vestido verde sobre a cadeira de braços. O camafeu com um rosto antigo, pregado ao vestido verde, sobre o lugar do coração. A claridade inunda o camarote. Acende o contorno das coisas. Torna concreta a manhã. E invade também o sonho da mulher que dorme. Sonho a preto e branco, sufocante. Há brumas dentro do sonho. Ruas escuras. Estações onde os comboios apitam numa estridência demasiado aguda. A luz varre a praça onde a mulher, dentro do sonho, procurou refúgio, a um canto, numa pequena esplanada, à sombra da grande basílica. A mulher lê uma carta. Chora. As palavras são do homem que atravessa agora planícies que ela nunca verá. Ela imagina o homem dentro do comboio. A cabeça encostada ao vidro frio, a imaginar as lágrimas dela, numa praça qualquer, lendo as palavras que escreveu à pressa no quartel, antes da última saída, antes do último encontro. A mulher pára de ler a carta. Olha para a praça, onde entretanto pousaram milhares de albatrozes. As grandes asas batendo umas nas outras. Os gritos lancinantes. E de repente cresce uma histeria de bicos assassinos. As penas brancas manchadas de sangue. A praça a pulsar com uma energia malsã. A claridade exterior a invadir o preto e branco do sonho. Como se o sol estivesse agora a rasar os telhados. A claridade exterior a tornar vermelhas as manchas de sangue, a dar consistência ao tumulto das aves e à angústia da mulher que viu partir o amante, talvez para sempre. A mulher do sonho fecha os olhos quando a mulher que dorme abre os olhos. É a mesma mulher debaixo da mesma luz. "O que foi isto?", murmura. Ergue-se cambaleando, o corpo ainda trôpego de sono. Veste um roupão de seda. Lava o rosto com água de rosas. A vigia é um círculo de mar na parede do quarto. Aproxima-se. Espreita lá para fora. O mar está agitado. Vagas de coroa branca, muito verdes. O horizonte íngreme, à mercê das inclinações do navio. Uma bóia vermelha, ao longe, desaparecendo aos poucos. O sonho, incompreensível, ainda paira na cabeça da mulher. "O que foi aquilo?" A angústia espalha-se como uma mancha dentro do corpo, devorando a alegria de reencontrar o seu amor, dentro de dois dias, no outro lado do oceano. "Que sinais são estes?", pergunta-se a mulher. E um albatroz desce, súbito, até à flor das águas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/AA3.jpg" width="400" height="400"&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8736564-111754747585018626?l=versodosversos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://versodosversos.blogspot.com/feeds/111754747585018626/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8736564&amp;postID=111754747585018626' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/111754747585018626'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/111754747585018626'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://versodosversos.blogspot.com/2005/05/28.html' title='# 28'/><author><name>JMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04083069720990124613</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8736564.post-111754718629077257</id><published>2005-05-26T16:57:00.000+01:00</published><updated>2005-06-01T09:14:22.046+01:00</updated><title type='text'># 27</title><content type='html'>&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/AP1.jpg" width="400" height="400"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;surpreendente&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;de repente no meio da rua&lt;br /&gt;não se saber onde se está&lt;br /&gt;de repente no meio da rua&lt;br /&gt;não se saber quem se é&lt;br /&gt;não encontrar o bilhete&lt;br /&gt;de identidade nem a chave&lt;br /&gt;de casa nem o dinheiro nem&lt;br /&gt;conhecer os sapatos que&lt;br /&gt;se trazem nem as calças e&lt;br /&gt;a camisa eventualmente&lt;br /&gt;o casaco nem compreender&lt;br /&gt;a língua que falam todos&lt;br /&gt;os que de roda se puseram&lt;br /&gt;empurrando-se para ver &lt;br /&gt;melhor até chegar a polí&lt;br /&gt;cia e encarregar-se de tu&lt;br /&gt;do o resto quer dizer: de&lt;br /&gt;fazer o transporte e de &lt;br /&gt;abrir e fechar a porta da&lt;br /&gt;cela branca branca vazia&lt;br /&gt;donde nunca mais se sairá&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alberto Pimenta (&lt;em&gt;in&lt;/em&gt; «Obra Quase Completa», Fenda)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/AP2.jpg" width="400" height="400"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;«de repente no meio da rua»&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo começou a complicar-se quando publiquei o meu quarto romance e a crítica decidiu arrasá-lo sem dó nem piedade. O meu quarto romance, talvez se recordem, era aquele com os círculos do inferno na capa e, lá dentro, uma parábola sobre o que se passara na minha cabeça depois do sucesso inesperado do terceiro romance. Vocês lembram-se: os prémios, as mulheres, as drogas, a queda com estilo numa depressão antológica. Lembram-se de certeza. Fui internado cinco vezes, tentei suicidar-me com um golpe no pescoço, fiz aquela cena lamentável na varanda do hotel (nu sob os holofotes) e finalmente matei com as minhas próprias mãos, a murro, o anormal de óculos redondos que me chamou, com todas as letras, “aforista decadente”. &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;[Não, não foi nada assim. Foi mais para trás. &lt;em&gt;Rewind&lt;/em&gt;.]&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;A loucura bateu-me à porta numa segunda-feira e trazia flores. Gladíolos. A loucura tinha nome de mulher (Glória) e um corpo &lt;em&gt;in excelsis&lt;/em&gt;. Foi ela que dactilografou o meu quarto romance, fechados os dois num hotel em frente à praia, perto de Rimini, alimentados apenas a ostras e champanhe (como Karen Blixen no fim da vida). Ostras, champanhe e sexo. A máquina de escrever. Os dedos dela. O meu inferno mental a deslizar pela voz em ruínas até aos dedos dela, os dedos dela a baterem nas teclas como na minha pele exausta. E um dia partiu, sem dizer uma palavra, deixando atrás de si, impecavelmente ordenadas sobre a mesa de cabeceira, as 358 páginas de requintada perfídia, de insensato derrame barroco, de puro delírio egocêntrico, enfim, o espelho onde pude contemplar por fim o meu rosto disforme.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;[Também não foi bem isto, não foi bem isto.]&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Certa tarde estava a assinar autógrafos numa feira do Livro de província, mecanicamente, aborrecido de morte, quando ela se pôs na fila. Ela, Glória, tanto tempo depois. Quando chegou a sua vez, estendeu-me um volume de capa negra, com o título do meu quinto romance, o livro que nunca cheguei a começar. Lá dentro, páginas brancas. As mãos dela, cruéis. Unhas escarlate.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;[Mentiras que não ardem. Mentiras que não se podem rasgar.]&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Tantas máscaras no chão do quarto. Os lençóis vazios. O frio. O sangue na banheira cheia de água quente. Quem é que morreu, afinal, no dia em que morreste?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;[Volto ao princípio, como se houvesse um princípio.]&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;A preparação metódica de um suicídio. Era essa a história do quarto romance. A preparação metódica de um suicídio. O suicídio do narrador nos círculos infernais da sua consciência. O meu suicídio. Tudo bem explicadinho. Tudo verdadeiro. Tudo falso.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;[&lt;em&gt;Fast forward&lt;/em&gt;. &lt;em&gt;Stop&lt;/em&gt;. &lt;em&gt;Fast forward&lt;/em&gt;. Fita enrolada.]&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Inicio agora, mais tranquilo, o quinto romance. A história de como escapei da literatura, ileso. Uma bala de cinza. As mãos em fogo. O vento (o seu silêncio) apagando todos os indícios do crime. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/AP3.jpg" width="400" height="400"&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8736564-111754718629077257?l=versodosversos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://versodosversos.blogspot.com/feeds/111754718629077257/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8736564&amp;postID=111754718629077257' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/111754718629077257'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/111754718629077257'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://versodosversos.blogspot.com/2005/05/27.html' title='# 27'/><author><name>JMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04083069720990124613</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8736564.post-111754679260340954</id><published>2005-05-24T20:32:00.000+01:00</published><updated>2005-06-01T09:12:56.506+01:00</updated><title type='text'># 26</title><content type='html'>&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/JMFJ1.jpg" width="400" height="400"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Os tristes heróis.&lt;br /&gt;Têm lojas. Outros comércios.&lt;br /&gt;Cortam os dedos com a faca da cozinha.&lt;br /&gt;Sentem-se mal.&lt;br /&gt;Falta-lhes a imediata compreensão&lt;br /&gt;outros heróis mais perto das estrelas&lt;br /&gt;e do azar&lt;br /&gt;preso numa lata de conserva.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Che cosa è bello?&lt;br /&gt;Che cosa sono io?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Entram celestes na primeira aventura.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João Miguel Fernandes Jorge (&lt;em&gt;in&lt;/em&gt; «Antologia Poética – 1971-1994», Presença)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/JMFJ2.jpg" width="400" height="400"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;«outros heróis mais perto das estrelas»&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando Mariana lhe abriu a porta, Gustavo inquietou-se com a visão do dedo ferido. Era uma coisa estranha ver aquele polegar assim, como uma múmia gorda, enrolado às três pancadas em gaze e ligadura. Logo aquele. O da mão esquerda.&lt;br /&gt;— Então, querida, o que foi isso?&lt;br /&gt;Mariana não respondeu. Baixou os olhos, compôs o cabelo com a outra mão e voltou para a cozinha. Gustavo ficou imóvel, como se tivesse medo de entrar na sua própria casa. Lá dentro ouvia-se o som da loiça a bater na loiça. Pelo corredor avançava o cheiro do refogado e o aroma dos bifes fritos com alho. Gustavo deu um passo e pendurou o casaco no cabide. Depois largou as chaves sobre o aparador do &lt;em&gt;hall&lt;/em&gt;, o abominável aparador dos torcidos e do espelho encastrado. Acendeu a luz fraquinha da casa-de-banho, abriu a torneira da água quente e demorou-se a ensaboar as mãos sujas com a tinta  do jornal da manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Aquela família da casa verde, junto ao jardim, vai deixar o bairro. — disse Mariana, com voz neutra, enquanto descascava uma laranja.&lt;br /&gt;— Pena. Já vai sendo raro encontrar pessoas assim, tão prestáveis, tão educadas. Como é que era mesmo o apelido deles? Oliveira, parece-me. Ou Pereira, não sei bem.&lt;br /&gt;— Moreira.&lt;br /&gt;— Isso. Os Moreira. Simpatizava com eles. Gente simples, sem manias. Sabes por que razão decidiram partir?&lt;br /&gt;Gustavo servia-se de queijo. Uma fatia triangular de Camembert, umas aparas de Roquefort, tiras fininhas de &lt;em&gt;chèvre&lt;/em&gt;. Mariana mastigava os gomo sumarentos como se fosse um autómato.&lt;br /&gt;— Não. Não sei. Coisas de família, quase de certeza. Chatices.&lt;br /&gt;— É pena.&lt;br /&gt;— É.&lt;br /&gt;Um prato cheio de caroços, outro cheio de migalhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cinco dias depois, no escritório, enquanto fazia encomendas, Gustavo sentiu uma dor de cabeça muito forte. Decidiu apanhar ar, beber um café. No outro canto do balcão estava o Sr. Moreira. Pensou interpelá-lo mas percebeu que a altura não era a melhor. Ele lia uma carta e só a custo conseguia evitar o choro. No momento em que começava a sentir comiseração, Gustavo identificou, mesmo à distância de uns quantos metros, a caligrafia da sua mulher. Enfurecido, teve o impulso de se levantar e pedir explicações mas depois parou, fechou os olhos, respirou fundo e saiu de mansinho, sem ser visto pelo outro.&lt;br /&gt;Nessa tarde, Mariana voltou a abrir a porta da rua. À sua frente, cheio de raiva e disposto a tudo, Gustavo. Ela olhou-o nos olhos. Ele tremia. &lt;br /&gt;— Então, amor, estás com frio? — perguntou Mariana, a sorrir. Um sorriso puro, igual aos sorrisos dos primeiros tempos. &lt;br /&gt;Aturdido, ele só conseguiu reparar no polegar finalmente curado, mas com uma pequena cicatriz. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/JMFJ3.jpg" width="400" height="400"&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8736564-111754679260340954?l=versodosversos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://versodosversos.blogspot.com/feeds/111754679260340954/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8736564&amp;postID=111754679260340954' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/111754679260340954'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/111754679260340954'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://versodosversos.blogspot.com/2005/05/26.html' title='# 26'/><author><name>JMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04083069720990124613</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8736564.post-111348239018311219</id><published>2005-04-14T13:35:00.000+01:00</published><updated>2005-04-14T13:39:50.186+01:00</updated><title type='text'># 25</title><content type='html'>&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/SMBA1.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cidade dos Outros&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Uma terrível atroz imensa&lt;br /&gt;Desonestidade&lt;br /&gt;Cobre a cidade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há um murmúrio de combinações&lt;br /&gt;Uma telegrafia&lt;br /&gt;Sem gestos sem sinais sem fios&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mal procura o mal e ambos se entendem&lt;br /&gt;Compram e vendem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E com um sabor a coisa morta&lt;br /&gt;A cidade dos outros&lt;br /&gt;Bate à nossa porta&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Sophia de Mello Breyner Andresen (&lt;em&gt;in&lt;/em&gt; «Geografia», Ática)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/SMBA2.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;«O mal procura o mal e ambos se entendem»&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheguei a Gatarnay numa manhã escura de Novembro. As nuvens, muito baixas, cobriam a cidade com uma espécie de manto plúmbeo. Afastando as pesadas cortinas que tapavam as janelas da liteira, carregada em esforço por oito homens, a minha primeira visão foi essa: um céu tenebroso que parecia prestes a desabar, pairando (cheio de relâmpagos) poucos palmos acima dos pináculos de Gatarnay. Ao conferir o meu caderno — onde apontei, durante cinco meses, as idiossincrasias de urbes bizarras (à imagem, admito, dos inventários de Marco Polo nos domínios do imperador mongol) —, desfilaram em frente aos meus olhos imagens poderosas: a praça central de Xinzonu (com os seus palácios de gelo fino, reconstruídos todas as manhãs); o cais semi-circular de Lartúria (onde só acostam os navios feitos com o molde daquela curva); a rede de avenidas diagonais sobrepostas de Blokengast (labirinto de asfalto com 36 níveis, gerido por um comité de mil matemáticos); o plano ambiental extremo levado à prática em Telicusam (onde as casas foram abandonadas, a natureza invadiu tudo e os homens vivem agora nas árvores, alimentando-se de frutos e pássaros); o inferno de Dunwai, cidade-forno em que todos os habitantes trabalham em metalurgias, sob um calor que nunca baixa dos 45 graus; ou a alegria que se cola à nossa pele nos bairros desordenados de Valupi (a cidade utópica onde cada um só faz o que quer, quando quer e como quer, numa improvável harmonia que obedece às leis do caos e do acaso).&lt;br /&gt;Que tipo de surpresas me reservaria Gatarnay? À distância, dentro da liteira, pressenti que seriam tudo menos agradáveis. Aquele céu funesto, pus-me a imaginar, só podia ser um reflexo da maldade que consumia o núcleo histórico da povoação, esse amontoado de casas lúgubres escondido atrás das espessas muralhas e das ameias pontiagudas. Ao entrar na cidade, através de uns majestosos portões de cobre, logo percebi que a minha intuição estava correcta. Em cada esquina, em cada beco, em cada parapeito, em cada sombra, havia um assassino ou um vigarista ou um conspirador. A atmosfera estava saturada de boatos, de comentários acintosos, de calúnias, de blasfémias, de imprecações. A todo o instante se ouviam gritos de vingança e de raiva, a toda a hora se viam cadáveres lançados à rua, atentados, traições. «Onde é que vim parar?», perguntei a um velho mendigo, encolhido junto a uma sarjeta. «A uma cidade-fantasma», respondeu ele. «Aqui não vive ninguém, isto que vê são projecções mentais, uma irradiação da maldade que transborda do resto do mundo e que...» Não acabou a frase, trespassado por uma lança vinda não sei de onde. Era óbvio que chegara a hora de fugir dali.&lt;br /&gt;Infelizmente, do alto das muralhas, alguém assassinara os carregadores da liteira. Tive que fazer o resto da viagem a pé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/SMBA3.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8736564-111348239018311219?l=versodosversos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://versodosversos.blogspot.com/feeds/111348239018311219/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8736564&amp;postID=111348239018311219' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/111348239018311219'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/111348239018311219'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://versodosversos.blogspot.com/2005/04/25.html' title='# 25'/><author><name>JMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04083069720990124613</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8736564.post-111348211410430453</id><published>2005-04-11T17:49:00.000+01:00</published><updated>2005-04-14T13:49:59.193+01:00</updated><title type='text'># 24</title><content type='html'>&lt;img height="400" src="http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/JMS1.jpg" width="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;AI&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:-3;"&gt;&lt;div align="right"&gt;Another round for my dark companion.&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:-3;"&gt;&lt;div align="right"&gt;Tuxedomoon&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Aos poucos um corpo, como diz o outro,&lt;br /&gt;vai ficando sozinho, bate com as portas,&lt;br /&gt;recua e recua. Quando dá por isso,&lt;br /&gt;já não sabe dançar, conta as estações&lt;br /&gt;pela volta do correio. Assim se começa&lt;br /&gt;a olhar para trás, por cima do ombro,&lt;br /&gt;pegando nas coisas pelo lado mais fraco.&lt;br /&gt;Pagamos o preço de querer dissecar,&lt;br /&gt;fibra por fibra, em prol da ciência,&lt;br /&gt;o músculo baixo, descoordenado,&lt;br /&gt;a que chamamos ai coração ai.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;José Miguel Silva (&lt;em&gt;in&lt;/em&gt; «Vista para um Pátio seguido de Desordem», Relógio d’Água)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img height="400" src="http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/JMS2.jpg" width="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;«a olhar para trás, por cima do ombro»&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Disse-me: «A dada altura, é preciso saber parar.» Era fácil para ele, nessa altura, um desprendimento assim. Eu sei que era. Tinha os gestos certos, a pose certa, as palavras certas, as certezas certas. Exibia, ufano, a sua superioridade: família, amor, dinheiro, um disco quase a chegar à platina, reconhecimento público (isso a que os néscios chamam &lt;em&gt;fama&lt;/em&gt;), uma vida cor-de-rosa avançando em linha recta sobre carris dourados, sem o mínimo atrito. E sorria, o sacana, um sorriso onde cabia toda a pusilânime condescendência com que me esmagava.&lt;br /&gt;Estávamos sentados no bar do velho Astoria, bebericando cocktails com mais cores garridas do que álcool e David, com a dúbia autoridade de irmão mais velho, dava-me lições de moral. Lições de moral, caralho. A_mim só me apetecia rebentar-lhe a boca, estoirar-lhe as ventas presumidas de cabrão a abarrotar de estúpidos complexos de culpa, ver sangue a jorrar daquele sobrolho sempre arqueado e pedante, sangue a pingar sobre o balcão de madeira polida, sobre o caríssimo casaco de caxemira e também sobre os irritantes sapatos de ponta fina, à maricas.&lt;br /&gt;Ele falava, falava, falava, olhando-me de lado como quando éramos putos e nos escondíamos atrás dos barrações da fábrica de cortiça, a fumar cigarros espanhóis, intragáveis e sulforosos, depois das aulas, antes de voltarmos para casa. O olhar era o mesmo. Um olhar que dizia: «Nem sei por que raio estou aqui contigo agora, tu nunca merecerás que te olhe de frente, como um igual». Foi há 30 anos, tinha eu 11 e ele 16. Já um abismo a separar-nos. Um abismo cheio de ressentimento, remorsos, fel.&lt;br /&gt;«Queres um Cohiba?», perguntou com aqueles dentes demasiado brancos, reconstruídos por um médico de celebridades. Os dentes branquíssimos que aparecem em grande plano no &lt;em&gt;videoclip&lt;/em&gt; do último êxito: «The way I love you tonight» — balada pirosa em que ele murmura a letra com uma voz à la Leonard Cohen, rodeado de adolescentes loiras, a ensaiar ridículos passinhos de rumba no terraço de um arranha-céus, talvez em Manhattan. «Cabrão, cabrão, cabrão», repeti mentalmente, enquanto aceitava o charuto que me estendia, ainda embrulhado, como que a medo.&lt;br /&gt;O meu fumo misturou-se com o fumo dele. Ilusória irmandade a desfazer-se, em volutas etéreas, já perto do tecto. «Olha para trás», dizia-me. «Ainda vais a tempo». Os prospectos da clínica de reabilitação, com fotos de piscinas e relvados. «Eu só quero ajudar». A cinza do Cohiba no cinzeiro transparente. O sorriso branco. O olhar a dizer: «Já lixaste a tua vida vezes de mais, és uma vergonha, um traste, mas eu quero salvar-te para me sentir melhor». O meu punho fechado, nós dos dedos prestes a libertar toda a raiva, a súbita memória das suas fragilidades (tão escondidas). Poderia dar-lhe o soco que nunca lhe dei. Mas já não valia a pena. Apaguei o charuto no copo dele. E fui-me embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img height="400" src="http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/JMS3.jpg" width="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8736564-111348211410430453?l=versodosversos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://versodosversos.blogspot.com/feeds/111348211410430453/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8736564&amp;postID=111348211410430453' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/111348211410430453'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/111348211410430453'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://versodosversos.blogspot.com/2005/04/24.html' title='# 24'/><author><name>JMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04083069720990124613</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8736564.post-111339369802319815</id><published>2005-04-09T12:54:00.000+01:00</published><updated>2005-04-13T13:01:38.026+01:00</updated><title type='text'># 23</title><content type='html'>&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/WBY1.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;COM O TEMPO A SABEDORIA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Embora muitas sejam as folhas, a raiz é só uma;&lt;br /&gt;Ao longo dos enganadores dias da mocidade,&lt;br /&gt;Oscilaram ao sol minhas folhas, minhas flores;&lt;br /&gt;Agora posso murchar no coração da verdade.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt; W. B. Yeats (&lt;em&gt;in&lt;/em&gt; «Poemas», tradução de José Agostinho Baptista, Assírio &amp; Alvim)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/WBY2.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;«Embora muitas sejam as folhas, a raiz é só uma;»&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Meu amor,&lt;br /&gt;esta é provavelmente a última carta que te escrevo. Estou muito cansado, muito gasto, muito triste. E, sabes, nos últimos dias voltei a sentir a presença da morte em cada gesto. Não te sei explicar bem isto — a clareza dos meus raciocínios, essa lucidez que tanto elogiavas, já não é o que era —, mas sinto como que um cerco invisível, um prenúncio do meu desaparecimento em cada coisa que me rodeia: os livros escurecidos pelo pó de décadas, as alfaias já sem préstimo a um canto do celeiro, o cata-vento enferrujado no topo da igreja, as maçãs que a Mrs. Abercombrie me trouxe há duas semanas (agora podres), o meu rosto cheio de rugas no espelho baço e rachado que ainda guardo na mesa de cabeceira. O teu espelho. O espelho que me ofereceste há tanto tempo. O espelho onde contemplaste a tua gloriosa juventude.&lt;br /&gt;Às vezes pergunto-me se ainda te lembrarás desses dias. Lembras-te, Annie? Eu lembro-me. Se fechar os olhos, estes olhos quase extintos, vejo a tua silhueta caminhando à minha frente, um contorno a dar sentido à paisagem. Vejo a estrada cheia de lama, o muro de pedra a suster o bosque agreste, tu girando de repente sobre ti mesma, sorrindo, as mãos cheias de framboesas, colhidas quando eu não estava a olhar. Lembro-me do sabor das framboesas, sabor acre dos beijos presos por tão pouco. Lembro-me dos teus cabelos no meu rosto e da cor vermelha do céu. Lembras-te, Annie? Eu lembro-me. Foi em 23 de Setembro de 1934.&lt;br /&gt;Talvez recordes melhor o resto. Os encontros secretos em Charing Cross, as dúvidas em relação ao pobre jornalista que então eu era, a incapacidade de pensares a tua vida sem ser à sombra do execrável Major e das suas festas tão bem frequentadas. Também me lembro disso tudo. A despedida sem lágrimas, o espelho envolto em pano-cru, a claridade lilás sobre o Tamisa quando me disseste que partias para a Índia, talvez para nunca mais voltares. Foi a 2 de Fevereiro de 1935.&lt;br /&gt;Não te espantes com os detalhes. A memória é talvez o meu último bastião, mas mesmo esse começa a abrir brechas. Já não tenho forças para nada, nem mesmo para prosseguir esta ilusão. Durante 57 anos, escrevi-te uma carta todos os meses. Era uma forma de manter intacta a tua imagem, as tuas mãos cheias de framboesas, esta vã certeza de que foste a única mulher que amei verdadeiramente.&lt;br /&gt;Agora apercebo-me de que não vale a pena continuar. Dentro de um mês estarei morto, as minhas cinzas espalhadas nas traseiras da casa onde nasci. Os meus netos disputarão os escassos bens que ainda me restam. Venderão os móveis, deitarão fora o espelho e lerão talvez, com a indiferença de quem nada compreende, estas centenas de cartas que nunca te enviei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/WBY3.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8736564-111339369802319815?l=versodosversos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://versodosversos.blogspot.com/feeds/111339369802319815/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8736564&amp;postID=111339369802319815' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/111339369802319815'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/111339369802319815'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://versodosversos.blogspot.com/2005/04/23.html' title='# 23'/><author><name>JMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04083069720990124613</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8736564.post-111149700289952399</id><published>2005-03-22T13:07:00.000Z</published><updated>2005-03-22T13:10:02.903Z</updated><title type='text'># 22</title><content type='html'>&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/MF1.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;AXIOMA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;No desespero te confirmam&lt;br /&gt;os que sabem (saberão?)&lt;br /&gt;do estrume dos conceitos&lt;br /&gt;e das épocas que morrem,&lt;br /&gt;iguais ao vazio.&lt;br /&gt;Mas não é bem isso:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;querias apenas um lugar&lt;br /&gt;de sombra, cercado de ausência,&lt;br /&gt;um lugar comum combustível&lt;br /&gt;e sem Deus. Aí, perdoando o corpo,&lt;br /&gt;falarias do Inverno e dos&lt;br /&gt;cigarros que se enrolam&lt;br /&gt;ao lado de uma cerveja fria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Curtas sentenças prosaicas&lt;br /&gt;que em silêncio te confirmam&lt;br /&gt;nos sítios de fora, errados,&lt;br /&gt;onde a outra voz era esta.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Manuel de Freitas (&lt;em&gt;in&lt;/em&gt; «Game Over», &amp;Etc)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/MF2.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;«queria apenas um lugar»&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CIGARROS QUE SE ENROLAM AO LADO DE UMA CERVEJA FRIA — Olho para o maço de tabaco. Observo a minúscula mancha de café junto à letra M, memória da primeira bica do dia, a melhor. Entre os cigarros, restos de cinza. Luz baça caindo sobre a mesa de madeira. Marcas de canivete: «Mário ama Maria». O coração tosco atravessado por uma seta oblíqua. Obscenidades escondidas pelo copo de imperial vazio. O bloco de notas. A caneta Bic azul com uma tampa preta, roída. Palavras riscadas. Frases riscadas. Ideias riscadas. Mortalhas, um saco de plástico. Dedos que desfazem cigarros. Dedos que misturam tabacos. O isqueiro. Chama acesa durante dez segundos. Ao balcão, o velho Gomes inclina as sobrancelhas. Não gosta de fogo. Não gosta de engraçadinhos vestidos de preto. Em Lourenço Marques, há não sei quantas eternidades, perdeu um armazém cheio de máquinas (jipes, camiões, tractores) por causa de um incêndio. Já me contou a história mil vezes, as sobrancelhas inclinadas são apenas a milésima primeira. Enrolo o cigarro. Acendo o cigarro. Peço mais uma imperial. A luz baça lá de fora diminui, a luz baça cá de dentro cresce. Conto seis lâmpadas fluorescentes, fora a máquina roxa de matar moscas junto à porta. O velho Gomes traz o copo, em câmara lenta. O pano cheio de nódoas, ao ombro. Cinza a cair no chão de mosaicos encardidos. Sob as luzes baças sobrepostas, esboço uma errata: «Onde se lê Marlboro, leia-se Melancolia».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;INVERNO — Coisa dolorosa, ter um passado. Pior ainda trazê-lo assim, pela coleira, cheio de pulgas, para o deixar debaixo da mesa, focinho em cima das patas, fio de baba e olhos de cão velho, enquanto se pede um jarro de tinto, se folheia os jornais desportivos, um ruído de TV sintonizada em telejornais sórdidos, travo amargo na garganta, suor nas palmas das mãos. Na rua o céu ameaça tempestade, nuvens assim escuras como o vinho dentro da boca. A ventania faz estremecer os telhados de Lisboa. O frio invade a tasca, infiltra-se por todo o lado, até debaixo da pele. Há precisamente trinta e oito anos, o meu pai declarou-se à minha mãe numa curva da serra, a caminho da casa na aldeia, sem direito a beijos. Não sei porque me lembro disto agora, logo agora, depois do que me aconteceu. Tento imaginar um mapa da minha vida, uma topografia do que fui sendo ao longo dos anos — baldios, estradas secundárias, ravinas — mas no fundo da tasca o ruído da televisão sobrepõe-se, o vento na rua já dobra guarda-chuvas, oiço agora o cão que rosna sob a mesa. Há precisamente doze anos, o meu pai suicidou-se com 605 Forte, a minha mãe vestida de negro à porta do cemitério, sem direito a beijos, um vento igual a este varrendo a aldeia deserta. Ergo o copo de vinho e lembro-me da neve, eu com cinco anos, um trenó improvisado, o meu pai a rir no meio da neve. Não pode ser. À porta da tasca, com o rabo entre as pernas, o passado corrido a pontapés.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/MF3.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8736564-111149700289952399?l=versodosversos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://versodosversos.blogspot.com/feeds/111149700289952399/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8736564&amp;postID=111149700289952399' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/111149700289952399'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/111149700289952399'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://versodosversos.blogspot.com/2005/03/22.html' title='# 22'/><author><name>JMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04083069720990124613</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8736564.post-111149682649628485</id><published>2005-03-16T15:04:00.000Z</published><updated>2005-03-22T13:15:24.796Z</updated><title type='text'># 21</title><content type='html'>&lt;img height="400" src="http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/JLP1.jpg" width="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O FIM DA ESCADA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;A estranha sensação de ter morrido&lt;br /&gt;em Viena, numa tarde de outono de 1992,&lt;br /&gt;numa casa cuja escada nunca subi.&lt;br /&gt;De ser desde então um intruso, um farsante,&lt;br /&gt;o actor sem futuro de uma comédia má.&lt;br /&gt;De que o destino, implacável e rasteiro,&lt;br /&gt;se vingou na longa noite de um hospital,&lt;br /&gt;nas horas vazias que tento preencher.&lt;br /&gt;Inventar, não heterónimos como fez Pessoa,&lt;br /&gt;mas algo mais simples, o homem que escreve agora,&lt;br /&gt;a medíocre perseverança dos seus feitos,&lt;br /&gt;enquanto, insistente, me tenta a ideia de voltar,&lt;br /&gt;de subir de vez os degraus, de bater a uma porta.&lt;br /&gt;Mas quem sabe se ainda uma história pior,&lt;br /&gt;um horror mais nítido me espera ali,&lt;br /&gt;no fim da escada, diante da imaginada porta?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Juan Luis Panero (&lt;em&gt;in&lt;/em&gt; «Poemas», tradução de Joaquim Manuel Magalhães, Relógio d’Água)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img height="400" src="http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/JLP2.jpg" width="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;«A estranha sensação de ter morrido»&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda hoje não sei como é que esta história começou. Lembro-me vagamente de participar num congresso de literatura comparada, em Viena, no princípio dos anos 90: apresentações aborrecidas num palácio de arquitectura demasiado solene, neve tombando suavemente como nos contos infantis, escapadelas em grupo para ouvir alunos do Conservatório a tocar Brahms (à porta de centros comerciais hiper-aquecidos) e deambular pelos alfarrabistas em busca de miríficas primeiras edições, conversas no &lt;em&gt;hall&lt;/em&gt; do hotel com o ensaísta turco das barbas longas e com o poeta libanês das rosas tatuadas no pescoço, a imagem de uma mulher loura a atravessar a rua na minha direcção, chocolate quente, uma garrafa de gin, &lt;em&gt;apfelstrudel&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;A minha memória daqueles dias estilhaçou-se em mil fragmentos, é agora um obscuro caleidoscópio que me confunde e cega. Esforço-me por encontrar um fio condutor, uma ordem cronológica, uma sequência de factos. Em vão. Nada bate certo. Em Viena aconteceu-me qualquer coisa (não sei o quê), a que se seguiu um labirinto mental de imagens e simulacros (do qual, tantos anos depois, não cheguei a sair). É tudo.&lt;br /&gt;Nesta espécie de sonho caótico em que se transformou a minha existência (se é que lhe posso chamar existência), só tenho duas certezas: 1) eu estive realmente em Viena (sei, por exemplo, que a memória do ar gélido de Outubro a entrar-me nos pulmões, quando saí do Musikverein, é verdadeira — mesmo que todas as outras sejam falsas); 2) o limbo em que me encontro só pode ser um estado de consciência &lt;em&gt;exterior&lt;/em&gt; ou &lt;em&gt;paralelo&lt;/em&gt; àquilo a que normalmente se chama vida. Dito de outro modo: ou estou morto, ou estou em coma.&lt;br /&gt;Se estou morto, é tudo mais simples. Posso compreender finalmente o conceito de inferno, sem as desnecessárias metáforas do fogo e das penitências eternas. O inferno é isto. Ficar preso numa rede de tempos e lugares e factos e palavras e gestos que se repetem indefinidamente, com sequências e lógicas sempre variáveis, não permitindo a quem as revive — eu, o condenado — qualquer espécie de descanso, de fuga ou de consolo.&lt;br /&gt;Se estou em coma, as coisas complicam-se. Talvez eu tenha sido atropelado à frente do Musikverein, num momento de fuga ao congresso de literatura comparada. Talvez me tenham levado em estado crítico para o hospital. Talvez esteja há mais de dez anos fechado dentro de mim, com soro nas veias e máquinas presas ao corpo. Talvez os médicos cochichem ao fundo do quarto com os meus familiares e eu reconheça uma palavra que arde: «desligar». Talvez eu procure a saída do labirinto, a porta de salvação que me tire daqui. Talvez eu descubra, sem surpresa, que a porta está trancada desde o primeiro momento (aquele em que a minha cabeça bateu no alcatrão coberto de gelo).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img height="400" src="http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/JLP3.jpg" width="400" /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8736564-111149682649628485?l=versodosversos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://versodosversos.blogspot.com/feeds/111149682649628485/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8736564&amp;postID=111149682649628485' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/111149682649628485'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/111149682649628485'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://versodosversos.blogspot.com/2005/03/21_16.html' title='# 21'/><author><name>JMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04083069720990124613</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8736564.post-111149648409990617</id><published>2005-03-11T18:31:00.000Z</published><updated>2005-04-14T13:30:39.650+01:00</updated><title type='text'># 20</title><content type='html'>&lt;img height="400" src="http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/MB1.jpg" width="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Em animada conversa&lt;br /&gt;dois vagabundos&lt;br /&gt;e um lírio&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Matsuo Bashô (&lt;em&gt;in&lt;/em&gt; «O Gosto Solitário do Orvalho», versão de Jorge Sousa Braga, Assírio &amp; Alvim)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img height="400" src="http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/MB2.jpg" width="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;«dois vagabundos»&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[Luar sobre os arrozais. Deitados sobre uma pequena elevação, dois homens olham as constelações muito nítidas que se desenham no céu.]&lt;br /&gt;— Quando ficas assim, parado, a olhar para cima, o que vês?&lt;br /&gt;— O mesmo que tu.&lt;br /&gt;— As estrelas?&lt;br /&gt;— Não.&lt;br /&gt;— O espaço negro entre elas?&lt;br /&gt;— Também não.&lt;br /&gt;— Então o quê?&lt;br /&gt;— A memória da nossa fome.&lt;br /&gt;[Um dos homens está agora sentado, com um pano aberto sobre os joelhos, a cortar fatias muito finas de pão seco e tiras ainda mais finas de toucinho. O outro olha fixamente para o movimento da faca, enquanto aconchega o seu casaco em farrapos.]&lt;br /&gt;— Queres um bocado?&lt;br /&gt;— Sim.&lt;br /&gt;— O que é que me dás em troca?&lt;br /&gt;— Deixa-me pensar. [Vasculha os bolsos vazios.]&lt;br /&gt;— Sabes que tens que me dar qualquer coisa em troca.&lt;br /&gt;— Sim, já calculava. Olha, posso dar-te uma história.&lt;br /&gt;— Que história?&lt;br /&gt;— A minha. Uma bela história. A minha história.&lt;br /&gt;— É alegre?&lt;br /&gt;— Não. Nada. Pelo contrário. É até muito triste.&lt;br /&gt;— Então está bem. Podes começar. [Estende-lhe um naco de pão seco; o outro espreita o pouco que lhe coube, sem esconder o desalento.] Querias mais? Pois não protestes. Só levas o toucinho quando chegares ao fim.&lt;br /&gt;[Passaram quarenta minutos. Os dois acabam de comer. Parecem saciados.]&lt;br /&gt;— Muito boa, a tua história.&lt;br /&gt;— Muito bom, o teu toucinho.&lt;br /&gt;— Há muito tempo que não ouvia uma história tão trágica.&lt;br /&gt;— Há muito tempo que não comia um toucinho tão delicioso.&lt;br /&gt;— Mas como posso ter a certeza de que a história é mesmo verdadeira?&lt;br /&gt;— Não podes, nem isso interessa. Eu também não sei se foste tu que mataste o porco.&lt;br /&gt;[Um dos homens levanta-se, aproxima-se do canavial, colhe um lírio. O outro encolhe-se, com frio.]&lt;br /&gt;— O que tens tu na mão? Um lírio?&lt;br /&gt;— Não.&lt;br /&gt;— Uma estrela?&lt;br /&gt;— Não.&lt;br /&gt;— O amor que perdeste há tantos anos?&lt;br /&gt;— Não.&lt;br /&gt;— A primeira palavra do teu último poema?&lt;br /&gt;— Não.&lt;br /&gt;— Um reflexo da manhã que se aproxima?&lt;br /&gt;— Não.&lt;br /&gt;— A própria ideia de brancura?&lt;br /&gt;— Isso, amigo. A própria ideia de brancura.&lt;br /&gt;[Os dois homens voltam a deitar-se na pequena elevação, bebendo saké de uma garrafa opaca. Olham as constelações lá no alto, agora difusas. Luar sobre os arrozais.]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img height="400" src="http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/MB3.jpg" width="400" /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8736564-111149648409990617?l=versodosversos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://versodosversos.blogspot.com/feeds/111149648409990617/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8736564&amp;postID=111149648409990617' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/111149648409990617'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/111149648409990617'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://versodosversos.blogspot.com/2005/03/20.html' title='# 20'/><author><name>JMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04083069720990124613</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8736564.post-111149618778309826</id><published>2005-03-03T16:40:00.000Z</published><updated>2005-04-13T12:54:30.866+01:00</updated><title type='text'># 19</title><content type='html'>&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/PA1.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CLANDESTINO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Recordem hoje comigo – a palavra&lt;br /&gt;e contra-palavra&lt;br /&gt;da evidência: a táctil aurora, amanhecendo&lt;br /&gt;da minha mão cerrada: o aperto&lt;br /&gt;ciliário do sol: o trecho de escuridão&lt;br /&gt;que escrevi&lt;br /&gt;na mesa do sono.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora&lt;br /&gt;é a hora.&lt;br /&gt;Tudo aquilo de que&lt;br /&gt;me vierem privar,&lt;br /&gt;levem-no agora de mim. Não&lt;br /&gt;se esqueçam&lt;br /&gt;de esquecer. Encham&lt;br /&gt;de terra os bolsos,&lt;br /&gt;e selem a boca&lt;br /&gt;da minha caverna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi lá&lt;br /&gt;que sonhei a minha vida&lt;br /&gt;rumo a um sonho&lt;br /&gt;de fogo.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Paul Auster (&lt;em&gt;in&lt;/em&gt; «Poemas Escolhidos», tradução de Rui Lage, Quasi)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/PA2.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;«da evidência: a táctil aurora, amanhecendo»&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela olhou para mim com aquela desconfiança típica dos executivos de Hollywood. Vestia um daqueles tailleurs com assinatura de um estilista francês, quase de certeza mais caro do que o orçamento total da minha última curta-metragem, e bebericava um quarto de Evian servido por uma assistente em copo de cristal. O seu corpo era um prodígio da anatomia — ou da cirurgia plástica, não cheguei a perceber — e os seus gestos denunciavam, mais do que a cortesia falsa (apanágio dos poderosos cínicos), uma indiferença prestes a transformar-se em enfado. Creio mesmo tê-la visto bocejar, mas não garanto.&lt;br /&gt;Enfim, após cinco penosos segundos de silêncio, que se seguiram à minha sucinta apresentação curricular (durante a qual foi notória a sua indiferença perante o Prémio do Público que ganhei em Sundance), ela ergueu a sobrancelha esquerda, serviu-se de mais Evian e disse, num tom de voz pleno de condescendência: «Ok, já percebi que é mais um daqueles independentes malucos à espera de agarrar, por uma vez, um orçamento que se veja. Deixe-se de tretas e explique-me lá o filme, de forma a que até a minha assistente o consiga compreender.»&lt;br /&gt;Apesar da rispidez, não me impressionei com aquela arrogância pré-fabricada. Quem sobreviveu aos sermões do meu pai, sobrevive a tudo. Pousei as mãos no volume encadernado de «A Táctil Aurora» (nona versão, 138 páginas), aclarei a garganta e desbobinei a sinopse, como se estivesse na igreja a recitar os salmos.&lt;br /&gt;Ela ouviu, com atenção crescente, a minha história. Aquele morto logo a abrir, afundado na lama, com sete cadernos de cores diferentes guardados nos bolsos da gabardina, espicaçaram a sua curiosidade. Eu ia lendo as emoções no seu rosto, à medida que lhe explicava a intrincada trama policial, um vasto labirinto de pistas cruzadas e linhas narrativas paralelas (sete: uma por cada caderno e por cada cor do arco-íris; como se o crime inicial fosse o prisma que decompõe a luz que se espalha pelo resto da narrativa). Com mapas cheios de riscos, mostrei-lhe depois a geografia tortuosa do filme: o começo em Madagáscar, com passagens porLos Angeles, Nepal, Osaka, Marraquexe, Nova Zelândia, Trieste, Patagónia, Macau e Nova Iorque. Expliquei-lhe ainda, sem entrar em grandes detalhes, os rudimentos de mecânica quântica necessários para compreender a cena no interior do acelerador de partículas. E fiz-lhe um desenho da ascensão do herói (Harrison Ford?) aos céus, depois da gloriosa cena do sacrifício final.&lt;br /&gt;Sem grande surpresa, a resposta da executiva acabou por ser negativa. «Not interested». O que me surpreendeu, porém, foi a justificação: «Vai-me desculpar a sinceridade, mas essa história nunca teria hipóteses em Hollywood. É demasiado verosímil.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/PA3.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8736564-111149618778309826?l=versodosversos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://versodosversos.blogspot.com/feeds/111149618778309826/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8736564&amp;postID=111149618778309826' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/111149618778309826'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/111149618778309826'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://versodosversos.blogspot.com/2005/03/19.html' title='# 19'/><author><name>JMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04083069720990124613</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8736564.post-110797123068757926</id><published>2005-02-11T19:43:00.000Z</published><updated>2005-02-10T12:45:41.550Z</updated><title type='text'># 18</title><content type='html'>&lt;img height="400" src="http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/AB1.jpg" width="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;recado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;ouve-me&lt;br /&gt;que o dia te seja limpo e&lt;br /&gt;a cada esquina de luz possas recolher&lt;br /&gt;alimento suficiente para a tua morte&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vai até onde ninguém te possa falar&lt;br /&gt;ou reconhecer — vai por esse campo&lt;br /&gt;de crateras extintas — vai por essa porta&lt;br /&gt;de água tão vasta quanto a noite&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te&lt;br /&gt;e as loucas aveias que o ácido enferrujou&lt;br /&gt;erguerem-se na vertigem do voo — deixa&lt;br /&gt;que o outono traga os pássaros e as abelhas&lt;br /&gt;para pernoitarem na doçura&lt;br /&gt;do teu breve coração — ouve-me&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;que o dia te seja limpo&lt;br /&gt;e para lá da pele constrói o arco de sal&lt;br /&gt;a morada eterna — o mar por onde fugirá&lt;br /&gt;o etéreo visitante desta noite&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;não esqueças o navio carregado de lumes&lt;br /&gt;de desejos em poeira — não esqueças o ouro&lt;br /&gt;o marfim — os sessenta comprimidos letais&lt;br /&gt;ao pequeno-almoço&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Al Berto (&lt;em&gt;in&lt;/em&gt; «Horto de Incêndio», Assírio &amp;amp; Alvim)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img height="400" src="http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/AB2.jpg" width="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;«que o dia te seja limpo»&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito lentamente, com um vinco diagonal, dobrou o canto da página. Hábito antigo, forma de marcar poemas dentro dos livros — antecipando futuros regressos, reincidências, releituras. Dobrou o canto da página e pousou o livro em cima da mesa, junto à janela. Sentou-se numa cadeira e olhou a mulher deitada. A sua mulher. Um vulto na penumbra, um contorno sob os lençóis.&lt;br /&gt;— Não consegues dormir? — perguntou ela.&lt;br /&gt;— Não, não consigo. E tu?&lt;br /&gt;— Também não.&lt;br /&gt;— Mas tenta, meu amor, tenta. Tens mesmo que descansar.&lt;br /&gt;Pela janela, conseguia ver o rio, a noite cerrada, algumas estrelas. O «Horto de Incêndio», mesmo fechado em cima da mesa, continuava a arder. E aquele poema do recado era, entre todos, o que mais queimava. Não queria pensar nele agora. Havia qualquer coisa de assustador na matéria negra que lhe atravessava os versos: a ténue melancolia do homem sem salvação, o rasto da morte a pairar naqueles irónicos «sessenta comprimidos letais». Não, não queria pensar nisso agora. Não queria ser perseguido pela imagem de um corpo que se despede do esplendor do mundo. Não agora. Não hoje. Por isso, olhando o Tejo, recordava do poema apenas as imagens radiosas: a «esquina de luz», a «porta de água», a «árvore das cassiopeias», a doçura do «breve coração», o «arco de sal», o «navio carregado de lumes».&lt;br /&gt;Olhou para o relógio. Ouviu, vindo dos corredores, o silêncio espesso do hospital. Passos abafados, ao longe. Sentiu a madrugada a deixar-lhe marcas no corpo. Um cansaço estranho, como nunca experimentara antes. Cansaço tenso mas bom. Cansaço eufórico. Cansaço de quem chega onde sempre quis chegar.&lt;br /&gt;Levantou-se. Cabeça encostada ao vidro, observou o seu rosto no reflexo. Olhos castanhos, arcadas supraciliares salientes, os cabelos revoltos, um determinado contorno do queixo. O seu rosto — incerto património genético, à espera de se revelar noutro rosto. E poucas horas a separarem-no desse momento. No seus braços, a filha tão desejada. O seu rosto naquele rosto. O rosto da mãe naquele rosto. Um rosto novo e puro, só dela. Sublime materialização do amor.&lt;br /&gt;— Em que é que estás a pensar?&lt;br /&gt;— Num verso do Al Berto: «Que o dia te seja limpo.» Só isto: «Que o dia te seja limpo.»&lt;br /&gt;— Será. Vais ver que será. Mas agora dorme.&lt;br /&gt;Deitado, pôs-se a imaginar o parto. «Que o dia te seja limpo», repetiu. «Que a vida te seja limpa». E não conseguiu dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img height="400" src="http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/AB3.jpg" width="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8736564-110797123068757926?l=versodosversos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://versodosversos.blogspot.com/feeds/110797123068757926/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8736564&amp;postID=110797123068757926' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/110797123068757926'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/110797123068757926'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://versodosversos.blogspot.com/2005/02/18.html' title='# 18'/><author><name>JMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04083069720990124613</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8736564.post-110797097448611412</id><published>2005-02-09T17:37:00.000Z</published><updated>2005-02-09T17:42:54.486Z</updated><title type='text'># 17</title><content type='html'>&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/HM1.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Quis ver o rosto do nada&lt;br /&gt;quando olhei&lt;br /&gt;para ver quem me seguia&lt;br /&gt;ou seguiria&lt;br /&gt;enquanto não olhasse&lt;br /&gt;a sombra indecifrada&lt;br /&gt;desta não sei se selva&lt;br /&gt;ou estrada&lt;br /&gt;ou talvez praia&lt;br /&gt;ou destino perdido no caminho.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Helder Macedo (&lt;em&gt;in&lt;/em&gt; «Viagem de Inverno», Presença)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/HM2.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;«Quis ver o rosto do nada»&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Quando A. M. Sousa publicou o seu primeiro romance, aos 31 anos, em 2008, a literatura portuguesa levou, nas palavras do crítico José Maurício Palhavã, «um choque eléctrico fulminante». Ninguém esperava aquilo. Ninguém esperava uma obra com o fôlego e a ousadia do agora clássico «Onde os Leões Rugem», mais de 900 páginas de uma escrita que reinventa um género gasto, cruzando brilhantemente — e com uma ironia muito pós-moderna — as histórias de cinco famílias (mosaico complexo em que muitos viram a simbologia das quinas), tendo como pano de fundo a História de Portugal, da guerra em África aos Descobrimentos, passando por uma infinidade de referências, em filigrana, à estrutura épica d’ «Os Lusíadas». &lt;br /&gt;Não faltou quem clamasse, com o exagero próprio dos juízos precipitados, que A. M. Sousa tinha perfil para ser o novo Joyce — autor de um só livro, é certo, mas um livro que poderia muito bem transformar-se no «Ulisses» do séc. XXI. A histeria mediática que se seguiu foi a que se imagina: entrevistas de fundo nos principais jornais portugueses, traduções em toda a Europa, prémios a rodos (o APE, o PEN, o Saramago, o Femina), citações elogiosas na New York Review of Books e na Granta, uma polémica com Eduardo Prado Coelho, vendas superiores a 250.000 exemplares, a palavra «fenómeno» escrita em letras maiúsculas por baixo do seu retrato a sépia (espalhado pelo país em outdoors monumentais).&lt;br /&gt;Depois, deu-se o previsível colapso. A insuportável pressão  que o conduziu ao bloqueio criativo. Cenas lamentáveis num talk show. A depressão com internamento numa clínica psiquiátrica. A longa travessia do deserto. O culto do silêncio. A vida austera num quarto austero. A pose de eremita. Pouco a pouco, A. M. Sousa escondeu-se do mundo e o mundo esqueceu-se de A. M. Sousa. Mais do que Joyce, quando agora se falava dele e da sua glória efémera, era Salinger que vinha à baila.&lt;br /&gt;Até que um dia, numa manhã de Outubro de 2023, Sousa descobriu, na sua caixa de correio, um envelope pardo. Lá dentro, os três primeiros capítulos do livro que andava às voltas dentro da sua cabeça há mais de 15 anos. Quem é que escrevera aquelas páginas? Com que fim? Em troca de quê? Sentado na sua tosca mesa de trabalho, olhando pela janela as ondas do Atlântico a desfazerem-se contra as rochas, recusou-se a encontrar respostas.&lt;br /&gt;Pela primeira vez em muito tempo, sentia uma irreprimível vontade de escrever. E isso é que era importante. Com um gesto solene, voltou a ligar o computador portátil, enquanto lá fora as sombras empurravam todas as coisas para o vazio da noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/HM3.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8736564-110797097448611412?l=versodosversos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://versodosversos.blogspot.com/feeds/110797097448611412/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8736564&amp;postID=110797097448611412' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/110797097448611412'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/110797097448611412'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://versodosversos.blogspot.com/2005/02/17.html' title='# 17'/><author><name>JMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04083069720990124613</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8736564.post-110797060858439624</id><published>2005-02-04T14:56:00.000Z</published><updated>2005-02-09T17:36:48.583Z</updated><title type='text'># 16</title><content type='html'>&lt;em&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/MAS1.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Por vezes era de noite tomado&lt;br /&gt;de uma febre, os gestos cresciam na&lt;br /&gt;escura tonalidade de lá fora&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;como se do fundo da casa&lt;br /&gt;uma ordem sob outra ordem o repelisse&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Maria Andresen de Sousa (&lt;em&gt;in&lt;/em&gt; «Lugares», Relógio d’Água)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/MAS2.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;«Como se do fundo da casa»&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Lembrava-se da luz muito forte na cabeza do médico, uma luz ligeiramente acima da cabeça mas ainda presa à cabeça, uma luz redonda e branca, muito forte, como a auréola dos Santos que via esculpidos em madeira, na igreja, quando ia à missa com a avó Dolores, os Santos martirizados que lhe enchiam os sonhos de pavor, até àquela manhã em que encontrou a avó Dolores quase roxa, caída no genuflexório, cabeça aberta, poça de sangue, os Santos imóveis e ele vazio de tudo para sempre, a luz muito forte na cabeça do médico era um golpe dado em cheio nos olhos, agora, um golpe a acordar todos os golpes passados, a imagem da avó Dolores cada vez mais roxa, estendida no chão, e por trás da luz, por trás da claridade que magoava, os olhos atentos do médico, a olhar para o rosto dele, para as mínimas contracções dos músculos, para os efeitos do medo sobre a pele suada, os olhos do médico muito desfocados e distantes, escondidos por baixo de uma voz cavernosa, «e agora, o que sente?», «e agora, o que sente, Luís?», «vá, Luís, olhe para o meu dedo, Luís, olhe para o meu dedo», e o dedo indicador da mão direita, um dedo gordo a apontar para cima, a ir e a vir, da esquerda para a direita e da direita para a esquerda, muito devagar, «acompanhe o dedo, Luís, consegue acompanhar o dedo, Luís?», e atrás do dedo iam as ideias mais sujas e negras, incêndios, obscenidades, crimes imaginados há muito tempo e nem sequer postos por palavras, tantas flores arrancadas pela raiz, o médico sorrindo atrás da sua luz perversa, escrevendo palavras compridas em folhas de linhas apertadas, e depois o frio da agulha a atravessar a pele, o frio de uma coisa fria a entrar no corpo, a entrar no sangue, o torpor do sono e da impotência de nem sequer conseguir gritar.»&lt;br /&gt;Foi assim que descreveu o seu pesadelo daquela noite. Como uma coisa má que acontece a outro. Mas no sonho, naquele sonho claustrofóbico e demencial, o outro era ele próprio. Disso não podia duvidar. O Luís não se chamava Luís. O Luís era ele, Artur Loyola: advogado, 42 anos, deprimido com a morte da família naquele estúpido acidente de automóvel, às voltas com a culpa, à beira da loucura, fechado numa casa vazia (um colchão, uma cadeira, comida congelada, televisão sem antena), longe da ajuda piedosa dos amigos, ainda mais longe dos médicos de luzes ameaçadoras, mas demasiado perto dos comprimidos. A sua avó chamava-se Dolores mas sempre lhe disseram que morreu durante o sono, uma morte santa. «O que raio quererá isto tudo dizer?», rabiscou no caderno de notas, enquanto nos quartos mais distantes da casa o vento crescia, espalhando pelo corredor ecos da verdade assustadora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/MAS3.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8736564-110797060858439624?l=versodosversos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://versodosversos.blogspot.com/feeds/110797060858439624/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8736564&amp;postID=110797060858439624' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/110797060858439624'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/110797060858439624'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://versodosversos.blogspot.com/2005/02/16.html' title='# 16'/><author><name>JMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04083069720990124613</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8736564.post-110631228913086331</id><published>2005-01-21T13:51:00.000Z</published><updated>2005-01-21T12:58:09.130Z</updated><title type='text'># 15</title><content type='html'>&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/VN1.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NOMEIO O MUNDO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Com medo de o perder nomeio o mundo,&lt;br /&gt;Seus quantos e qualidades, seus objectos,&lt;br /&gt;E assim durmo sonoro no profundo&lt;br /&gt;Poço de astros anónimos e quietos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nomeei as coisas e fiquei contente:&lt;br /&gt;Prendi a frase ao texto do universo.&lt;br /&gt;Quem escuta ao meu peito ainda lá sente,&lt;br /&gt;Em cada pausa e pulsação, um verso.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vitorino Nemésio (&lt;em&gt;in&lt;/em&gt; «Antologia Poética», Edições Asa)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/VN2.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;«Nomeei as coisas e fiquei contente:»&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O PRIMEIRÍSSIMO INSTANTE EM QUE O MUNDO SE ACENDEU. Lembras-te? O cúmulo da simplicidade: dois olhos que olham dois olhos que olham. Uma linha recta que desfoca tudo à volta. Tão evidente, tão óbvio. A súbita claridade a apagar arestas, a esmaecer contornos. Nem era preciso nome para uma coisa assim. Pois não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;GALÁXIAS PORTÁTEIS. «Os poemas», insisti eu, «os poemas é que são galáxias portáteis». Tu abanavas a cabeça, para cá e para lá, inflexível: «não, não e não, sabes perfeitamente que as caixas com borboletas espetadas é que são galáxias portáteis». Ficámos naquilo horas a fio: poemas e caixas com borboletas espetadas, poemas e caixas com borboletas espetadas, poemas e caixas com borboletas espetadas._Entretanto caiu a noite, escura e a abarrotar de estrelas. Olhámos para cima._Calámo-nos. Fomos embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BURACOS NO CHÃO. Os buracos esperam, pacientes, pelo pé que um dia há-de pousar em falso e pelo corpo que cairá, mais adiante, numa poça cheia de lama. Melhor dizendo: esperam pelo teu pé. Melhor dizendo: esperam pelo meu corpo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;UM DIA DE CHUVA. Água inclinada sobre os telhados. Telhados inclinados sob a água. O meu peito e o teu peito a imitarem, dentro de casa, aquela teoria geral das inclinações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LOIÇA DEMASIADO FRÁGIL. Depois do lanche, enquanto eu ia varrendo as migalhas de bolo e as chávenas partidas, tu inventaste uma taxinomia para os cacos. Gostamos de passar o tempo assim: lutando, sempre em vão, contra a entropia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MAPAS &amp; OUTROS EQUÍVOCOS. Afirmámos a pé juntos, apontando para a casca rugosa de uma árvore: «isto é um mapa». E acreditámos nisso como alguns acreditam em coisas ainda mais improváveis. A felicidade, por exemplo. Ou Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TELEMICROSCÓPIO. Tinha um amigo cientista que ia para o Observatório Astronómico pesquisar buracos negros e radiações cósmicas. Até que um dia julgou ver, nos confins supostamente vazios do espaço, formas estranhas. Primeiro uma amiba, depois uma paramécia, por fim uma bactéria. Ao fim de uns meses, desistiu da carreira académica. «Não dá mais», disse-me. «Ou fui eu que enlouqueci, ou foi o mundo.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MÃOS. Às vezes parecem aves, às vezes parecem pedras, às vezes parecem vidro, às vezes parecem correntes de ar, às vezes não se parecem com nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A CURVA PERFEITA DO TEU VENTRE. Não sei que nome dar à linha que vai crescendo dia a dia, como um horizonte convexo, sobre a tua pele. É uma curva perfeita. Só sei isso. Uma curva perfeita. Abóbada celeste vista de fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/VN3.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8736564-110631228913086331?l=versodosversos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://versodosversos.blogspot.com/feeds/110631228913086331/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8736564&amp;postID=110631228913086331' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/110631228913086331'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/110631228913086331'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://versodosversos.blogspot.com/2005/01/15.html' title='# 15'/><author><name>JMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04083069720990124613</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8736564.post-110624709205266626</id><published>2005-01-20T18:49:00.000Z</published><updated>2005-01-20T18:53:12.326Z</updated><title type='text'>NOVO E-MAIL</title><content type='html'>Atenção, caríssimos leitores, o e-mail para onde podem escrever foi alterado. Passa a ser este: versodosversos@yahoo.com. Obrigado.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8736564-110624709205266626?l=versodosversos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://versodosversos.blogspot.com/feeds/110624709205266626/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8736564&amp;postID=110624709205266626' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/110624709205266626'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/110624709205266626'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://versodosversos.blogspot.com/2005/01/novo-e-mail.html' title='NOVO E-MAIL'/><author><name>JMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04083069720990124613</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8736564.post-110624653352343321</id><published>2005-01-20T18:39:00.000Z</published><updated>2005-01-21T13:02:18.293Z</updated><title type='text'># 14</title><content type='html'>&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/JCMN1.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O POEMA E A ÁGUA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;As vozes líquidas do poema&lt;br /&gt;convidam ao crime&lt;br /&gt;ao revólver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falam para mim de ilhas&lt;br /&gt;que mesmo os sonhos&lt;br /&gt;não alcançam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O livro aberto nos joelhos&lt;br /&gt;o vento nos cabelos&lt;br /&gt;olho o mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os acontecimentos de água&lt;br /&gt;põem-se a se repetir&lt;br /&gt;na memória.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João Cabral de Melo Neto (&lt;em&gt;in&lt;/em&gt; «Poesia Completa 1940-1980», Imprensa Nacional-Casa da Moeda)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/JCMN2.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;«Os acontecimentos de água»&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, lembrou-se do dia em que quase morreu afogado. Coisas muito nítidas (e tão dolorosas): os olhos abertos dentro de água, a força do mar a puxá-lo para longe da praia, visões de espuma e céu aberto, os sons a misturarem-se e a perderem velocidade, estrutura, sentido (como os leitores de cassetes quando as pilhas começam a falhar), sons muito lentos e graves atravessados por gritos agudos (a voz estridente da namorada, em pânico, no limite do areal), a sensação de ter os pulmões prestes a explodir por dentro, os braços rígidos, a mão que de fora continua a agitar-se já quase sem esperança, o grande silêncio subaquático a chamá-lo para o fundo, para o azul hipnótico com rochas e algas, mas a cabeça a vir sempre à superfície, sôfrega, o ar duro como pedra a entrar pela boca às golfadas, o ar preso na traqueia, o ar a rasgar os músculos, as forças a diminuirem a cada improvável regresso à tona, e acima da rebentação, esvoaçando, as asas abertas de uma gaivota, o seu bico escancarado, quase humano, quase burlesco, coisas assim muito nítidas (e tão dolorosas), a morte pairando rente às águas, paciente, cínica, até que um braço salvador o puxou para cima, para cá, cada vez mais para cá, até ao círculo de pessoas que o esperavam, molhadas, na areia escaldante, sob o sol mais feroz daquele verão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, lembrou-se das grandes cheias do Tejo. Reviu não apenas as imagens dos telejornais, as grandes azinhagas ribatejanas completamente inundadas, com ramos de árvores a emergirem da corrente lodosa, mas a imagem do seu próprio corpo a calcorrear os campos submersos, ajudando um amigo agricultor que reunia vacas e as conduzia para locais mais altos, a imagem do corpo pressentindo, ali tão perto, por baixo das botas de borracha, a ameaça líquida, a linha da margem a crescer num galope e as marcas nas paredes com datas antigas. O medo pelas costas, subindo como um murmúrio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, lembrou-se de um conto que não chegou a escrever. Foi num período em que andava com a cabeça cheia de Melville. A grande baleia branca. As tempestades. O temor bíblico do mar em fúria. Queria escrever uma história tão aquática e tão fluída que o leitor, ao virar as páginas, sentiria no rosto os borrifos da espuma ou o vórtice asfixiante dos afogados. Nunca encontrou, porém, sequer a primeira palavra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, lembrou-se da pequenez destas memórias. Alguém ligou a TV. Era domingo, manhã radiosa. E no outro lado do mundo uma onda erguia-se muito acima da ficção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/JCMN3.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8736564-110624653352343321?l=versodosversos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://versodosversos.blogspot.com/feeds/110624653352343321/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8736564&amp;postID=110624653352343321' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/110624653352343321'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/110624653352343321'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://versodosversos.blogspot.com/2005/01/14.html' title='# 14'/><author><name>JMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04083069720990124613</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8736564.post-110624570349735254</id><published>2005-01-15T18:24:00.000Z</published><updated>2005-01-20T18:47:46.176Z</updated><title type='text'># 13</title><content type='html'>&lt;img height="400" src="http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/ASC1.jpg" width="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CALÇADA À PORTUGUESA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;O mar sai das mãos destes calceteiros&lt;br /&gt;que logo de manhã se ajoelham na rua&lt;br /&gt;a bater&lt;br /&gt;nos cubos de pedra&lt;br /&gt;como se eles fossem pães de um tempo&lt;br /&gt;inacabado.&lt;br /&gt;Sisudos e pacientes limpam o corpo negro&lt;br /&gt;do pó branco do trabalho&lt;br /&gt;e avançam lentamente aos pés&lt;br /&gt;de quem anda a correr pelos próprios meios&lt;br /&gt;e mundos.&lt;br /&gt;O mar não se devia perder&lt;br /&gt;em minúcias citadinas de raças que tentam conviver&lt;br /&gt;na sobrevivência.&lt;br /&gt;Mas o suor é uma água nostálgica&lt;br /&gt;que envolve a carne frágil&lt;br /&gt;das mulheres&lt;br /&gt;com seus carrinhos de compras&lt;br /&gt;e as suas crianças de carrinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Água soberba e manchada de sexo.&lt;br /&gt;Negro, negro sensual de mornas e coladeiras&lt;br /&gt;não subas acima do passeio.&lt;br /&gt;Não me invadas o corpo,&lt;br /&gt;não me molhes as noites mal dormidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o homem no chão afeiçoa&lt;br /&gt;a pequena pedra&lt;br /&gt;ao mar seco e saudoso da sua transumância,&lt;br /&gt;às entranhas da terra que não é a sua.&lt;br /&gt;Só o coração simples lhe pede&lt;br /&gt;uma sede de água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou de cerveja.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Armando Silva Carvalho (in «Lisboas», Quetzal)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img height="400" src="http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/ASC2.jpg" width="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;«Mas o suor é uma água nostálgica»&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vereador procurou uma sombra, alisou os papéis em cima da pasta de cabedal, largada sobre a relva, e mostrou ao empreiteiro os desenhos que lhe haviam tomado, nas últimas semanas, muitas horas de trabalho, atenção e minúcia. Apontando com o dedo o plano inclinado, à face da Praça da República, na extremidade do jardim, resumiu a memória descritiva a duas ou três frases solenes e ao desejo de ver surgir, ali mesmo, no coração da «nossa» vila, uma «tapeçaria de pedra alvi-negra» (sempre gostou de metáforas têxteis, o vereador) capaz de fazer inveja a todas as outras povoações do distrito.&lt;br /&gt;Limpando o suor da testa às calças muito puídas e cheias de pó, o empreiteiro exclamou, com um tom de falsa submissão, «sim, senhor arquitecto, esteja descansado que assim faremos, sem tirar nem pôr», mirou mais uma vez a papelada — traços finos desenhando as armas do concelho, com as letras por baixo, em leque: Bem-vindo a S. Bernardo de Fernancelhe — e logo se despediu com um seco «Então bo’tarde, vou indo», encaminhando-se para o grupo de calceteiros que aguardavam, junto à carrinha de caixa aberta, as suas ordens.&lt;br /&gt;Meio-dia. Feita a divisão das tarefas, montadas as esquadrias e retesados os cordéis, cinco homens trabalham com tal afinco que até dá gosto vê-los. A escolha de cada pedra (ora branca, ora negra) implica um desvelo de ourives, capaz de adivinhar ajustes, lapidagens e encaixes. Já para não falar das arestas que se moldam, à força de martelar. E eles martelam, martelam, martelam. Sons secos a ecoar na praça, camisas de alças com manchas de suor que alastram.&lt;br /&gt;Quem trata do brasão — com duas torres, uma oliveira e três barcas carregadas de pipas — é o Anselmo, o mais primoroso deles todos, homem entrado na idade mas com mão firme, apesar dos copos. Os outros, mais novos e com menos tarimba, atiram-se às letras. E o empreiteiro passa de vez em quando, só para gritar ameaças e impropérios que não deixem esmorecer o ânimo.&lt;br /&gt;Os sons secos da pedra martelada avançam tarde adentro. O Anselmo já deu conta das torres e da oliveira, mas não atina com as barcas. O Jaquim, o Valente e o Pinguinhas lá vão alinhando as letras negras, mais bem que mal. Só o Adérito destoa. Os seus gestos não têm forma nem ritmo. A cabeça anda turva com imagens de Cabo Verde, lá tão longe. Para quando o regresso? — pergunta-se. E em vez do «celhe» de Fernancelhe, é um ponto de interrogação o que as suas mãos arredondam. Um ponto de interrogação a que o empreiteiro, acabadinho de chegar com a última luz, responderá como se imagina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img height="400" src="http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/ASC3.jpg" width="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8736564-110624570349735254?l=versodosversos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://versodosversos.blogspot.com/feeds/110624570349735254/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8736564&amp;postID=110624570349735254' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/110624570349735254'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/110624570349735254'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://versodosversos.blogspot.com/2005/01/13.html' title='# 13'/><author><name>JMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04083069720990124613</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8736564.post-110624535485707424</id><published>2005-01-12T18:18:00.000Z</published><updated>2005-01-20T18:23:53.236Z</updated><title type='text'># 12</title><content type='html'>&lt;em&gt;&lt;img height="400" src="http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/MRP3.jpg" width="400" /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Não partas já. Fica até onde a noite se dobra&lt;br /&gt;para o lado da cama e o silêncio recorta&lt;br /&gt;as margens do tempo. É aí que os livros&lt;br /&gt;começam devagar e as cores nos cegam&lt;br /&gt;e as mãos fazem de norte na viagem. Parte apenas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;quando a manhã se ferir nos espelhos do quarto&lt;br /&gt;em estilhaços de luz; e um feixe de poeiras&lt;br /&gt;rasgar as janelas como uma ave desabrida.&lt;br /&gt;Alguém murmurará então o teu nome, vagamente,&lt;br /&gt;como a gastar os dedos na derradeira página.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então, sim, parte, para que outra história se&lt;br /&gt;invente mais tarde, quando os pássaros gritarem&lt;br /&gt;à primeira lua e os gatos se deitarem sobre&lt;br /&gt;o muro, de olhos acesos, fingindo que perguntam.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Maria do Rosário Pedreira (&lt;em&gt;in&lt;/em&gt; «A Casa e o Cheiro dos Livros», Quetzal)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img height="400" src="http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/MRP2.jpg" width="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;«Alguém murmurará então o teu nome, vagamente,»&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;O silêncio da noite abafa todos os sons do mundo, as mais ínfimas deflagrações do corpo, o contorno infame das memórias tristes. Na cama vazia, a minha cama que já foi tua, enrosco-me em posição fetal, à espera do ruído da chave na fechadura, aquele ronronar do metal contra o metal, aquela doce melodia da porta que primeiro resiste e depois cede à sabedoria das tuas mãos, como eu tantas vezes no tempo em que as paredes deste quarto eram os limites do universo e nós ardíamos, às cegas. A noite abafa todos os sons do mundo e também o som da chave na fechadura, há uma espécie de nuvem em volta de todas as coisas, uma gaze que oculta os sinais que para mim já foram evidentes e deixaram de ser. Agora que despertei assustada e a tremer de frio, já não sei se voltaste ou não, se foste à rua comprar cigarros e agora fumas na varanda, debruçado sobre a cidade que dorme, ou se partiste de vez, para onde os meus olhos já não te alcancem. Os dígitos do despertador, traços verdes que piscam alegremente na escuridão, acentuando a tortura da insónia e espalhando o seu brilho fantasmagórico sobre os objectos caídos, sucedem-se a um ritmo ora constante ora variável, com acelerações e súbitas demoras, marés que sobem e descem enquanto a memória se enreda na sua própria vertigem. O relógio dos vizinhos espalha as cinco badaladas pelas salas cheias de bibelots e da falsa aparência de felicidade, uma felicidade toda sorrisos e netos ao domingo, placa dos dentes no copo sobre a mesa de cabeceira e corpos frios atravessando as horas desertas da noite, eu sinto cada uma das badaladas atravessando as paredes, cada uma das badaladas escavando a minha pele até aos ossos, ressoando por dentro de mim, lembrando-me golpe a golpe que talvez já tenhas partido, que talvez já não voltes a esta cama desarrumada, a estes braços desarrumados, a esta vida desarrumada. Agarro os joelhos e encolho-me ainda mais, enquanto no tecto passam sombras e reflexos, a luz do candeeiro público e o vulto dos automóveis que atravessam o silêncio espesso da noite, à espera quem sabe, como eu, da impossível redenção. Se estivesses aqui, ao meu lado, estendido sobre os lençóis, de olhos abertos, fazendo círculos invisíveis de fumo, sem palavras, a ponta acesa do cigarro agitando-se, talvez dissesse baixinho «não partas já». Mas não estás aqui. Os traços verdes do despertador iluminam a almofada lisa onde um dia vi a forma côncava da tua cabeça. O tempo passa devagar, com a placidez das coisas mórbidas. Daqui a pouco, sei-o bem, chegará a luz da madrugada, assassina de ilusões, e com ela a certeza de que já não existes; ou de que talvez nunca tenhas existido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img height="400" src="http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/MRP1.jpg" width="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8736564-110624535485707424?l=versodosversos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://versodosversos.blogspot.com/feeds/110624535485707424/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8736564&amp;postID=110624535485707424' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/110624535485707424'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/110624535485707424'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://versodosversos.blogspot.com/2005/01/12.html' title='# 12'/><author><name>JMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04083069720990124613</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8736564.post-110624505291819222</id><published>2005-01-08T17:59:00.000Z</published><updated>2005-01-20T18:17:32.920Z</updated><title type='text'># 11</title><content type='html'>&lt;em&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/EM3.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Adensaram-se nuvens&lt;br /&gt;e cirros ameaçadores.&lt;br /&gt;Uma sombra escura cai&lt;br /&gt;e o vento em turbilhão&lt;br /&gt;levou-a para o mar.&lt;br /&gt;Ergues-te como uma&lt;br /&gt;ave do paraíso real&lt;br /&gt;para me salvares com um golpe&lt;br /&gt;de surpresa. Fechaste&lt;br /&gt;a sombra escura que ameaçava&lt;br /&gt;a minha cabeça, com ágeis&lt;br /&gt;mãos de pianista.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Eugenio Montale (&lt;em&gt;in&lt;/em&gt; «Poesia», tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio &amp; Alvim)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/EM2.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;«Uma sombra escura cai»&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Valdemar Gouveia orgulhava-se das suas minucias de melómano. Todas as semanas, comprava umas quantas dezenas de discos novos: óperas, sinfonias, música de câmara. Todos os meses, retirava da sua caixa de correio revistas da especialidade, envoltas em celofane, e demorava-se a abri-las, como num ritual. Todos os dias, sentava-se na poltrona de couro, às escuras, olhando o Tejo na janela da sala e deixando-se mergulhar numa ária de Purcell ou numa canção de Schumann.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos três anos, sem que ninguém percebesse bem como ou porquê, Mariana Aboim sentou-se ao piano do avô, os pés bamboleando muito longe dos pedais, e conseguiu reproducir sem mácula uma melodia de Mozart, ouvida minutos antes no rádio da cozinha, sintonizado na Antena 2. Aos cinco, já tinha lições particulares com um velho concertista. Aos 12, provocava o espanto dos profesores nas récitas do Conservatório. Aos 18, arrebatava o primeiro lugar no Prémio Vianna da Motta, à frente de um pequeno génio japonês. Aos 22, gravava a integral das sonatas de Beethoven para a Decca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o médico lhe entregou o resultado dos exames, com as sobrancelhas muito arqueadas a denunciarem as más notícias, Valdemar respirou fundo e pensou nos crepúsculos que passaria em frente ao Tejo, na sua sala, à espera da morte. «Talvez a música me salve», pensou, «talvez consiga com ela enfeitiçar o porteiro do inferno.» Como o Orfeu de Monteverdi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando caminhou pelo palco até ao Steinway, com os olhos dos espectadores da Gulbenkian a estudarem cada um dos seus gestos e hesitações, Mariana teve uma intuição: «é hoje que vou chegar lá.» Pousou a partitura da sonata D. 960. Ajeitou o banco. Limpou as mãos. Esperou que a tosse do público abrandasse até ao quase silêncio. E atacou o teclado. Na sua cabeça, a música de Schubert, mais límpida e fluida do que nunca, como que refulgia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Por aqui, Sr. Gouveia.» Valdemar conferiu o bilhete. Sentou-se. Passou os olhos pelo programa e fixou um rosto jovem. Lembrava-se do Prémio Vianna da Motta, do apelido invulgar, de alguns perfis nos jornais: uma rapariga tímida, encostada a um piano de quarto-de-cauda. Daquela tarde, porém, não esperava muito. Não depois da quimioterapia, que o deixara zonzo. Não depois de ter ouvido aquelas notas tocadas por Alfred Brendel, por Sviatoslav Richter, por Maurizio Pollini. E no entanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/EM1.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8736564-110624505291819222?l=versodosversos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://versodosversos.blogspot.com/feeds/110624505291819222/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8736564&amp;postID=110624505291819222' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/110624505291819222'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/110624505291819222'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://versodosversos.blogspot.com/2005/01/11.html' title='# 11'/><author><name>JMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04083069720990124613</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8736564.post-110293499946112271</id><published>2004-12-10T10:47:00.000Z</published><updated>2004-12-13T10:49:59.460Z</updated><title type='text'># 10</title><content type='html'>&lt;em&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/API1.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;deixa o tempo fazer o resto&lt;br /&gt;fechar janelas&lt;br /&gt;aplacar os barcos&lt;br /&gt;recolher os víveres&lt;br /&gt;semear a sorte&lt;br /&gt;acender o fogo&lt;br /&gt;esperar a ceia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;abre as portas: lê a luz&lt;br /&gt;a sombra, a arte do passarinheiro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;com três paus&lt;br /&gt;fazes uma canoa&lt;br /&gt;com quatro tens um verso,&lt;br /&gt;deixa o tempo fazer o resto.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Ana Paula Inácio (&lt;em&gt;in&lt;/em&gt; «Vago Pressentimento Azul Por Cima», Ilhas)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/API2.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;«abre as portas: lê a luz»&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Quando Fabíola nasceu, com a mãe esvaída em sangue, rodeada de mulheres aflitas, baldes de água quente e orações a Nossa Senhora, o céu ficou subitamente escuro, embora na parede da sala de jantar o relógio insistisse que a manhã ainda ia a meio. Pela janela entreaberta, a súbita escuridão, o súbito arrefecimento do ar e o súbito silêncio dos pássaros entraram no quarto onde Fabíola encetava os primeiros gritos, o primeiro choro, o primeiro frenesim de ser vivo que respira e se atormenta com a realidade violenta do mundo. Lá fora, o disco negro da Lua ia escondendo o Sol, mais e mais, enquanto as mulheres aflitas cobriam com um lençol o corpo morto da mãe, um corpo ainda belo e assustadoramente lívido.&lt;br /&gt;Desde pequena que Fabíola ouvia histórias sobre o seu nascimento. A morte da mãe. O eclipse. Ela a sobreviver a um parto impossível. Histórias de milagres e maldições. Habituara-se já a esses relatos e nunca lhes dera a importância que sabia não terem. Quando se olhava ao espelho, nas manhãs dolorosas da sua adolescência, dizia apenas: «Sou órfã de pai e mãe, estou sozinha no mundo mas hei-de encontrar, mais tarde ou mais cedo, o meu caminho.»&lt;br /&gt;Pouco depois da morte da mãe, o pai de Fabíola, um espanhol que fugira da Guerra Civil, em 1936, e encontrara refúgio naquela pacata aldeia da raia alentejana, trabalhando à jorna nos campos, apanhando azeitona ou ceifando o trigo, também se cruzou com a má sorte. Numa noite em que bebera mais do que a conta, ao regressar a casa por um caminho escarpado, junto ao Guadiana, escorregou-lhe um pé no cascalho e foram dar com ele, cheio de moscas, cinco dias mais tarde, no fundo de uma cova, ali onde o rio desenha um S.&lt;br /&gt;Criada por uma prima, mulher de ventre seco mas muito instinto materno, Fabíola só soube a verdadeira história dos seus pais aos 17 anos, quando o marido da prima achou que ia sendo tempo da cachopa conhecer a verdadeira história do seu nascimento. Afinal era tudo verdade: a morte da mãe, o eclipse, o parto impossível. Num primeiro momento, odiou a prima e o seu marido, pela cobardia do silêncio e a usurpação filial. Depois, conformou-se. Rabiscou cadernos com desabafos e poemas tristes. Penteou-se em frente ao espelho. Imaginou cavaleiros de armadura reluzente, chegando a galope para a vir buscar.&lt;br /&gt;Uns meses mais tarde, quem apareceu na aldeia não foi o príncipe garboso mas um rapaz muito sujo e ainda assim encantador. Dentro de uma gaiola de vime, trazia rouxinóis. Fabíola encontrou-o ao pé da fonte. Eram três da tarde. E mesmo sem eclipse, para ela o resto do mundo escureceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/API3.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8736564-110293499946112271?l=versodosversos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://versodosversos.blogspot.com/feeds/110293499946112271/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8736564&amp;postID=110293499946112271' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/110293499946112271'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/110293499946112271'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://versodosversos.blogspot.com/2004/12/10.html' title='# 10'/><author><name>JMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04083069720990124613</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8736564.post-110218025127181450</id><published>2004-12-04T17:07:00.000Z</published><updated>2004-12-04T17:10:51.270Z</updated><title type='text'># 9</title><content type='html'>&lt;em&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/LQ1.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Abria a porta, e a nítida imagem&lt;br /&gt;– o teu rosto, o seu definido presente, a sua iludida memória –&lt;br /&gt;vinha fazer naufragar o escuro&lt;br /&gt;do longo corredor pela frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele tempo&lt;br /&gt;a aflita mancha de palavras azuis&lt;br /&gt;pulverizava certezas,&lt;br /&gt;segredava-lhe o livro ardente,&lt;br /&gt;o enigma da sua possibilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A aflita mancha de palavras azuis&lt;br /&gt;era distância não exercida,&lt;br /&gt;ludibriada pelo júbilo,&lt;br /&gt;houvesse crença na sua morada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abria a porta&lt;br /&gt;e o volume do medo bloqueava-lhe&lt;br /&gt;agora o passo&lt;br /&gt;do que antes fora toda uma vida.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Luís Quintais (&lt;em&gt;in&lt;/em&gt; «Verso Antigo», Cotovia)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/LQ2.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;«A aflita mancha de palavras azuis»&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No momento em que V. perdeu o controlo do renault Laguna, na A1, perto da saída para Leiria, N. estava a assinar, na FNAC do Centro Comercial Colombo, dezenas de exemplares do seu último livro de auto-ajuda zen: «Aquela Súbita Luz». Enquanto R. assiste, num camarote VIP, aos últimos minutos de um jogo do Manchester United com o Arsenal, em Old Trafford, B. entra numa carruagem de metro, na estação do Colégio Militar, a tempo de ver alguns elementos da claque No Name Boys que desenroscam lâmpadas, gritam obscenidades e exibem, com esgares simiescos, as suas tatuagens e barras de ferro. No pátio da prisão, junto ao gradeamento, F. olha para a lua, em quarto decrescente no céu do fim da tarde, e imagina como estará D. tantos anos depois (longe dali, muito longe dali, D. coze batatas para o jantar, com os olhos parados na água que ferve, sem saber porque lhe vieram de repente à cabeça versos japoneses, haikus que falam da neve e de árvores com pétalas vermelhas iluminadas pelo luar, poemas ditos há tantos anos por uma boca — os lábios finos de F., entreabertos — que as encruzilhadas da vida foram eclipsando). Sobre o Pacífico, num voo para Tóquio, A. tenta dormir mas não consegue porque os passageiros do lado, um casal de holandeses reformados, falam animadamente sobre uma nova fadista que ouviram ao vivo em Roterdão, 15 dias antes, e que está ali, nas páginas da revista oferecida pela Japan Airlines, chama-se H. e ao vê-la em pose, junto à Casa dos Bicos, numa fotografia cheia de filtros dourados, A. reconhece-a e não consegue conter a tristeza, muito menos as lágrimas. Quando a voz de H. parece que se deixa cair, a meio de uma canção, num requebro que leva ao êxtase o público do Coliseu, P. telefona a T. e a melancolia das guitarras espalha-se pela casa, chegando como que em surdina ao terraço onde E., abraçado à garrafa de gin, decifra as constelações sobre o mar de Lagos. Perdido nos seus sonhos de grandeza, M. não tem a lucidez suficiente para compreender que o seu Sistema filosófico nunca será mais do que é agora: um aglomerado de ideias dispersas, sem centro nem circunferência, espalhadas por rascunhos que ninguém compreende (nem compreenderá). É C. quem lhe diz a verdade, olhos nos olhos, depois de o salvar do desespero e do excesso de comprimidos. Na sombra, X. conta os minutos, junto ao telefone que não chegará a tocar.&lt;br /&gt;V, N, R, B, F, D, A, H, P, T, E, M, C, X. Só eu os conheço a todos. Só eu distingo, vista de cima, a teia que formam. O improvável labirinto. Apareceram sem que os chamasse e transformei-os em literatura. Uma aflita mancha de palavras azuis a esconder este vazio. A porta fechada da tua ausência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/LQ3.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8736564-110218025127181450?l=versodosversos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://versodosversos.blogspot.com/feeds/110218025127181450/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8736564&amp;postID=110218025127181450' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/110218025127181450'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/110218025127181450'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://versodosversos.blogspot.com/2004/12/9.html' title='# 9'/><author><name>JMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04083069720990124613</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8736564.post-110147788258370320</id><published>2004-11-26T14:01:00.000Z</published><updated>2004-11-26T14:13:19.303Z</updated><title type='text'># 8</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;img height="400" src="http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/MG1.jpg" width="400" /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Variações do branco&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Ergues o olhar: surpreendes por instantes essa hora&lt;br /&gt;em que o mundo envelhece: ténues as variações do branco&lt;br /&gt;parecem dissolvê-lo numa longínqua música, anterior à chuva&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou será então a imagem submersa de um filme a preto e branco&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há próximo um branco vibrante: o da cal ainda recente&lt;br /&gt;mas que a humidade salina já a espaços mordeu,&lt;br /&gt;recortando as feridas cinza na varanda a que vens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há ninguém aqui. Quem te chame, digo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há o branco baço na parede que em frente em vão separa&lt;br /&gt;rua e praia. Tendo já transposto essa fronteira incerta&lt;br /&gt;ou erguendo-se para lá dela há o branco pobre da areia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As dunas plenárias sustentam os corpos deitados de mar e céu.&lt;br /&gt;Aí é agora o grande branco: o clarão velado e difuso&lt;br /&gt;que guarda e distribui a memória embaciada do azul&lt;br /&gt;e do verde, do oiro e da prata — uma lembrança vã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tu escreves no visível do mundo essa névoa branca e desolada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;que o motor da paisagem produz. As folhas do ar são como&lt;br /&gt;se fossem as levíssimas pétalas, as vagas sílabas de uma neve –&lt;br /&gt;e essa névoa engolfa, atrasa e apaga na travessia os simulacros&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;das coisas supostas e imaginadas que o mundo te envia&lt;br /&gt;enquanto esperas por alguém que não virá&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;manuel gusmão (&lt;em&gt;in&lt;/em&gt; «migrações do fogo», Caminho)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img height="400" src="http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/MG2.jpg" width="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;«enquanto esperas por alguém que não virá»&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Tens a fotografia nas tuas mãos. A velha fotografia. À esquerda, o contorno das dunas, o brilho fosco da areia, o mar apenas sugerido, três gaivotas de asas abertas, nuvens imensas a encher o céu. Ao centro, numa espécie de penumbra, a casa: alvenaria batida pelos ventos, vigas de madeira carcomidas pela humidade salina, janelas rasgadas diante do furor oceânico, restos de cal e de um esplendor antigo. À direita, a imensa sombra da lagoa, o pinhal estendendo-se terra adentro — voraz — e com ele o princípio da estrada de todos os regressos, de todas as despedidas.&lt;br /&gt;Olhas para o pequeno rectângulo de papel rugoso, agora cheio de riscos, amarelado nas pontas. Quem captou aquela imagem já morreu há muitos anos. A casa já não existe; é só areia, corrosão, ruínas. E aquele que tu foste, dentro da casa, também desaparece aos poucos, devorado pela máquina ferrugenta da memória, perdido nesse passado que se vai tornando difuso, frágil e inútil — como uma teia de aranha.&lt;br /&gt;Sabes muito bem o que o tempo, esse assassino discreto, faz às coisas. Monta o cerco. Expande o deserto. Seca por fora e por dentro. Transforma tudo em pó. Nada lhe resiste. Nada. Nem sequer a imagem de uma casa frente ao mar que alguém, um dia, com paciência e nitrato de prata, fixou. Nem sequer esta velha fotografia que se desfaz, aos poucos, nas tuas mãos demasiado gastas.&lt;br /&gt;Segues agora, com o olhar, cada uma das linhas da imagem que se desvanece, os gradientes de um preto e branco cada vez mais submerso na irrealidade das coisas extintas. Percorres, às cegas, as fronteiras de um mapa imaginário: o mar escondido, as paredes onde a cal nunca se demorava, o crepúsculo violento atravessando as salas, as tábuas de madeira que rangiam nas noites de ventania, a bruma sobre a lagoa, uma voz saindo da escuridão com a forma do teu nome.&lt;br /&gt;Acendes, uma última vez, a memória. Ficas à espera. Mas a memória calou-se. As vozes não regressam, não há ninguém que te chame neste agora que veio depois de tudo o que se apagou, não há variações dentro da brancura espessa do esquecimento. A névoa engoliu tudo. Já não há azul, já não há verde, já não há oiro, já não há prata.&lt;br /&gt;Ainda assim, a fotografia continua entre os teus dedos. Intacta. Mas olhar para ela tornou-se uma violência. O que foi belo, magoa. O silêncio devora-te. O vazio é uma faca apontada ao coração. Sabes que nunca ninguém virá, nunca mais. Por isso aproximas do lume o rectângulo de papel rugoso. E vês arder tudo aquilo: a casa, o mar, as nuvens imensas, a tua infância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img height="400" src="http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/MG3.jpg" width="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8736564-110147788258370320?l=versodosversos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://versodosversos.blogspot.com/feeds/110147788258370320/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8736564&amp;postID=110147788258370320' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/110147788258370320'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/110147788258370320'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://versodosversos.blogspot.com/2004/11/8.html' title='# 8'/><author><name>JMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04083069720990124613</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8736564.post-110080100677482097</id><published>2004-11-18T16:24:00.000Z</published><updated>2004-11-18T19:08:40.613Z</updated><title type='text'># 7</title><content type='html'>&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/Herberto1.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Não toques nos objectos imediatos.&lt;br /&gt;A harmonia queima.&lt;br /&gt;Por mais leve que seja um bule ou uma chávena,&lt;br /&gt;são loucos todos os objectos.&lt;br /&gt;Uma jarra com um crisântemo transparente&lt;br /&gt;tem um tremor oculto.&lt;br /&gt;É terrível no escuro.&lt;br /&gt;Mesmo o seu nome, só a medo o podes dizer.&lt;br /&gt;A boca fica em chaga.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Herberto Helder (&lt;em&gt;in&lt;/em&gt; «Ou o poema contínuo», Assírio &amp; Alvim)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/Herberto2.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;«A harmonia queima.»&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Apercebeu-se do murmúrio quando foi à cozinha, às cinco da manhã, beber água. Ainda tinha a cabeça zonza e só uma ideia muito vaga dos locais por onde o seu corpo deambulara naquela noite: o restaurante da moda com pratos enormes, comida minúscula e empregados empertigados; o bar pós-moderno com néons vermelhos a piscar, vodca finlandesa e cronistas a discutir o cadáver ainda quente de Derrida; a discoteca «rebenta-tímpanos mas cheia de gajas boas» (no dizer de um amigo), atravessada por luzes estroboscópicas e executivos de olhos baços; a casa-de-banho em inox, com urinóis cónicos e superfícies lisas ideais para snifar uma linha de coca; o corpo suado da rapariga quase adolescente, carinha de capa da «Vogue» e um piercing algures no corpo («vê lá se o descobres»); o táxi a cair de podre com bancos em napa castanha e o vulto assustador, em cima do tablier, de uma Nossa Senhora de Fátima em miniatura, daquelas que muda de cor consoante o estado do tempo; as escadas do prédio e os passos cambaleantes até ao elevador, acompanhados pelo zoom indiscreto de uma câmara de vigilância; a porta blindada que faz um click mínimo quando a chave entra na fechadura; a banheira cheia de água quente e sais comprados em Londres; o quarto aquecido à temperatura ideal: 22 graus. Não se lembrava exactamente da hora a que chegara, nem de quanto tempo demorara a adormecer. Com o copo de água na mão, sentindo o frio dos mosaicos nos pés descalços, a única imagem nítida que lhe sobrava era a dos pesadelos recorrentes que lhe assaltam o sono, há demasiado tempo. Num desses pesadelos está no topo de um arranha-céus e o melhor amigo desafia-o a lançar-se lá de cima. Ele ri-se, diz «porque não?», começa a correr e atira-se de braços abertos no vazio. Depois puxa um cordel que lhe sai da lapela do fato Hugo Boss e fica à espera de sentir o corpo sacudido pela abertura brusca do pára-quedas. Só que o pára-quedas não abre e, enquanto continua a cair desamparado, volta-se para cima e vê o amigo no topo do edifício, dizendo-lhe adeus com a mão onde brilha, ostensivamente dourada, uma tesoura. «Delírios de um homem só», explicou-lhe um dia certa colega, com segundas intenções. «Sentimentos de culpa», diagnosticou o psicanalista. «A minha cabeça lixada, apenas isso», diz para si mesmo, já preso na teia da angústia, enquanto pousa o copo no lava-loiças. À sua volta, o apartamento caríssimo, cheio de coisas caríssimas. Tão perfeito. Tão harmonioso. Tão vazio. E de repente o murmúrio. Uma espécie de zumbido. Um tremor oculto. Os objectos com sombras cada vez mais estranhas. A escuridão ardendo atrás de cada porta. O murmúrio a instalar-se, definitivo, debaixo da pele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/Herberto3.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8736564-110080100677482097?l=versodosversos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://versodosversos.blogspot.com/feeds/110080100677482097/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8736564&amp;postID=110080100677482097' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/110080100677482097'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/110080100677482097'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://versodosversos.blogspot.com/2004/11/7.html' title='# 7'/><author><name>JMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04083069720990124613</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8736564.post-110080015707461546</id><published>2004-11-05T17:45:00.000Z</published><updated>2004-11-18T19:05:40.730Z</updated><title type='text'># 6</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/Celan1.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Flor&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;A pedra.&lt;br /&gt;A pedra no ar, que segui.&lt;br /&gt;O teu olhar, tão cego como a pedra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós fomos&lt;br /&gt;mãos,&lt;br /&gt;esvaziámos a treva, encontrámos&lt;br /&gt;a palavra, que subia do verão:&lt;br /&gt;flor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Flor – uma palavra de cegos.&lt;br /&gt;Os teus olhos e os meus olhos:&lt;br /&gt;vão em busca&lt;br /&gt;de água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Crescimento.&lt;br /&gt;Folha a folha acrescenta&lt;br /&gt;as paredes do coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma palavra ainda, como esta, e os martelos&lt;br /&gt;rodopiam ao ar livre.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Paul Celan (&lt;em&gt;in&lt;/em&gt; «Sete Rosas Mais Tarde – Antologia Poética», tradução de João Barrento e Y. K. Centeno, Cotovia)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/Celan2.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;«Os teus olhos e os meus olhos:»&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Ela disse-lhe baixinho: «Uma flor branca pode ser uma arma mortal». Ele fez que sim com a cabeça, quase envergonhado. Nas visitas à clínica, nunca mais lhe levou lírios. Só caixas de bombons com recheio de praliné, conversas de circunstância, cigarros e revistas cor-de-rosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há palavras que são iguais às coisas que nomeiam. Há palavras que não são iguais às coisas que nomeiam. Ele pensa na palavra tubérculo e não consegue imaginar formas semelhantes a uma batata. Ele pensa na palavra alumínio e consegue ver uma peça de metal que brilha. «Flor», por exemplo. «Dizemos flor e o próprio som parece uma corola que nos sai da boca. Dizemos flor e a língua fica com um sabor a pétalas». Ele vai pensando tudo isto na paragem, após a visita. O frio enfia-se pelas mangas do casaco. O autocarro nunca mais chega.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pedra. A pedra no ar. Uma coisa que voa. Uma palavra que voa. Matéria escura e sólida, sujeita às leis da física. Puxada para cima pelo nosso olhar e para baixo pela gravidade (mas a gravidade tem sempre mais força do que o nosso olhar). Ele recorda uma coisa que parece muito antiga mas não é: «Uma vez peguei numa pedra e atirei-a por cima do muro, embrulhada num papel que dizia: eis o meu coração, dou-to.» Infelizmente, naquela tarde ela não se sentara no lugar do costume e a pedra acertou-lhe em cheio na cabeça, com a aresta mais cortante. Desmaiou. Alguém chamou uma ambulância. Dois dias mais tarde, ele visitou-a na clínica. Ela não chegara a ler o papel, abandonado sobre a relva, manchado de sangue. Com a cabeça cheia de ligaduras, perguntou-lhe: «Que raio de pessoa seria capaz de fazer uma coisa destas?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na florista, cinco minutos antes da visita, decidira-se pelos lírios, apesar dos conselhos da vendedora puxarem mais para as rosas. Ao regressar a casa, cabisbaixo, pensou nos olhos dela. Já não sabia se eram azuis ou castanhos. Já não sabia se seriam capazes de o olhar, depois de conhecerem a verdade. Repetiu baixinho, para si mesmo: «Uma flor branca pode ser uma arma mortal». E acrescentou: «Um coração também.» &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/Celan3.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8736564-110080015707461546?l=versodosversos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://versodosversos.blogspot.com/feeds/110080015707461546/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8736564&amp;postID=110080015707461546' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/110080015707461546'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/110080015707461546'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://versodosversos.blogspot.com/2004/11/6.html' title='# 6'/><author><name>JMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04083069720990124613</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8736564.post-110079926412473250</id><published>2004-10-29T19:30:00.000+01:00</published><updated>2004-11-18T18:57:38.883Z</updated><title type='text'># 5</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/CO1.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O acender das luzes&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Quem ordena estes sonhos&lt;br /&gt;coordena, conduz&lt;br /&gt;os tractores cuidadosos&lt;br /&gt;do ocaso; êmbolos&lt;br /&gt;com frio; quando lavram&lt;br /&gt;o seu frágil fio de fogo&lt;br /&gt;nas árvores, na memória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E mais lentas ainda&lt;br /&gt;as turbinas: turbilhão&lt;br /&gt;que perturba vagarosamente&lt;br /&gt;a ordem interior das coisas&lt;br /&gt;que se deixam sonhar. Com&lt;br /&gt;a polpa dos dedos&lt;br /&gt;colhe-se a demora&lt;br /&gt;para ver melhor. Nenhuma&lt;br /&gt;colagem subliminar;&lt;br /&gt;nem linhas de lume,&lt;br /&gt;chispas, flechas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adormece talvez&lt;br /&gt;quem ordena; se as lâmpadas&lt;br /&gt;vagueiam e explodem&lt;br /&gt;entre ramagens excessivas;&lt;br /&gt;estes sonhos.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Carlos de Oliveira (&lt;em&gt;in&lt;/em&gt; «Trabalho Poético», Assírio &amp; Alvim)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/CO2.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;«Quem ordena estes sonhos»&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sonho 1:&lt;/strong&gt; O que vejo é uma espécie de lavoura celeste, astros abrindo sulcos no negrume do espaço sideral, uma cornucópia de cometas espalhando fogo pela galáxia e eu lá no meio, imóvel como o bebé cósmico do «2001», assistindo a tudo na plateia do universo, as várias dimensões da realidade sobrepondo-se – quarks, electrões, átomos, moléculas, células, gases a temperaturas inauditas, matéria incandescente, estrelas a nascer e a morrer, explosões de supernovas – e depois a fusão de tudo, um colapso de trás para a frente, o big bang ao contrário, bang bing, o silêncio do nada, o vazio anterior ao verbo divino e ao instante zero, uma escuridão que é só uma luz demasiado forte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sonho 2:&lt;/strong&gt; A sala é branca: quatro paredes, tecto, chão, nenhuma janela. A meio, uma mesa de metal brilhante, duas cadeiras. Tudo branco (um branco puríssimo, angélico). Mesmo as minhas roupas são brancas. Mesmo as roupas dele são brancas. Não sei o que faço aqui. Não sei quem é a pessoa do outro lado da mesa. Ambos procuramos, ao mesmo tempo, a primeira palavra. Estaremos mortos? Será isto a antecâmara do inferno? Será isto a antecâmara do paraíso? Ambos procuramos, ao mesmo tempo, a primeira palavra. O tempo passa. Bocas fechadas. Olhos nos olhos. Sabemos agora que nenhum de nós vai falar. Ignoramos ainda se isto é uma bênção ou o último dos castigos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sonho 3:&lt;/strong&gt; Os chacais aproximam-se do templo em chamas. À porta, mulheres e crianças procuram escapar às labaredas e aos rolos de fumo espesso, muito negro. Descem a escadaria de mármore, deixam-se cair sobre a terra, rogam aos céus por misericórdia. Com um cálice de prata nas mãos, o sacerdote atravessa a multidão e oferece-se aos animais sedentos de sangue. Junto ao rio, os animais cercam-no, derrubam-no, começam a arrancar-lhe pedaços de carne. O templo desaba num turbilhão de fagulhas, o ar tornou-se vermelho. Um dos chacais aproxima-se do sacerdote e finca-lhe os dentes na carótida. Esse chacal sou eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sonho 4:&lt;/strong&gt; Quem ordena estes sonhos também sonha coisas que outros ordenam. Há um labirinto onde se cruzam os sonhadores; um palácio de mil portas com mil sonhos à espera de um gesto ou de uma distracção. No meio da noite, ando às cegas pelo corredor, entro na casa de banho e acendo a luz. No espelho vejo o meu rosto: lâmpadas no lugar dos olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/CO3.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8736564-110079926412473250?l=versodosversos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://versodosversos.blogspot.com/feeds/110079926412473250/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8736564&amp;postID=110079926412473250' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/110079926412473250'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/110079926412473250'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://versodosversos.blogspot.com/2004/10/5.html' title='# 5'/><author><name>JMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04083069720990124613</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8736564.post-109853204795086572</id><published>2004-10-23T13:46:00.000+01:00</published><updated>2004-11-18T18:53:47.356Z</updated><title type='text'># 4</title><content type='html'>&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/Fiama1.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Fui criança, indo por um carreiro,&lt;br /&gt;a caminho do mar, mão na outra mão,&lt;br /&gt;entre árvores, pedras, insectos e aves.&lt;br /&gt;Toda a Natureza me coube nas pupilas,&lt;br /&gt;mestra de sentimentos, e eu discípula.&lt;br /&gt;E, se fechava os olhos, ela punia-me&lt;br /&gt;com o silêncio cruel das ondas,&lt;br /&gt;a mudez imerecida dos insectos,&lt;br /&gt;e a distância das aves, que doía.&lt;br /&gt;Se os abria, tudo me rodeava,&lt;br /&gt;apaziguado e meu,&lt;br /&gt;mas a mão que me trazia a mão&lt;br /&gt;puxava-me para a luz de cada dia.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Fiama Hasse Pais Brandão (&lt;em&gt;in&lt;/em&gt; «Cenas Vivas», Relógio d’Água)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/Fiama2.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;«com o silêncio cruel das ondas,»&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Recordo-me bem daquela luz, muito branca e vertical, caindo do céu a pique, como uma maldição divina. O sol em peso abatendo-se sobre a terra, devorando os contornos das ervas e das pedras, esbatendo as cores, sorvendo o próprio ar, a própria respiração, um fogo invisível a crescer por dentro da manhã. Os olhos, feridos pela claridade excessiva, eram incapazes de se levantar do chão, presos ao estreito caminho que serpenteava entre as estevas, ao longo da falésia, tão perto da lâmina azul do mar.&lt;br /&gt;Eu tinha 12 anos naquele verão, sob aquela luz. Na véspera, descobrira com espanto (e pavor; e alegria) o meu primeiro sangue, o primeiro sinal da mulher que ainda não era. O corpo: uma revolta de formas ainda incertas, curvas tímidas, suave arredondar da pele. A cabeça: uma explosão de imagens confusas, sentimentos desencontrados, ondas a chocar umas com as outras num caos de espuma. A noite: um domínio de sombras onde os piores pesadelos se materializavam.&lt;br /&gt;Depois, a aldeia como um assombro de cal e vozes murmuradas. Círculos de pessoas mais velhas: avós, o padre, vagos primos. Histórias incompreensíveis ditas por bocas incompreensíveis. O calor, animal bravio avançando pelas ruas desertas. Rapazes nos ramos das figueiras, rindo muito e esmagando nos bolsos os frutos negros, impossivelmente doces. Dentro dos quintais, cercados por valados de pedra solta, alfaias ferrugentas e restos de palha. Do interior das casas, cheiro a pão, risos, cantigas mal sintonizadas na telefonia. Ao longe, roncos de Famel Zundapp em estradas sem asfalto. Eu tinha 12 anos naquele verão, sob aquela luz. E caminhava por atalhos que iam dar, todos, à falésia. O mar ali ao lado, uma violência.&lt;br /&gt;Era então que fechava os olhos. Apertava com força as pálpebras até ver, por dentro da ilusória cegueira, riscos dourados, manchas brilhantes, deflagrações. Sem pensar, desligava-me do mundo. Já não estava sentada num torrão de terra vermelha, já não havia atalho, nem roncos de Famel Zundapp, nem ruas sufocadas pelo estio, nem carrinhos de mão cheios de alfarroba junto à cisterna, nem cordas de nylon com molas de plástico a segurar roupa escura, nem a voz suave da avó Elvira anunciando uma fornada de biscoitos. Havia só o meu corpo suspenso, essa incógnita. E o silêncio que me impunha. O súbito e cruel silêncio das ondas que eu sabia estarem ali, desfazendo-se contra as rochas.&lt;br /&gt;Ao abrir os olhos, o mundo regressava. Inteiro, brutal. Todos os sons ainda mais nítidos. A luz muito branca, a pique. E a mão que me haveria de salvar cada vez mais próxima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/Fiama3.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8736564-109853204795086572?l=versodosversos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://versodosversos.blogspot.com/feeds/109853204795086572/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8736564&amp;postID=109853204795086572' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/109853204795086572'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/109853204795086572'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://versodosversos.blogspot.com/2004/10/4.html' title='# 4'/><author><name>JMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04083069720990124613</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8736564.post-109853178390107904</id><published>2004-10-23T13:41:00.000+01:00</published><updated>2004-11-18T18:49:32.123Z</updated><title type='text'># 3</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;img height="400" src="http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/AMPC1.jpg" width="400" /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Recado aos corvos&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Levai tudo:&lt;br /&gt;o brilho fácil das pratas,&lt;br /&gt;o acre toque das sedas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixai só a incombustível&lt;br /&gt;memória das labaredas.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;A. M. Pires Cabral (&lt;em&gt;in&lt;/em&gt; «como se Bosch tivesse enlouquecido», João Azevedo Editor)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/AMPC3.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;«memória das labaredas.»&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os corvos estavam em todo o lado. No cimo das árvores, pairando sobre as fragas, no território incontrolável dos sonhos. Luísa tinha medo deles – um pavor absoluto, antigo, irracional, infantil – e tentava afastá-los pensando em coisas puras (mel, leite, lã). Mas não conseguia. Os corvos permaneciam, como sombras pousadas nos sítios mais estranhos: os ponteiros do relógio da igreja, a talha dourada do altar, a viga mais alta da sacristia. E também nas estantes de mogno da biblioteca do avô. E também no seu quarto de adolescente, sobre os reposteiros.&lt;br /&gt;Luísa sabia que estas aves negras eram ilusões, miragens que a sua cabeça criava para si mesma. O padre passou uma tarde, de candeia na mão, chama trémula afastando o escuro, mostrando-lhe que na casa de Deus só esvoaçam pombas (e acaso algum anjo). Deolinda, a criada de 87 anos, há três gerações na família, abriu as janelas do quarto e trepou, ligeira, os degraus de um escadote. «Vês, Luisinha», disse-lhe ufana, enquanto limpava o pó às flores de gesso do tecto. «Não há aqui nada. Essas coisas de que falas são bizarrias da tua imaginação impura».&lt;br /&gt;Saber que os corvos eram enganosas figuras do seu inconsciente não lhe servia de alívio. Dona Constança, desolada com a perturbação da filha (e com os zunzuns que se espalhavam pela aldeia), saiu da sua letargia de viúva toldada pelo luto recente e experimentou tudo o que havia para experimentar: confissões diárias (seguidas de um ror de Pai Nossos), chá de tília, banhos em água de rosas, caminhadas matinais no campo, unguentos, panos frios na testa, leituras intensivas da Bíblia.&lt;br /&gt;Os corvos, no entanto, persistiam. Luísa acordava todas as manhãs com os lençóis manchados de suor, esgotada por pesadelos em que eles rasgavam o fundo das trevas, como que saídos do círculo mais profundo do Inferno, espalhando à sua volta um crocitar maligno, feixe de silvos sobreagudos que tornavam ainda mais sinistros os bicos vermelhos de sangue.&lt;br /&gt;Um dia, voltou a perguntar de que forma morrera o pai. «Já to disse», respondeu Dona Constança, «foi ao largo da Corunha, num naufrágio terrível». Luísa sabia que a mãe lhe mentia. Nessa mesma noite, vira em sonhos o pai num descampado, sem olhos, coberto por dezenas de aves negras. O pai morto, assassinado por dívidas de jogo, maldizendo a família que o impedira de vender a casa, as baixelas, os últimos bens. «Que ardam todos!», gritava, numa aflição de possesso. «Que ardam todos!»&lt;br /&gt;Ao acordar, Luísa sorriu. No salão, após o pequeno-almoço, declarou-se curada: «Os corvos desapareceram, já não os vejo». Toda a gente suspirou de alívio, enquanto nos olhos da rapariga crescia agora o estranho brilho de um fogo vingador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img height="400" src="http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/AMPC4.jpg" width="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8736564-109853178390107904?l=versodosversos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://versodosversos.blogspot.com/feeds/109853178390107904/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8736564&amp;postID=109853178390107904' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/109853178390107904'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/109853178390107904'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://versodosversos.blogspot.com/2004/10/3.html' title='# 3'/><author><name>JMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04083069720990124613</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8736564.post-109853157752562145</id><published>2004-10-23T13:35:00.000+01:00</published><updated>2004-11-18T18:40:59.233Z</updated><title type='text'># 2</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/milosz1.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A tua voz&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Maldiz a morte. É-nos injustamente dada.&lt;br /&gt;Implora aos deuses por uma morte santa.&lt;br /&gt;Quem és tu? Um pouco de ambição, de desejo e de sonhos&lt;br /&gt;que não merece o castigo da agonia prolongada.&lt;br /&gt;Só não sei o que podes fazer sozinho com a morte dos outros:&lt;br /&gt;das crianças envoltas em chamas, das mulheres baleadas,&lt;br /&gt;dos soldados feitos cegos&lt;br /&gt;e que agonizam dias e dias, aqui e agora, ao teu lado.&lt;br /&gt;Sem abrigo é a tua piedade, muda é a tua voz&lt;br /&gt;e temes a sentença porque nada pudeste fazer.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Czeslaw Milosz (&lt;em&gt;in&lt;/em&gt; «Alguns gostam de poesia – Antologia», tradução de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves, Cavalo de Ferro)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/milosz2.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;«Sem abrigo é a tua piedade, muda é a tua voz»&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto espera pela hora da reunião, sentado numa cadeira Barcelona, Jonathan K. imagina a mão de Mies van der Rohe a desenhar com minúcia, há precisamente 74 anos, aquele prodígio de design. Tocando muito ao de leve no couro negro, pensa: «Isto sim é uma cadeira, não apenas um assento para corpos demasiado humanos».&lt;br /&gt;A reunião, marcada para as oito e meia, vai começar mais tarde. O CEO comeu qualquer coisa esquisita ontem à noite (certamente um dos malditos &lt;em&gt;hors d’oeuvre&lt;/em&gt; com que as galerias de Manhattan envenenam os seus clientes) e será substituído por um dos quadros superiores da empresa, infelizmente ainda a caminho, algures no trânsito caótico de Upper East Side. O encontro só começará por volta das nove horas, diz-lhe uma secretária demasiado sorridente. «OK», responde Jonathan, «eu espero». Um café? «Sim, obrigado, mas sem açúcar.»&lt;br /&gt;Na parede de tons claros, uma imitação tosca de Salvador Dali. Elefantes de patas gigantescas caminhando por entre os arranha-céus, uma mulher nua feita de gavetas, o silêncio espectral do deserto insinuando-se atrás da cidade de vidro. O quadro é horrível. Jonathan K. sente uma veia a pulsar no pescoço. «O que raio estou eu aqui a fazer?» Atrás de uma porta transparente, a secretária fala ao telefone e faz-lhe um sinal. Não se esqueceu do café. Continua a sorrir muito.&lt;br /&gt;Jonathan revê mentalmente a sua vida nos últimos quatro meses. A queda na piscina do hotel de Miami. O som da cabeça a bater numa aresta de cimento. O túnel de luz (igualzinho ao do quadro de Hieronymus Bosch). A sala dos cuidados intensivos, vista do tecto, &lt;em&gt;fora do corpo&lt;/em&gt;. As duas semanas em coma. O acordar violento, como quem regressa ao princípio de tudo. A demorada reaprendizagem dos gestos. O dia em que uma enfermeira porto-riquenha lhe trouxe gladíolos e recusou a gorjeta. A epifania daquela manhã de sábado em que decidiu, com a convicção dos profetas, emendar os muitos erros da sua existência.&lt;br /&gt;A outra vida, a vida anterior, está envolta numa espécie de nevoeiro. Já quase não se lembra dos anos passados em África. O negócio das armas, o tráfico de influências, os muitos mortos que as suas decisões, os seus lucros, engendraram. A fortuna manchada de sangue vai sendo repartida por fundações, ONG’s, empresas solidárias, causas filantrópicas. Foi também por isso que veio esta manhã até ao 53º andar da Torre Norte do WTC. «Serei algum dia capaz de salvar a minha alma?», pergunta-se.&lt;br /&gt;A secretária sorridente traz-lhe o café. Jonathan K. bebe-o junto à janela. No Patek Philippe, os ponteiros marcam 8h46. Pelo seu rosto passa, súbita e absurda, a sombra de um avião.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/milosz3.jpg" width="400" height="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8736564-109853157752562145?l=versodosversos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://versodosversos.blogspot.com/feeds/109853157752562145/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8736564&amp;postID=109853157752562145' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/109853157752562145'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/109853157752562145'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://versodosversos.blogspot.com/2004/10/2.html' title='# 2'/><author><name>JMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04083069720990124613</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8736564.post-109847253491163928</id><published>2004-10-22T20:13:00.000+01:00</published><updated>2004-11-18T18:32:19.236Z</updated><title type='text'># 1</title><content type='html'>&lt;img height="400" src="http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/wallace1.jpg" width="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Domínio do preto&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;De noite, à lareira,&lt;br /&gt;As cores dos arbustos&lt;br /&gt;E das folhas caídas,&lt;br /&gt;Repetindo-se,&lt;br /&gt;Redemoinharam na sala,&lt;br /&gt;Como as próprias folhas&lt;br /&gt;Redemoinhando ao vento.&lt;br /&gt;Sim: mas a cor das pesadas cicutas&lt;br /&gt;Veio a passos largos.&lt;br /&gt;E recordei o grito dos pavões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As cores das suas caudas&lt;br /&gt;Eram como as mesmas folhas&lt;br /&gt;Redemoinhando ao vento,&lt;br /&gt;Ao vento do crepúsculo.&lt;br /&gt;Varreram a sala,&lt;br /&gt;Tal como voaram dos ramos das cicutas&lt;br /&gt;Para baixo, para o chão.&lt;br /&gt;Ouvi-os gritar – os pavões.&lt;br /&gt;Seria um grito contra o crepúsculo&lt;br /&gt;Ou contra as próprias folhas&lt;br /&gt;Redemoinhando ao vento,&lt;br /&gt;Redemoinhando como as chamas&lt;br /&gt;Redemoinhavam na lareira,&lt;br /&gt;Redemoinhando como as caudas dos pavões&lt;br /&gt;Redemoinhavam ao fogo ruidoso,&lt;br /&gt;Ruidoso como as cicutas&lt;br /&gt;Cheias do grito dos pavões?&lt;br /&gt;Ou seria um grito contra as cicutas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da janela,&lt;br /&gt;Vi como os planetas se juntavam&lt;br /&gt;Como as mesmas folhas&lt;br /&gt;Redemoinhando ao vento.&lt;br /&gt;Vi como a noite veio,&lt;br /&gt;Veio a passos largos como a cor das pesadas cicutas&lt;br /&gt;Senti medo.&lt;br /&gt;E recordei o grito dos pavões.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Wallace Stevens (&lt;em&gt;in&lt;/em&gt; «Ficção Suprema», tradução de Luísa Maria Lucas Queiroz de Campos, Assírio &amp; Alvim)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img height="400" src="http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/wallace2.jpg" width="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;«Seria um grito contra o crepúsculo»&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um homem avança, muito devagar, contra a última luz do dia. O corpo enorme, ligeiramente inclinado para a frente, chapéu de feltro na cabeça, gravata de seda, fato de um cinzento metálico, quase tão cinzento como o céu baço do Connecticut. Estamos no princípio do Inverno de 1934. O frio queima-lhe as mãos sem luvas.&lt;br /&gt;Para trás ficou o escritório no primeiro piso do austero edifício da Hartford Accident and Indemnity, a companhia de seguros que o contratou, como advogado, há 18 anos. Para trás, também, tudo o resto: a solene escadaria de pedra; a fachada neoclássica com seis colunas jónicas; a reunião matinal do &lt;em&gt;staff&lt;/em&gt;; o café demasiado quente bebido no corredor; as cartas ditadas à secretária pessoal sobre cláusulas omissas do contrato com uns agricultores teimosos de Danbury; a placa que diz Vice-Presidente, ainda a brilhar de tão nova; os acenos respeitosos dos outros homens engravatados; a sua figura distinta de homem de negócios bem sucedido.&lt;br /&gt;Wallace Stevens avança contra a última luz do dia e esconde as mãos dentro do casaco. Hartford, com as suas casas banais habitadas por pessoas banais, pressente a escuridão que se aproxima como um arrepio. Ao longo da Asylum Avenue, alguns homens reconhecem-no e exclamam, com uma vénia: «Boa noite, Sr. Stevens». O crepúsculo tomou conta de todas as coisas. Há folhas caídas no chão.&lt;br /&gt;Do trabalho até casa, no número 118 de Westerly Terrace, são duas milhas. É o percurso diário: duas milhas para lá, duas milhas para cá, uma caminhada quase tão regular como os passeios de Kant pelas ruas de Königsberg. Quando passa em frente do Saint Francis Hospital, ou enquanto segue vagarosamente sob as árvores de Scarborough Street, Wallace Stevens já não é o executivo que elabora estratégias comerciais ou calcula margens de lucro. É só um homem enorme, ligeiramente inclinado para a frente e para dentro, a cabeça um tumulto de ideias sob o chapéu de feltro, o pensamento saturado de vocábulos, ritmos inescapáveis, versos nascidos da pura imaginação, &lt;em&gt;redemoinhando como as chamas&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;Stevens repete para si mesmo os poemas finamente cinzelados de &lt;em&gt;Harmonium&lt;/em&gt; (primeiro e até então único livro, publicado 11 anos antes). Em casa, tem Elsie à espera. E Holly, a filha pequena. Dois exemplos do impenetrável enigma feminino. Vindo do céu já escuro e a ameaçar neve, desce agora um melro que se põe a saltitar nos ramos de um cedro. A última luz do dia extinguiu-se. Ainda intacto, o antigo medo &lt;span style="font-size:130%;"&gt;- &lt;/span&gt;agudo como o grito dos pavões. Palavras soltas, dedos sem luvas, tão frios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src=" http://img.photobucket.com/albums/v521/fotosdna/wallace3.jpg" width="400" height="200" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8736564-109847253491163928?l=versodosversos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://versodosversos.blogspot.com/feeds/109847253491163928/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8736564&amp;postID=109847253491163928' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/109847253491163928'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/109847253491163928'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://versodosversos.blogspot.com/2004/10/1.html' title='# 1'/><author><name>JMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04083069720990124613</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8736564.post-109853062948376333</id><published>2004-10-22T20:10:00.000+01:00</published><updated>2004-10-23T12:23:49.483+01:00</updated><title type='text'>ENDEREÇO DE E-MAIL</title><content type='html'>Trocas de ideias, correcções, críticas, incentivos e sugestões de poemas podem ser enviados para &lt;a href="mailto:versodosversos@hotmail.com"&gt;versodosversos@hotmail.com&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;Ficamos à espera.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8736564-109853062948376333?l=versodosversos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://versodosversos.blogspot.com/feeds/109853062948376333/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8736564&amp;postID=109853062948376333' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/109853062948376333'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/109853062948376333'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://versodosversos.blogspot.com/2004/10/endereo-de-e-mail.html' title='ENDEREÇO DE E-MAIL'/><author><name>JMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04083069720990124613</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8736564.post-109847238018744519</id><published>2004-10-22T20:05:00.000+01:00</published><updated>2004-10-23T12:33:07.890+01:00</updated><title type='text'>PEQUENO PERCALÇO TÉCNICO</title><content type='html'>Uma das principais razões para termos criado esta página Web prende-se com o facto de o José Miguel Soares fazer, para cada poema, um verdadeiro portfolio fotográfico, embora só seja publicada uma imagem por semana. A vantagem do blogue é precisamente esta: a de poder reunir, à foto escolhida, mais umas quantas das que ficaram de fora na versão em papel.&lt;br /&gt;Infelizmente, algumas dificuldades técnicas não permitem que «O verso dos versos» arranque como queríamos; isto é, alternando palavras e imagens. Por enquanto, disponibilizaremos apenas os textos. Mais tarde, juntaremos as magníficas criações visuais do José Miguel. Queiram desculpar o começo a meio-gás. Como se costuma dizer, prometemos ser breves na resolução do problema.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8736564-109847238018744519?l=versodosversos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://versodosversos.blogspot.com/feeds/109847238018744519/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8736564&amp;postID=109847238018744519' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/109847238018744519'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/109847238018744519'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://versodosversos.blogspot.com/2004/10/pequeno-percalo-tcnico.html' title='PEQUENO PERCALÇO TÉCNICO'/><author><name>JMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04083069720990124613</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8736564.post-109844786626070805</id><published>2004-10-20T09:05:00.000+01:00</published><updated>2004-10-23T12:52:36.433+01:00</updated><title type='text'>INTRODUÇÃO</title><content type='html'>O impulso que nos levou a criar este blogue explica-se em poucas palavras: uma vez que o suplemento DNA (sai às sextas-feiras, com o «Diário de Notícias») não tem edição electrónica, decidimos criar na blogosfera um espaço onde se reflectisse – e ampliasse – a página que temos assinado semanalmente, a quatro mãos, no &lt;em&gt;clássico&lt;/em&gt; papel de jornal. Ou seja, uma versão internética de um projecto pensado para a imprensa, com a óbvia vantagem de chegar a mais (e diferentes) leitores. De preferência àqueles leitores que gostem de interagir e nos façam chegar o seu &lt;em&gt;feedback&lt;/em&gt;, seja por e-mail, seja através de comentários aos textos e imagens publicados.&lt;br /&gt;Comecemos então por clarificar um pouco melhor o conceito deste «O verso dos versos». A ideia surgiu em Setembro de 2004, sob a forma de um desafio que o Pedro Rolo Duarte, director do DNA, nos lançou: «e se vocês fizessem uma página em que se cruzasse ficção e poesia?» Aceitámos o repto e depressa chegámos a um modelo. Partiremos sempre de um poema forte, capaz de sugerir pistas para uma experimentação narrativa e fotográfica. No entanto, quer os textos (de José Mário Silva) quer as imagens (de José Miguel Soares) tentarão fugir às armadilhas da facilidade. O que se pretende não é &lt;em&gt;explicar&lt;/em&gt; o poema, muito menos &lt;em&gt;interpretá-lo&lt;/em&gt;, antes criar algo que "nasça" do poema e ao mesmo tempo esteja &lt;em&gt;para lá&lt;/em&gt; da sua matéria original. Nuns casos talvez sobreviva uma mesma atmosfera; noutros casos apenas um ou outro eco, um fio de luz, uma sombra (ou coisas ainda mais impalpáveis). O poema servirá sempre de inspiração, mote ou epígrafe, mas não mais do que isso.&lt;br /&gt;Iniciemos então o caminho, desconhecendo ainda onde ele nos poderá levar.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8736564-109844786626070805?l=versodosversos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://versodosversos.blogspot.com/feeds/109844786626070805/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8736564&amp;postID=109844786626070805' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/109844786626070805'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8736564/posts/default/109844786626070805'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://versodosversos.blogspot.com/2004/10/introduo.html' title='INTRODUÇÃO'/><author><name>JMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04083069720990124613</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry></feed>
